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SALVE ESTA DATA! 28/09

Homenagens aos mortos e rituais funerários na cultura iraniana


Salam amigos! Hoje comemoramos aqui no Brasil o feriado do Dia de Finados, que também existe em outras culturas. No Irã, não existe uma data específica em memória dos mortos, mas sim várias datas em memória de figuras importantes da religião, entre as quais a mais memorável é o Ashura, o ritual xiita do Martírio de Hussein no 10º dia do mês islâmico de Moharram (em 2017 foi comemorado em 01 de outubro).

Os povos iranianos herdaram de seus ancestrais indo-arianos diversas tradições que incorporaram elementos de crenças das antigas civilizações suméria, babilônia e elamita, entre elas, a crença na vida após a morte. Na antiga Pérsia, para ajudar a alma de um familiar que partia deste mundo, a família orava, jejuava e sacrificava animais durante três dias. Oferendas e consagração de alimentos eram feitas todo dia 30 de cada mês até completar um ano do falecimento. Acreditava-se que somente após um ano, a alma do falecido estaria completamente incorporada ao mundo inferior ou mundo dos mortos (não havia o conceito de céu, inferno ou purgatório). Também havia o festival de Todas as Almas (no Avesta era chamado Hamaspathmaedaya) celebrado sempre na última noite de cada ano, onde as famílias realizavam oferendas. Acreditava-se que neste dia as almas visitavam suas antigas casas à noite e partiam ao pôr-do-sol do dia de Ano Novo.

Por volta do fim do 3º milênio a.C, incorporou-se a cultura persa à crença de que pessoas importantes como guerreiros, nobres e sacerdotes que praticassem boas ações e rituais corretos nesta vida poderiam se unir aos deuses na eternidade. Cruzando a “ponte” (cujo nome é Chinvat no Avesta, e Sarat no Alcorão) eles entrariam em um Paraíso, onde todas os prazeres imagináveis são possíveis. Somente os merecedores do Paraíso poderiam cruzar esta ponte, enquanto o restante deveria cair  no reino subterrâneo da morte.

Com estas crenças veio também a ideia da ressurreição. Acreditava-se que um ano após a morte, aqueles que experimentaram as alegrias do Paraíso, tinham seus ossos erguidos da terra para se revestirem de carne imortal e se unificarem com sua alma no céu. Os antigos iranianos tinham o costume de deixar o cadáver exposto no topo de uma colina (“Torres do Silêncio”) para ser descarnado  pelos abutres. Os ossos limpos eram então enterrados com oferendas e rituais.

Com Zoroastro no segundo milênio a.C, surgiu a crença do julgamento da alma no outro mundo. O Paraíso se torna possível para todos aqueles que praticarem boas ações, não somente para aqueles que praticarem rituais, sejam homens ou mulheres, de qualquer origem.  Quem preside o tribunal é Mitra, acompanhado pelos arcanjos Soroush e Rashnu, que medem o grau de justiça de cada alma. Uma vez julgada, a alma é conduzida por uma bela donzela, a personificação de sua própria consciência ao paraíso da ressurreição ou ao inferno de tormentos eternos comandados por Ahriman (o diabo, ou Shaytan no Alcorão). Estas doutrinas, de origem zoroastriana influenciaram profundamente as filosofias judaico-cristãs e islâmica das eras posteriores.

Os antigos persas já tinham o costume de enterrar os mortos. Os membros mais importantes de uma família eram enterrados em poços profundos cobertos com um montículo de terra. As pessoas comuns eram enterradas em túmulos simples na terra. O termo zoroastriano dakhma vem deste período e significa túmulo. A comunidade zoroastriana dos dias atuais ainda segue muitas das antigas tradições. A menos que a morte ocorra à noite, o funeral se sucede em poucas horas, com todos vestidos de branco, recitando hinos e orações do Avesta. O corpo do falecido nunca deve ser tocado e uma simples ablução após o funeral irá purificar todos os participantes que participaram do ritual. As procissões normalmente são feitas em completo silêncio até adentrar a dakhma onde se seguem mais orações. 

Torre do Silêncio ou dakhma em Yazd: local onde eram realizados os ritos funerários zoroastrianos
 Até a metade do século XX no Irã, os corpos ainda eram deixados no alto das Torres do Silêncio, mas atualmente proibidas, utilizam-se caixões de chumbos para evitar o contato do cadáver com a terra considerada sagrada. Durante os três dias após a partida da alma são preparadas comidas especiais evitando-se o consumo de carne. No terceiro dia, mais rituais e orações são oferecidas e uma veste especial (Sedra) é abençoada a fim prover uma “cobertura espiritual” para alma do falecido. O choro e outras expressões de tristeza normalmente são evitados pelos zoroastrianos tradicionais. Eles consideram que tal comportamento pertence ao mundo de Ahriman.

Quando os muçulmanos conquistaram o Irã, muitas mudanças foram introduzidas na cultura. Os conceitos corânicos de vida após a morte foram herdados do judaísmo, e então indiretamente, das antigas fontes persas e babilônicas nos quais após a morte vem um julgamento seguido de recompensa ou punição. Após a morte a alma irá permanecer no Barzakh (intra-mundo) até a Rastakhiz (ressurreição). A hora do julgamento virá no fim do mundo com o poderoso ressoar da trombeta dos anjos. 

No Irã, um país onde 90% da população é de muçulmanos xiitas, cada uma das minorias religiosas segue os seus próprios rituais funerários. Muitos dos rituais funerários dos muçulmanos são uma forma de compensar as falhas no cumprimento dos deveres do crente enquanto em vida. Momentos antes da morte, os parentes do moribundo pedem o perdão de Allah realizando a oração funerária (Namaz e meyet). A pessoa que está morrendo é colocada em uma posição confortável com a face voltada para Meca. Algumas gotas de água benta de Karbala, a terra onde o Imam Hussein está enterrado são colocadas na boca da pessoa, versos do Alcorão são recitados e se a pessoa ainda estiver consciente é encorajada a pedir o perdão de Allah antes de partir. O corpo deve ser lavado e purificado de acordo com os rituais islâmicos com cânfora (também usado pelos zoroastrianos) e envolvido com um tecido branco por uma pessoa (mordeh shur) que também deve ser muçulmana e do mesmo sexo do falecido. 

Se a pessoa morrer durante o dia, o corpo será levado para a mesquita local ou para o cemitério onde irá receber os rituais de purificação. No entanto, se a pessoa morrer durante a noite, o corpo será mantido em casa com velas ou lamparinas acesas até o amanhecer, lembrando as antigas tradições pré-islâmicas. O livro sagrado (Alcorão) é colocado próximo a cabeça do falecido para protegê-la contra a influência de Shaytan. O corpo deve ser enterrado em até 24 horas após o funeral com a face voltada para Meca. Ao contrário dos zoroastrianos, choro e expressões de tristeza são esperadas e até mesmo encorajadas pelos muçulmanos.

No Irã atual, os muçulmanos utilizam roupas pretas como símbolo de luto durante 40 dias, e às vezes durante um ano (no passado também era utilizados o branco e o azul como cores de luto). Após 40 dias (ou após um ano) um membro mais velho da família troca o preto do luto por outra cor, isto significa que toda a família pode deixar de usar esta cor também. Os dias mais importantes são o ‘Hafteh’ (7º dia), ‘Cheleh’ (40º dia) e um ano após a morte (Sal). Nestas ocasiões parentes e amigos visitam o túmulo colocando flores, arranjos de velas e aspergindo água-de-rosas. Famílias mais abastadas doam comida de graça para os mais pobres, como uma boa ação a fim de favorecer o falecido aos olhos de Deus.

Encenação da Ashura "Martírio de Hossein" em Karaj, Irã
O islamismo xiita introduziu uma nova dimensão aos rituais funerários, isto é, o martírio. A jornada fatal do Imam Hossein em Karbala (celebrado no mês de Moharram) e o assassinato de seu pai Ali em Kufa (celebrado no mês de Ramadan), tornou-se o mais importante ritual em comunidade. Para os xiitas, participar e relembrar os eventos trágicos do martírio de seus santos é uma forma de renovar a fé. 

Por fim, ao visitar o Irã encontramos em todas as cidades, ruas e monumentos com os nomes dos Shahids, ou seja, os mártires da Guerra Irã-Iraque. Nos túmulos dos grandes poetas Hafez, Saadi, Ferdowsi entre outros, os iranianos de todas as gerações prestam tributos e homenagens. Nos vilarejos e nas cidades é comum ver famílias lavando o túmulo de seus parentes com água, enfeitando com flores e batendo com os dedos na lápide para “conversar” com seus falecidos.  A crença em outra vida sem dúvida move o povo iraniano da antiga Pérsia aos dias atuais.


Adaptado de Iran Chamber


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