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Guest post: O sabor da hospitalidade, visitando uma família iraniana no Brasil

Salam amigos! Aqui no blog, a Moça do Chá também abre espaço para você contar a sua história de amizade Brasil & Irã. E a nossa primeira história foi enviada pela querida amiga, colaboradora e correspondente em Brasília, Karla Mendes, contando sua visita a uma família de amigos iranianos que vive na capital do nosso país. Minha imensa gratidão a você Karla jun e à linda família de Alireza e Somayeh, que autorizaram a publicação das fotos e do texto. Convido a todos, a ler com carinho este belíssimo relato que nos ajuda a conhecer melhor os costumes domésticos do povo iraniano e sua respeitosa convivência com a cultura brasileira:


Por Anna Karla Mendes
Azizam Janaina,
Gostaria de dividir com você e seus leitores a alegria que senti ao viver um momento muito especial... Fui convidada para jantar na casa de um casal de iranianos, a querida Somayeh (34) e seu simpático marido Alireza (38), que moram aqui em Brasília há aproximadamente 5 anos.
A princípio eles vieram cumprir uma missão designada pela Embaixada do Irã, em Brasília, para lecionarem na Escola Iraniana que funciona no interior da Embaixada. Após o fim desta missão eles conseguiram entrar para o curso de Doutorado em Matemática da Universidade de Brasília – UnB, o que fez com que permanecessem nesta cidade, onde ficarão morando juntamente com suas lindas filhas, Fatemeh (11) e Fadiya (4), por mais dois anos.
Tanto a alegre e esperta Fadiya, quanto a doce e sociável Fatemeh, estudam em um Colégio particular da cidade e falam perfeitamente o Português e a Língua Persa. Por vezes Fatemeh ajudava a traduzir algo na minha conversa com os anfitriões. Fiquei muito feliz em saber que a pequena Fadiya nasceu nesta Capital.
Quando aceitei o convite pedi que pudesse participar da elaboração do cardápio para eu aprender mais sobre a manipulação dos pratos iranianos.  Dito e feito! O convite foi agendado para às 18hs do dia 19 de julho deste ano. Cheguei pontualmente e super ansiosa. Primeiro para conhecê-los melhor, segundo para aprender a fazer mais pratos do Irã e terceiro para comer mesmo! Afinal, a comida iraniana é uma das melhores que já provei e sinto muita saudade do sabor e aroma indescritíveis que possuem.
Ao chegar fui muito bem recebida por toda a família e apresentada às crianças. Eu já tinha tido a oportunidade de conhecer a Somayeh e o Alireza em uma reunião na UnB, organizada pelo Professor iraniano, Doutor Farhad Sasani, com o intuito de mostrar a cultura e costumes do Irã à Comunidade Acadêmica desta Universidade, mais especificamente para apresentar o Nowruz (Ano Novo Iraniano).
Preciso dizer que a primeira sensação que tive ao entrar na residência deles foi a de estar realmente na casa de iranianos. Não pelo visual, apesar dos tapetes persas em todos os cômodos da casa (inclusive na cozinha), mas pelo cheirinho característico de uma casa iraniana! Eu cheguei a me arrepiar de emoção, afinal só quem foi ao Irã, sabe como o desejo de retornar existe, não é mesmo Jana? E o cheirinho que senti remeteu minhas lembranças às viagens que fiz para lá.
Na nossa conversa inicial eu tive o prazer de degustar uns doces típicos feitos pela própria Somayeh, chamados “Malakeye badam” e “Nan karei”, apesar da aparência lembrar biscoitos amanteigados, eles tem gosto e aroma bem específicos, difícil de compará-los com algum outro que já comi, estavam decorados com chocolate granulado e pistaches.

Em meio às nossas conversas a lindinha da Fadiya sempre vinha me pedindo para brincar com ela no seu quartinho recheado de brinquedos!
Bom, fomos para a cozinha e encontrei encaminhados, o frango cozido, as mini almôndegas de carne e o arroz semi pronto, tudo isso para dar início ao preparo dos pratos principais: “Shirin Polo” e “Tah Chine Morgh”. Os principais ingredientes do “Shirin Polo” são: Arroz, mini almôndegas (também pode ser feito com frango), casca de laranja, cenoura, açúcar, pistache, amêndoas e “Hel” (aqui chamamos de Cardamomo). E do “Tah Chine Morgh”: frango (em pedacinhos, quase desfiado), iogurte natural, ovos e “Zaferon”, decorado com Zereshk e pistaches. Teve também, e eu adooooro, o “Tah dig” (parece uma rapa de arroz, mas feita com um pão tipo Sírio ou rodelas finas de batata, colocados ao fundo da panela), salada, uma tigela cheia de hortelã e cheiro verde (o que é muito comum consumirem com os talos mesmo) e de sobremesa a Somayeh fez Jele (Gelatina) decorada com pistache, amêndoas e banana.
Durante o preparo do jantar, o gentil Alireza serviu-nos Tchaí (maravilhoso chá iraniano) e ajudou a esposa em algumas manobras com os pratos. Fiquei observando atentamente, inclusive coloquei a “mão na massa”, ajudando a despedaçar o frango, rsrsrs... Eu fiquei encantada com as combinações dos ingredientes e do preparo tão minucioso e trabalhoso! Não é simples... tem todo um ritual e muito amor envolvido! O resultado não poderia ser outro, o menu ficou magnífico! Kheili khoshmaze (Muito delicioso)! E aquele ditado, “comer com os olhos”, cabe perfeitamente na culinária Iraniana, onde sabor, aroma e aparência compõem um conjunto imbativelmente harmonioso e delicioso!

Durante o jantar conversamos sobre os costumes Iranianos, e chegamos ao assunto CASAMENTO! E eu não pude deixar de perguntar à Somayeh, como foi, no caso deles, o pedido de casamento e todo o processo que rodeia os noivos até a cerimônia de enlace. E claro que tive a ajuda e o incentivo da curiosa da Fatemeh, que me ajudou a tirar do casal todos os detalhes sobre o assunto. 
Eu já conhecia certas formalidades da cultura de lá, mas me surpreendi como eles levam isso a sério. Resumindo, os dois, Somayeh e Alireza estudavam na mesma Universidade em Mashad, o Ali fazendo Mestrado em Matemática, e a Somayeh, Bacharelado em Matemática, também. Diga-se de passagem, essa jovem iraniana é linda e muito educada! Seus traços são suaves e seu comportamento reservado... (O que me fez entender o porquê do Alireza ter se interessado pelos atributos de Somayeh).
Alireza com boas intenções procurou a secretária do Departamento de Matemática para relatar sobre seu interesse em pedir a mão de Somayeh em casamento. Perceba que eles nunca haviam se falado antes... Diante desse acontecimento a Secretária procurou a moça e explanou sobre as intenções do Mestrando Alireza. Como Somayeh é reservada e preza pelos costumes daquele país, pediu para a secretária dizer que se o rapaz tivesse as intenções seguras de casamento que ele procurasse sua família. Foi então que o Alireza sabendo disso avisou seus pais, que telefonaram para os pais de Somayeh e marcaram uma visita. Durante toda a visita os pretendentes não se dirigiram diretamente um ao outro, a não ser para os cumprimentos. Nessa visita, a Somayeh relatou-me que a conversa girou em torno das qualidades que ambas famílias desejaram relatar sobre seus filhos: Qualidades, aptidões, caráter, comportamento ilibado, futura prospecção profissional, etc.
Após esse encontro, ficou agendada uma visita de retribuição dos pais da Somayeh à residência dos pais do Alireza. Percebendo a aprovação da sua família em relação ao seu futuro noivo, Somayeh solicitou na Universidade um encontro formal para conversar diretamente com o Alireza. Encontro em que ela disse a seu futuro noivo o que espera de uma relação para que possam construir um casamento digno e promissor, enfatizou que o respeito entre ambos deveria sempre prevalecer, e perguntou ao Alireza se ele queria tirar alguma dúvida sobre ela... Nisso ele apenas respondeu que não tinha nenhuma dúvida, pois no momento em que ele a observou na Universidade ele teve a certeza de que ela era perfeita para ser sua esposa.


Uau! Essa história foi de tirar meu fôlego Azizam Janaina... Eu e a filha do casal, Fatemeh, ficamos emocionadas com os relatos! Bom, voltando... Após essa conversa, aconteceu a visita dos pais da Somayeh à casa dos pais de Alireza, e sem a presença da futura noiva, acordaram tudo o que precisavam para dar início aos preparativos do casamento. Como costume do Islã, a noiva recebe um dote, não vou especificar o quanto eles combinaram, mas envolvem algumas centenas de moedas de ouro, e continha um número em especial: “14 de moedas de ouro”, perguntei o por quê deste número quebrado, responderam que era um número Sagrado para os Muçulmanos de seu segmento e que simbolizam os 14 Massoom, sendo os 12 Imames, o profeta Mohammad e sua filha Fátima. Achei incrível, pois a fé deles está presente em cada ação de suas vidas, nas mais simples do dia a dia, bem como nas mais especiais como em um casamento.
Já eram quase 23h e nós ainda estávamos ali sentados à mesa, comendo, conversando sobre a cultura iraniana e nos divertindo com as piadas contadas pela Fatemeh e pelo Alireza. Realmente eu estava diante de uma autêntica família iraniana. Foi uma noite muito agradável e especial, em que ficou claro o respeito que eles tem pelo Irã, e pelo Brasil também. Em meio às conversas e aos novos aprendizados eu tive mais certeza ainda de como o Irã se faz um país único, pois seu povo o representa muito bem, preservando seus costumes mesmo quando estão longe de seu país!
Sinto-me lisonjeada e agradeço à Somayeh, ao Alireza, às pequenas e lindas Fatemeh e Fadiya, pelo convite e por terem me recebido tão bem... Kheili mamnoon!
E assim, termino este depoimento parabenizando essa família linda e de bons costumes... e finalizo com a seguinte expressão iraniana: “Hich ja mesl khuneh khode adam nemishe”, com uma tradução próxima, significa dizer que: “Nenhum lugar pode ser igual (tão bom) como o nosso Lar”, ou seja, essa expressão equivale à nossa:  “Lar Doce Lar!”
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Quer enviar o seu relato também? É só entrar em contato comigo! 

Abraços carinhosos da Moça do Chá!


O adeus ao diretor Abbas Kiarostami e as lições que aprendemos com seus filmes

O diretor Abbas Kiarostami (1940-2016)
Salam amigos, os cinéfilos do mundo inteiro estão de luto. Faleceu ontem em Paris, na França, o diretor iraniano Abbas Kiarostami. Nascido em Teerã, no Irã, em 22 de junho de 1940, ele foi diagnosticado com câncer em março deste ano. O post de hoje é uma sincera e emocionada homenagem do blog Chá-de-Lima da Pérsia a este que foi um dos grandes ícones do cinema iraniano e mundial. 
Fazem poucas horas que ele passou para a eternidade, mas o mundo já se sente saudoso da sua arte. Com um estilo inconfundível e uma forma diferente de fazer cinema, de dentro do seu Irã natal, ele nos fez viajar e descobrir becos e vielas pulsantes de vida.  
Onde fica a casa do meu amigo? Quis saber uma expectadora brasileira há 4 anos atrás. E quem nos guia nesta jornada é um garotinho doce e gentil. E com ele vamos cumprir o dever de devolver o caderno do colega de escola com a responsabilidade de um adulto.  E Abbas, por meio deste menino nos ensina uma lição de amor, que enquanto houver  lágrimas nos olhos do amigo não podemos  descansar...
Cena do filme Onde Fica a Casa do meu Amigo? (1987)
Esse foi o começo de uma história de amor pelo Irã que Abbas nos ensinou a ver. Ele nos mostrou a humanidade desse país e se tornou um fenômeno mundial. Por meio de suas lentes o ocidente pode ouvir as vozes silenciadas de uma sociedade.  
Na discreta segurança atrás do volante de um automóvel ou no banco do carona, viajamos com homens e mulheres, protagonistas da vida real: 
Cena do filme Dez (2002)
  Aprendemos que o gosto das cerejas poderiam salvar a vida de um homem triste e perdido....
Cena do filme Gosto de Cereja (1997)
E vimos esperança de reerguer a vida dos escombros depois de um terremoto fatal. A lição de Abbas mais uma vez é que por mais tristes que estejamos a vida continua...
Cena do filme E a vida continua.... (1991)
Na escola de Abbas também aprendemos como solucionar um conflito e como podemos fazer pequenas coisas para consertar o mundo. 
Cena de  Duas Soluções Para Um Problema (1975)
E que o podemos fazer da busca pelo pão de cada dia uma aventura, assim como na visão de uma criança...  
Cena de O Pão e o Beco (1970)
Na garupa de uma motocicleta também viajamos para dar um abraço de perdão no pobre homem absolvido de um julgamento inusitado, cujo único crime foi ser apaixonado pelo cinema.
Cena de Close-Up (1990)
Depois de ver um filme de Abbas, também nos tornamos um pouco mais sensíveis. Uma garrafa de vidro rolando ladeira abaixo nos rouba a atenção por segundos eternos.  Ele é um educador do olhar, um alfabetizador visual, um mago da poesia da vida cotidiana.
Para nós, os amantes das artes, este é um dia de despedida e saudades. Ouso dizer que foi muito por causa de Abbas que o Chá de Lima da Pérsia começou (vide meu primeiro post). Porque assim como o protagonista de Close up queria ser Mohsen Makhmalbaf, eu também queria ser um pouco Abbas Kiarostami, como admiradora de sua forma de retratar a vida pela arte. Acredito que se o mundo aprendeu a amar o cinema do Irã, é também porque o nome de Abbas fez parte de sua história. 

Obrigada mestre Kiarostami por sua vida e por suas realizações!


Jovens artistas retiram o véu que encobre a imagem do Irã

Os nove artistas do coletivo Iran Unveiled
Um grupo de jovens fotógrafos, decide mostrar ao mundo o orgulho que sentem pelo seu país. Mas, eles vivem na República Islâmica do Irã! O que você espera ver? O projeto Iran Unveiled (Irã desvelado), idealizado pelos fotógrafos Mahya Jaberiansari, Saeid Moridi, Neda Monem, Bahram Habibi, Omid Scheybani, Farzad Abedi, Arash Ashkar, Alireza Khatibi e Reza Yaghoubi, nos dá a resposta para esta pergunta. Através de sua arte, eles esperam que o mundo mude sua visão e deseje conhecer mais sobre seu país. Com diferentes áreas de formação, de jornalistas a engenheiros biomédicos, estes jovens se uniram  e em setembro deste ano terão seu trabalho exposto no Kala Art Institute em San Francisco, Califórnia, levando para o outro lado do mundo cenas do cotidiano do povo iraniano.

Crédito da imagem: Arash Ashkar
Segundo a curadora do projeto, Mahya Jaberiansari o trabalho tem uma razão muito especial para ser exposto nos Estados Unidos: "Durante muito tempo, os americanos (e o mundo) somente tem visto e tem sido expostos ao Irã através das lentes da política, sanções e história que deixou completamente de fora a realidade da vida de seu povo".
As fotografias  procuram mostrar que cada iraniano tem um estilo de vida próprio, assim como os autores das imagens que vieram de diferentes áreas, mas tem em comum o interesse por capturar cenas da vida cotidiana. "Mas o que nos une é o Irã, a nossa paixão e amor pelo país com o qual todos nós nos identificamos. O que a mídia não mostra quando retrata o Irã é o lado humano do país", continua a curadora .

Crédito da imagem: Alireza Khatibi
O cenário das artes e da fotografia no Irã está cada vez mais ativo, e tanto iniciativas privadas quanto públicas são encorajadas pelas administrações locais. “Cada vez mais galerias de arte estão sendo abertas, o tempo todo", diz  Neda Monem, uma das fotógrafas do projeto. “O museu de arte contemporânea em Teerã está sempre atualizando suas coleções. Até mesmo os outdoors da cidade são usados para mostrar obras de arte de vez em quando, de modo que as pessoas que não se interessam ou não tem tempo, possam se familiarizar com os trabalhos artísticos que estão sendo expostos.”
“A arte em diferentes campos, especialmente a fotografia,” acrescenta  Bahram Habibi, “está se tornando um mercado crescente no Irã. Depois de um falso período em que todo mundo queria ser engenheiro ou médico, as oportunidades para estas áreas estão saturadas, então as pessoas estão aprendendo ir atrás de seus interesses e muitas se interessam pela arte.”

Crédito da imagem: Bahram Habibi
Uma das consequências da campanha da mídia ocidental contra o Irã é que muitas pessoas tem medo de visitar o país, achando que o seu povo é hostil e odeia tudo que vem do ocidente. “A maioria dos americanos pensa que irá se deparar com homens barbudos agressivos e mulheres de burqa, quando vão ao Irã” diz Neda Monem. “Na verdade, exceto em alguns lugares do sul do Irã, nenhuma iraniana usa burqa. E quando eles realmente visitam o país ficam maravilhados por serem recebidos pelas pessoas mais acolhedoras e amigáveis que já encontraram. Os estrangeiros que visitam o Irã também ficam surpresos com a riqueza da cultura e história, e a diversidade e beleza das paisagens. Eles também ficam impressionados ao descobrir que aqueles homens barbudos são na verdade hipsters tatuados que se encontram nos cafés."]

Crédito da imagem: Neda Monem
Bahram Habibi acrescenta: “Nosso projeto é mostrar através dessas fotos uma imagem mais nova e atualizada que é a mais próxima da realidade do nosso país, por exemplo como as pessoas vivem, nós também temos a nossa felicidade e amamos nossa cidade e nosso país. Eu quero mostrar que apesar de todas as diferenças, nossas vidas são as mesmas. Nós não somos os melhores, mas também não somos os piores. 
"Nós não queremos dizer que tudo no Irã é alegria e diversão, porque não é" diz  Mahya Jaberiansari. “Mas queremos dizer que nem tudo são sanções políticas e tragédias. Existe um outro lado da moeda que muitas pessoas ainda não viram e que nós queremos que as pessoas sejam capazes de distinguir entre estes dois lados."

Crédito da imagem: Reza Yaghoubi

Adaptado de Chasing the Unexpected