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Hoje é dia de Saadi de Shiraz

Saadi Shirazi 
Hoje, 21 de Abril, é o dia que os iranianos dedicam a um de seus maiores poetas. Vamos conhecer um pouco da vida e obra de Saadi de Shiraz: 
Saadi Shirazi (cujo nome de nascimento era Musharrif al-Dīn ibn Muṣlih al-Dīn) nasceu em 1213 na cidade de Shiraz. É considerado um dos principais poetas persas do período medieval, reconhecido não só pela qualidade de sua obra, mas também pela profundidade de sua sensibilidade social.
Muito jovem, Saadi saiu de sua cidade natal para estudar literatura árabe e ciências islâmicas em Bagdá. O período conturbado que se seguiu após a invasão mongol o levou a viajar pela Anatólia, Síria, Egito e Iraque. Suas obras também indicam que ele viajou pela Índia e Ásia Central. Saadi conviveu com as pessoas comuns, sobreviventes do massacre promovido pelos mongóis e se reunia até altas horas da noite trocando conhecimentos com mercadores, granjeiros, religiosos, andarilhos, ladrões e sufis mendicantes. Durante vinte anos ou mais, prosseguiu com sua rotina  de sermões, advertências, lições que se tornaram pérolas de sabedoria. 
Quando regressou a  Shiraz já em sua maturidade, a cidade sob o governo de Atabak Abubakr Sa'd ibn Zangy (1231-60) desfrutava de um período de relativa tranquilidade. Saadi não só foi bem recebido como ganhou o respeito do governador e foi designado entre os grandes da província. A partir daí adotou seu nome literário em homenagem ao governador Sa'd ibn Zangi para quem compôs também alguns dos mais belos panegíricos como gesto de gratidão, que foram incluídos no início de sua obra Bustan. Acredita-se que Saadi passou o resto de sua vida em Shiraz, onde faleceu em 1291. 
Suas obras mais conhecidas são o  Bustan (O Pomar), 1257 e o  Gulistan (Jardim das Rosas), 1258. O Bustan escrito inteiramente em versos rimados, consiste em histórias que ilustram as virtudes recomendadas aos muçulmanos assim como reflexões sobre as práticas dos dervixes.
O Gulistan (publicado no Brasil pela Editora Attar) escrito principalmente em prosa, contem historias e anedotas pessoais. O texto está intercalado com uma variedade de poemas curtos que incluem aforismos, advertências e reflexões humorísticas.

O mausoléu de Saadi com o seu Gulistan (Jardim de Rosas) em Shiraz 
A mistura peculiar de gentileza e cinismo, humor e seriedade na obra de Saadi, fazem dele um dos poetas mais encantadores da cultura persa. Seu deslumbrante mausoléu é um dos pontos mais visitados pelos turistas na cidade de Shiraz.

Um dia, caí sobre um punhado de argila perfumada,
Vinda do meu Amado.
Inebriado pelo perfume, perguntei:
“Es almíscar ou âmbar gris?”
A argila respondeu:
Não passo de um mero punhado de argila,
Mas associei-me a uma rosa.
A virtude da minha companheira
Exerceu sobre mim sua influência,
Embora eu permaneça
A mesma argila que sempre fui.

Uma noite chorava eu amargamente minha vida desperdiçada, e decidi, enfim, renunciar aos prazeres absurdos e ao tempo perdido. Ficar sentado a um canto, surdo e mudo, vale mais que ser escravo de uma língua indomável. Veio um amigo e tentou levar-me para os prazeres da cidade, mas recusei. Disse-me ele, então:

"Saadi no jardim das rosas", iluminura do séc. XVII
Enquanto ainda possuis
O poder da palavra,
Utiliza-o no regozijo e na alegria!
Amanhã quando vier o anjo da morte,
Não terás outra escolha senão o silêncio.

Mais tarde fomos passear nos jardins. Ele colhia flores e eu lhe disse: “não há permanência nas flores; o que não dura não merece devoção. Ele perguntou: “O que devo fazer” Respondi: “Vou compor um livro, O jardim das Rosas, que não perecerá”.

Leva uma rosa do jardim,
Ela durará alguns dias.
Leva uma pétala do meu Jardim das Rosas,
Ela durará a Eternidade.




Conto 1, do Livro IV – Das vantagens do silêncio

Conversando com um amigo, eu lhe disse: “Calo-me deliberadamente, pois parece-me que o bem e  mal vêm sobretudo da palavra e que nossos inimigos se apegam ao mal”. Ele respondeu: “O maior inimigo é aquele que não vê o bem”.

O homem perverso, ao ver o homem piedoso,
Trata-o como insolente mentiroso.
Para aquele que cultiva preconceitos,
O mérito é um grande defeito.
Saadi é uma rosa; mas é um espinho
Aos olhos dos seus inimigos.
O sol que ilumina o mundo
É detestável aos olhos da toupeira.

Conselho 110, do Livro VIII – Da conquista da sociedade


Perguntaram a um sábio: “Deus criou várias espécies diferentes de árvores e as fez carregarem-se de frutos e multiplicaram-se. Entretanto, nenhuma delas é chamada ‘livre’ como o cipreste. Qual a razão?” Ele respondeu: “Toda árvore floresce, dá frutos e seca segundo as exigências das estações, salvo o cipreste, que está sempre verde e fresco: tal é condição daquilo que é livre”.

Não ates teu coração a valores transitórios.
Por muito tempo depois dos califas,
O tigre continuará a correr em Bagdá.
Se podes, sê generoso como a tâmara;
Se não podes, então sê como o cipreste: livre.

(Traduções: Rosangela Tibúrcio, Beatriz Vieira, Sergio Rizek, a partir da versão de Omar Ali-Shah)

Baseado em Wikipedia e ZUNÁI Revista de Poesia & Debates


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