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Breve História do Cinema Iraniano

Cena de Era uma vez no Cinema, 1992 (Mohsen Makhmalbaf) 
O Cinema Iraniano tem recebido cada vez mais reconhecimento internacional nos últimos tempos. Alguns críticos consideram o Irã como o maior exportador de cinema nacional do mundo e artisticamente falando, ele pode ser comparado ao neo realismo italiano ou movimentos similares em décadas passadas. Muitos festivais internacionais abriram as portas para o cinema iraniano nos últimos vinte anos, por isso, vale a pena conhecer sua história desde os primórdios. 

Pioneiros do Cinema no Irã
Cena de Abi o Rabi, 1932 (Ovanes Ohanian)
O cinema tinha apenas 5 anos de existência quando chegou a Pérsia no começo do séc. XX. O primeiro cineasta persa foi Mirza Ebrahim Khan Akkas Bashi, o fotógrafo oficial do rei Muzaffar al-Din Shah (1896-1907). Após visitar  Paris em Julho de 1900, Akkas Bashi filmou a visita do Shah à Europa, mas atualmente não existem copias desse filme. Alguns anos depois Khan Baba Motazedi, outro pioneiro do cinema iraniano, documentou uma grande acervo de notícias durante os reinados das dinastias Qajar e Pahlavi.
Em 1904, Mirza Ebrahim Khan Sahhafbashi inaugurou  o primeiro cinema em Teerã. Até os anos 30, havia mais de 15 cinemas em Teerã e 11 em outras províncias. Em 1925, Ovanes Ohanian, decidiu estabelecer a primeira escola de dinema no Irã que passou a se chamar Parvareshgahe Artistiye Sinema (Centro Educacional de Artistas de Cinema).

A Era dos Clássicos: anos 30 a  40
Cena de A Garota Lor, 1933 (Abdolhossein Sepata)
Nos anos 30,  Ovanes Ohanian fez o primeiro filme mudo iraniano chamado Haji Agha. Em 1932 ele fez seu segundo filme chamado Abi o  Rabi. Naquele mesmo ano, Abdolhossein Sepanta fez o primeiro filme iraniano com áudio, intitulado A Garota Lor. Sepanta seguiria dirigindo filmes como Ferdowsi (sobre a vida do maior poeta do Irã), Shirin e Farhad (romance clássico) e Olhos Negros (a história da invasão de Nader Shah à Índia).  Em 1937, ele dirigiu  Laili e Majnoon, um romance oriental similar à Romeu e Julieta. 
O cinema iraniano atual deve muito de se seu progresso a Esmail Koushan e Farrokh Ghaffari, por estabelecerem a primeira Sociedade Nacional de Cinema Iraniano em  1949 no Museu Nacional e organizarem a primeira Semana de Cinema, na qual foram exibidos filmes em inglês. Ghaffari lançou as bases para o cinema alternativo e não-comercial no Irã. Os primeiros diretores  como Sepanta e Koushan aproveitaram a riqueza da literatura e mitologia persa e em seus trabalhos enfatizaram a ética e o humanismo. 

O cinema Pré-Revolução: anos 50 a 70
Cena de A Vaca, 1960 (Dariush Mehrjui)
Os anos 60 foram uma década muito significativa para o cinema iraniano, com 25 filmes comerciais produzidos anualmente em média, chegando a 65 no final da década. A maioria das produções eram focadas em melodrama e suspense. O filme que realmente impulsionou a economia do cinema iraniano e iniciou um novo gênero foi Ganj-e-Qarun (O Tesouro de Creso, 1965) de Siamak Yasami. Com o lançamento de Kaiser de Masoud Kimiay e A Vaca de Dariush Mehrjui  ambos em 1969, os filmes alternativos estabeleceram seu status na indústria cinematográfica iraniana. Os esforços de Ali Mortazavi  resultaram na formação do Festival Mundial de cinema de Teerã em 1973.

O Cinema Pós-Revolução
Cena de Salve o Cinema, 1995 (Mohsen Makhmalbaf) 
No começo dos anos 70, um Novo Cinema iraniano emergiu e após a Revolução Islâmica de 1979, alguns cineastas iranianos foram para o exílio, devido as mudanças e censuras promovidas pelo regime islâmico. Entre 1979 e 1985, foram lançados cerca de 100 novos filmes. 
Em 1982, o Festival anual Fajr financiou filmes e a Fundação de Cinema Farabi começou a tentar reconstituir o então desorganizado cinema iraniano. No ano seguinte, o governo começou a dar apoio financeiro. Esta mudança, encorajou uma nova geração de cineastas, que também incluía mulheres diretoras. (Veja também o post: O Cinema Iraniano das Mulheres)
Os filmes produzidos nos anos 80 ficaram conhecidos como o Novo Cinema iraniano para diferenciá-los daqueles das antigas raízes. Os filmes da chamada New Wave (Nova Onda) procuram abordar  temas como a família e as realidades do país, além da entrada no íntimo e filosófico dos personagens e a agonia do ser humano, temas presentes principalmente na obra de Mohsen Makhmalbaf. Outra característica é o estilo documentário herdado do cinema verdade de Dziga Vertov, sem a ficção presente em Hollywood.

Cena de Gosto de Cereja, 1997 (Abbas Kiarostami)
O cinema iraniano pós-revolucionário tem sido aclamado em muitos festivais internacionais por seu estilo, temas, autores, ideais nacionalistas e referências culturais. Começando por Viva... de Khosrow Sinai e seguido por excelentes diretores que emergiram nas últimas décadas, como Abbas Kiarostami e Jafar Panahi. Kiarostami, a quem alguns críticos elegeram como um dos maiores diretores da história plantou o Irã firmemente no mapa mundial do cinema ao receber a Palma de Ouro em Cannes por Gosto de Cereja, 1997.
Em 1997, o então eleito presidente Mohammad Khatami,  desempenhou um papel de ajuda para os cineastas alcançarem um maior  grau de liberdade artística. Um importante passo foi dado em 1998 quando o governo do Irã começou a financiar o cinema étnico.  A partir daí o Curdistão iraniano viu surgir numerosos cineastas como Bahman Ghobadi  e toda sua família, assim como outros jovens cineastas.  Em 2001 o número de filmes produzidos no Irã aumentou  de 27 (número de filmes produzidos em 1980) para 87.
Cena de A Separação, 2011 (Asghar Farhadi)
A presença constante dos filmes iranianos em festivais internacionais de renome como Cannes, Veneza e Berlim ganharam a atenção do mundo. Em 2006, seis filmes de diferentes estilos representaram o Irã no Festival de Berlim. Este foi considerado pelos críticos um ano marcante na história do cinema iraniano. Em 1998 o Irã foi indicado pela primeira vez ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro com Filhos do Paraíso de Majid MajidiA Separação de Asghar Farhadi finalmente foi vencedor em 2012.

O Cinema Iraniano Contemporâneo 
Cena de Exílio no Iraque, 2002 (Bahman Ghobadi) 
Hoje em dia, as salas de cinema no Irã são dominadas pelos filmes comerciais nacionais. Filmes ocidentais ocasionalmente são transmitidos na TV estatal. Filmes de arte iranianos geralmente não são divulgados oficialmente, e se tornam conhecidos através de  DVDs  piratas que podem ser facilmente adquiridos. Apesar disso, alguns desses aclamados filmes foram mostrados no Irã e se tornaram sucesso de bilheteria, por exemplo: Eu sou Taraneh, 15, de Rassul Sadr Ameli , Sob a Pele da Cidade de Rakhshan Bani-Etemad ,  Exílio no Iraque  de Bahman Ghobadi e  Prisão de Mulheres de  Manijeh Hekmat.
O cinema iraniano aclamado internacionalmente é bem diferente daquele que é feito para o público iraniano. Este cinema comercial iraniano é praticamente desconhecido no Ocidente. Filmes sobre a vitória da Revolução Iraniana de 1979 e a subsequente guerra Irã-Iraque, permeados de fortes ideais religiosos e nacionalistas e os típicos filmes estrelando atores populares.
Oficialmente, o governo iraniano despreza o cinema americano, apesar disso numerosos filmes ocidentais como Paixão de Cristo, Casa de Areia e Névoa, Capitão Sky e o Mundo de Amanhã, Os Outros e O Aviador foram mostrados nos cinemas iranianos e nos festivais de filmes iranianos depois da Revolução. Apesar do grande orgulho de mais de 100 anos de história do cinema iraniano, o cinema ocidental é enormemente popular entre os jovens iranianos, e pode-se encontrar praticamente qualquer lançamento de Hollywood disponível em DVD. A TV estatal também passou a transmitir mais filmes ocidentais, em parte por causa dos milhões de iranianos que passaram a utilizar TV via satélite banida pelo governo. Não há um grande interesse dos iranianos pelo cinema árabe, mas o cinema indiano é relativamente popular e de 6 a 8 filmes de Bollywood chegam às salas de cinema do Irã a cada ano.

Profusão em meio à Censura
Cena de Fora do Jogo, 2006 (Jafar Panahi)
Embora a indústria de cinema iraniana seja extremamente prolífica, o trabalho dos cineastas é constantemente ameaçado pela censura, inclusive antes da Revolução. Por exemplo, o clássico A Vaca (1969) de Dariush Mehrjui considerado um trabalho pioneiro da  New Wave iraniana foi censurado durante o regime do xá, por mostrar um Irã rural, que ia contra a visão progressista da monarquia. Ironicamente o filme foi patrocinado pelo governo e sua prominência nos festivais internacionais irritou ainda mais o regime. 
Após a Revolução os cineastas enfrentaram ainda mais restrições. Desde a metade os anos 80, a política de censura no Irã tem mudado com o intuito de promover filmes nacionais. A censura mais estrita diminuiu após 1987. Antigos diretores ressurgiram e outros novos despontaram. As regras da censura muitas vezes são incoerentes: muitos filmes proibidos no Irã receberam aval para ser exibidos em festivais internacionais.  Em geral os filmes censurados são aqueles que incluem  cenas sensuais,  alguma bandeira de ativismo feminista ou questionamento aos ideais do governo. 
Enfim, a história da valente luta dos cineastas iranianos pela liberdade de expressão será assunto para um próximo  post. 


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