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Viagem ao Irã: De Yazd à Isfahan

Jardim Dowlatabad, Yazd
Salam amigos, hoje vou narrar como é estar entre locais sagrados zoroastrianos e a maior praça do mundo no mesmo dia.
Dia 05/09/13: Acordei por volta das 7:00 e terminei de arrumar minhas malas para deixar o hotel Oasis em Yazd. Meu amigo Ehsan veio me buscar em seu carro para uma última visita pela cidade. Antes do sol esquentar, caminhamos pelas vielas "sem fim" das cercanias. Ehsan me explicou algumas características da arquitetura dessas vielas como as paredes bem próximas para evitar o sol, os depósitos de gelo e os famosos badgirs (torres de ventilação). Depois de nos perdermos um pouco por essas vielas onde casas rústicas se unem a instalações modernas de luz elétrica e automóveis, fomos tomar o café-da manhã no chiquérrimo hotel Safaiyeh. A arquitetura desse hotel imita os estilos da arquitetura tradicional iraniana, o interior é decorado com lindas pinturas que representam cenas do Shahnameh (reproduções daquelas que eu havia visto no museu de Tus). Fiquei tão deslumbrada com a arquitetura que enfiei o pé em uma fonte que havia no meio do hall e fiquei com a sapatilha toda molhada... O café da manhã oferecido no hotel era bem iraniano, comi ovos com pão, geléia, halva, melancia e o tradicional cházinho. Ehsan me explicou que durante o mês de Ramadan os iranianos aguentam o jejum comendo halva antes do nascer do sol. Era a energia que eu precisava para o passeio e a viagem de 5 horas até Isfahan. Assim como no hotel Oasis, ali também as moscas e abelhas também disputavam avidamente a nossa refeição.

Um passeio pelas vielas estreitas da cidade antiga
Depósitos de gelo com badgirs (torres de vento)
Muros altos e bem juntos para evitar o sol
Hotel Safaiyeh (Imagem: Tripadvisor)
Para quem não sabe, Yazd é o centro da cultura zoroastriana no Irã. O primeiro local que  Ehsan me levou para conhecer foram as famosas Dakhmeh conhecidas como"Torres do Silêncio", que  na verdade é um complexo funerário com construções circulares no alto de duas montanhas de terra ao lado do cemitério zoroastriano. No passado, esses eram os locais onde os zoroastrianos depositavam os mortos a fim de serem devorados pelos abutres (a religião proíbe o contato dos corpos em decomposição com a terra considerada sagrada). O local não fica tão distante da cidade e não precisa pagar para entrar, havia vários turistas italianos com seu inconfundível falatório. Ehsan me convidou para escalarmos justamente até o topo da torre mais alta, o que para mim representou uma grande dificuldade devido a minha falta de preparo físico e de sapatos adequados. Eu olhava para baixo e suava frio, enquanto Ehsan segurava minha mão e ria da minha total aversão à altura. Mas a visão que se tem do alto da torre compensa tudo! 
No alto da torre vemos um grande buraco vazio cheio de pedras. Ehsan me explicou que ali era onde os mortos eram jogados, após serem descarnados pelos abutres. Eles ficavam em uma posição sentada e após alguns dias, um sacerdote subia a torre, jogava ácido no esqueleto para terminar a decomposição e o empurrava dentro do buraco. Há ainda uma lenda que dizia que se os abutres devorassem primeiro o olho direito a pessoa ia para o céu, e no caso do olho esquerdo ia para o inferno. O mais sinistro é que até 40 anos atrás essas torres ainda eram usadas, mas felizmente eu não consegui notar ao redor nenhum vestígio que indicasse essa cena macabra. Do alto dessa torre também podemos ver um belo panorama de Yazd com seus contrastes de cidade grande poluída encravada no meio de um deserto com grandes áreas verdejantes. Bem ao lado da torre está o cemitério zoroastriano, cercado por muros, reminiscências de construções em adobe onde eram realizados as cerimoniais fúnebres e a outra torre que preferi não subir devido ao cansaço mesmo.
Dakhmeh ou "torres do silêncio" (eu escalei a da esquerda!)
A segunda "torre" vista do alto da Dakhmeh
No topo da torre: vista do cemitério zoroastriano e a cidade de Yazd 
Para descer da torre é mais fácil, porém a trilha é um pouco escorregadia, e no meu caso, com uma das sapatilhas ainda molhada, me senti patinando em quiabos. Na parte plana do complexo, passamos por dentro das construções de adobe em ruínas onde havia uma cabeça de um boneco em tamanho humano que alguém colocara  dentro de uma galeria em um nicho na parede não sei com que finalidade. Imagina o tamanho do susto que eu levei! Ehsan continuava admirado de como uma pessoa tão café-com-leite como eu, que tinha medo de tudo teve a coragem de visitar um país tão distante sozinha. 
Depois dessas emoções fomos para outros locais mais suaves. Visitamos o  Atashkadeh , ou "Templo do Fogo", outro importante local sagrado dos zoroastrianos. O templo não é tão grande quanto parece nas fotos, mas fica em um belo jardim, e destaca-se pela sua linda fachada com um relevo colorido do faravahar. O fogo sagrado que arde há 1500 anos, alimentado apenas por lenha, sem nenhum combustível artificial, fica guardado dentro de uma sala, onde podemos avistá-lo por trás de um vidro. Os turistas que vem de todo o Irã tiram fotos sem parar, mas a entrada na sala do fogo, só é autorizada para o sacerdote zoroastriano.  Ao lado do templo há um pequeno museu que mostra os costumes e tradições do Zoroastrismo, religião fundada pelo profeta Zoroastro na antiga Pérsia com uma pequena comunidade no país até o dia de hoje. Porém as legendas estão todas em persa e Ehsan teve que me explicar tudo.  
Atashkadeh, o "Templo do Fogo"
Atrás do vidro, o fogo sagrado que arde há 1500 anos!
Trajes tradicionais dos zoroastrianos, masculino e feminino
Ícones, livros, e objetos símbólicos dos zoroastrianos
Por fim, seguimos para o Jardim de Dowlatabad que não é tão bonito quanto nas fotos, mas tem o seu charme de jardim persa com a tradicional fonte de água margeada por ciprestes e flores percorrendo sua extensão. Logo da entrada notamos o gigantesco badgir construído no alto do edifício principal, que é um casarão em  forma de octógono com  paredes de adobe e uma imponente fachada com vitrais coloridos, no mais marcante estilo tradicional da arquitetura iraniana. No  interior há um grande pátio circundado por salões que se abrem em varandas em cada um dos lados do edifício.
Jardim Dowlatabad
Vitrais coloridos, vistos do interior do casarão
Pátio com a marcante arquitetura tradicional iranaina
Vista de um das varandas (posei sem o véu mesmo, ninguém viu...)
Todos esses passeios foram feitos com bastante calma, porque saímos bem cedo e minha passagem estava marcada para as 13:00. Além da agradabilíssima companhia de Ehsan, que além de um ótimo amigo é uma pessoa culta e um verdadeiro cavalheiro. Ele é veterinário e já havia visitado o Brasil por três meses a trabalho, sabia falar algumas palavras em português e era divertido ouvir a opinião pessoal dele sobre o meu país. Ele  considera os brasileiros como um povo alegre de bom coração, que sabe viver. Porém ele disse que é difícil encontrar brasileiros que falam inglês e que de fato ficou muito admirado com a minha coragem de "vestir o hejab e encarar o Irã". Me perguntou se era difícil para mim usar o véu e não entendia porque as mulheres brasileiras tinham tanto receio visitar o Irã apenas por ter que mudar um pouco sua vestimenta. 
Antes de ir para o terminal, Ehsan comprou um chelow kebab  para nós porém  não conseguimos almoçar, talvez por termos comido o halva no café da manhã. Realmente foi difícil me despedir desse super amigo de Yazd, ele ficou comigo no terminal até o último minuto e ao subir no ônibus meus olhos lacrimejaram. Mas como o Irã é cheio de surpresas boas, no ônibus eu me sentei logo no primeiro assento, ao lado de uma moça chamada Fateme que ia para Isfahan encontrar seus amigos que estavam à caminho de Tabriz. Ela falava inglês e era muito amável, e conversar com ela tornou agradável a tediosa estrada desértica e montanhosa entre Yazd e Isfahan.  Tive o azar de na mesma hora meus créditos e bateria do celular acabarem! E esse anjo ainda me ajudou na difícil tarefa de contatar a família de minha amiga Tina que me receberia em Isfahan. Fateme disse que  que enquanto eu não conseguisse localizá-los, ela jamais me deixaria sozinha... 
O ônibus da Hamsafar era tão bom quanto o outro que eu chegara em Yazd. O motorista que era de Isfahan nos deu pêssegos. Fateme explicou que os isfahanis eram generosos assim mesmo, contrariando a fama de mão-fechada  que eu ouvia dos amigos de outras partes do Irã. 
Cheguei em Isfahan por volta das 18:00. É uma cidade grande bem parecida com Teerã e Tabriz. Minha amiga Tina, junto com seu pai e irmão me esperavam no terminal Kaveh e eles deixaram Fateme em um outro terminal onde encontaria seus amigos e depois partiria para Tabriz. Me despedi dela e trocamos nosso contatos. 
Minha amiga Tina é uma bela moça iraniana, um ano mais velha do que eu, formada em inglês e seu divertido irmão dois anos mais novo, Nima felizmente também fala essa língua. Antes de irmos à casa deles que ficava bem longe do centro, fomos à casa da avó. A casa era bem tradicional e aconchegante e toda a família estava reunida, e me receberam com muito carinho. Era uma família linda, a vovó, uma velhinha bem pequenina e fofinha me encheu de beijos e a mãe e as tias de Tina me chamavam de ghashang (bonita) e as crianças de khale khareji (tia estrangeira). Todos na grande sala me olhavam com os olhos curiosos enquanto eu comia as frutas que me ofereceram.
A deslumbrante Praça Naghshe Jahan
Fachada da Mesquita Imam
Entrada do Grande Bazar de Isfahan
Detalhe do interior do Bazar
Loja de Artesanato Minakari 
Naquela noite mesmo a família (Tina, o pai, a mãe e o irmão) me convidou para conhecer o cartão postal de Isfahan, a magnífica Meidan-e Imam, também conhecida como Praça Naghsh-e Jahan ("Imagem do Mundo"). Eu confesso que quase tive um piripaque ao ver de perto aquela grandiosidade. A praça é um retângulo cortado por duas vias onde passam carros, mas os arredores são todos dominados por infindáveis lojinhas de artesanato. A face sul é onde fica a Mesquita Imam, a oeste o Palácio Ali Qapu, a leste a mesquita Lotfollah e a norte o Grande Bazar. Sentamos em um cantinho para saborear um tradicional sorvete bastani com faludeh e depois passeamos pelo Bazar onde o a qualidade do artesanato nos salta aos olhos. Achei o Bazar de Isfahan um pouco mais transitável do que os outros onde estive anteriormente. Lembro de ter visto tantas lojinhas e tanto artesanato lindo que atacariam o meu instinto consumista, porém eu caminhava me arrastando de tanto cansaço, pois minha manhã em Yazd já havia sido repleta de aventura.
No caminho de volta para casa, comemos dentro do carro mesmo um sanduíche daqueles macro, que matam minha fome por dois dias com Coca-Cola. Eles moravam em um conjunto habitacional em um apartamento mediano mas bem espaçoso e aconchegante. Como mandava a boa hospitalidade iraniana Tina me cedeu sua própria cama e disse que eu poderia ficar bem à vontade com sua família. Me instalei no quarto de Tina, tomei um banho e fui dormir agradecendo a Deus por estar novamente na casa de uma família iraniana.
No próximo post vamos passear um pouco mais pela cidade de Isfahan e ver como os isfahanis são divertidos! Até a próxima e  Khoda negahdar


2 comentários

  1. Salam Janaina!
    Cada vez mais fico encantada com os lugares que vc visitou e com sua narrativa. Ainda não tive a felicidade de visitar o Irã, como vc. Mas, a gente viaja para lá, lendo o seu texto!
    Obrigada por compartilhas essa experiencia maravilhosa!
    Grande abraço,
    Ana.

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    1. Salam Ana! Cada vez que vejo seu comentário aqui me enche de alegria! Acredite que um dia você também vai viajar para o Irã pessoalmente e mais uma vez agradeço por conseguir viajar com minhas narrativas!
      Beijos da Pérsia!

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