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Viagem ao Irã: Tinuj, um vilarejo nas imediações de Qom

O Vilarejo de Tinuj
Salam amigos! No post de hoje vou narrar minha visita ao remoto vilarejo de Tinuj e minha despedida de Qom:
Dia 09/09/13: Acordei bem cedo, e me preparei para conhecer Tinuj, o vilarejo do pai de Malihe. Antes de sair não tomamos café, mas Malihe levou em uma super mochila com o nosso café da manhã e até uma panela com o nosso almoço. Para chegar a Tinuj que fica a cerca de 30 minutos de Qom, mais próximo da cidade de Tafresh, pegamos dois táxis. O vilarejo fica entre montanhas em uma clareira verdejante. As ruas são quase completamente de terra, as árvores margeiam as ruas e nos protegem do sol, encontramos também antigas casas de barro em ruínas em meio a casas modernas de muros altos. As ruas são completamente vazias, o local tem um pouco mais de 200 habitantes e literalmente senti que o relógio era algo desnecessário ali. A primeira coisa que fizemos foi tomar café na casa dos pais de Malihe, que ficava em uma viela que tinha o nome de um shahid que era membro de sua família. Ao lado da viela  há um cemitério onde estão enterrados os avós de Malihe e seu parente shahid. Ela lava cuidadosamente o túmulo deles com água e dá uma batidinha como uma espécie de diálogo ou saudação com o falecido, o que é um costume dos xiitas. O portão externo estava aberto, porém ela esqueceu a chave e nós ficamos sentadas no jardim da casa comendo pão com queijo, pepino e tomates.  Nesse vilarejo há várias crianças afegãs que brincam com gravetos de madeira fazendo arminhas, uma cena que me lembrou o filme E Buda desabou de vergonha... Eles se aproximam de nós, disparando seus "tiros", mas Malihe pacientemente disse algo que fez eles se afastarem. A maioria dessas crianças nasceram no Irã e seus pais imigraram fugindo da guerra e em busca de uma vida melhor no país vizinho. A maioria dos adultos afegãos trabalha como jardineiros em propriedades mais abastadas.
Crianças afegãs brincam nas ruas de Tinuj
Felizmente nem todas brincam de guerra...
Um pastor e seu rebanho
Os animais assustados com o barulho de um carro
Tinuj é um desses lugares que quando passam carros dá vontade de vaiar, primeiro porque eles levantam uma poeira infernal e segundo porque perturbam a sensação de estarmos em um vilarejo remoto. Quando um carro passou, vimos um rebanho de cabras e carneiros conduzidos por um pastor idoso pularem assustados para todos os lados.
Chegamos ao caravançarai que outrora serviu como uma acolhedora hospedaria aos viajantes e hoje se encontra totalmente dominado por entulhos de lixo e excrementos de animais. Era preciso ter cuidado para não pisar (argh!). Mas fora esse cenário desagradável, ainda era muito interessante. Subimos ao topo da estrutura onde vemos o panorama de Tinuj com seus telhados todos da mesma cor ocre e suas casas que não ultrapassam os dois andares. As pedras usadas para construir o caravançarai são grandes blocos quadrados de barro. Malihe me contou que uma parenta sua ama tanto o seu vilarejo que foi morar nos EUA e levou um desses blocos pesadíssimos na mala. Como eu não seria capaz de chegar a tamanha proeza, me contentei em recolher apenas  um pequeno fragmento desse tijolos. Pensei: uma pedrinha de 500 anos na minha casa!
Malihe no caravançarai de Tinuj
Panorama de Tinuj no alto do caravançarai
Uma foto com a lindinha Zahra
Ao sairmos do caravançarai havia uma menininha chamando o coleguinha para brincar de bola. Ela ficou nos observando com curiosidade e perguntou de onde eu era. Depois Malihe explicou a menina que eu era uma turista e pediu para que ela tirasse foto comigo. Seu nome é Zahra, ela mora em Teerã, mas passa alguns dias do verão no vilarejo com sua família que cuida da mesquita local. Ela mesma abriu a porta da pequena mesquita que fica em um pequeno galpãozinho, tão modesto e singelo quanto tudo mais naquele lugar. Depois  a pequena Zahra nos arrumou uma garrafa de água e se despediu de nós com seu sorriso angelical. Continuamos nossa caminhada por esse mundo longínquo sob um sol que se tornava mais e mais inclemente. Malihe me emprestou seu boné porque eu sentia meus olhos arderem. E ela a essa altura havia removido seu chador. Passamos pela ponte Tinuj com seu arcos graciosos, dos áureos tempos da arquitetura persa mas cujo rio que passa por baixo dela encontrava-se completamente seco. Me  senti especial visitando Tinuj, tenho a mais absoluta certeza de que sou a primeira brasileira a desbravar aquele cenário tão longínquo que nem as buscas do Google encontram facilmente. Eu cheguei até mesmo a abraçar uma árvore de tronco retorcido que parecia estar ali só para me dar as boas vindas!
A ponte de Tinuj e o rio? Seco!
Neste remoto vilarejo vivem pouco mais de 200 habitantes
Algumas casas de 200 anos 
Vielas e jardins do vilarejo
Na hora do almoço, fomos a casa da tia de Malihe, a quem ela chamava de zan amu, uma mulher idosa e serena que mora com seu filho adolescente. Nessa hora eu me dei conta de fato que estava em um território longínquo. A casa era uma das mais tradicionais que eu já pus os pés, daquelas desnudas de móveis. Apenas tapetes no chão. Só o fato de haver ali uma televisão e eletrodomésticos na cozinha me davam pistas que eu realmente estava no séc. XXI. Depois de esquentar a comida, fomos comer no jardim da casa de Malihe, ouvindo música pop no celular dela. Enquanto comíamos um gato pulou o muro e ficou nos observando. Atiramos alguns dos nossos macarrõezinhos para ele, que fugiu assustado, mas logo voltou para devorá-los e logo veio um segundo bichano se juntar a ele. Eu e Malihe ficamos simplesmente conversando por uma hora. Descobri que aquela garota de Qom tinha muito mais em comum comigo do que eu imaginava. Ela mora em uma das cidades mais religiosas do Irã, mas seu espírito é livre, seu sorriso contagiante e ela adora andar sempre cantarolando. Subimos no terraço da casa onde havia uma árvore de gerdu, um típo de noz que ela insistia que eu deveria provar. A essa altura vocês já devem saber que há coisas que os iranianos adoram, mas não agradam ao meu paladar. Essas nozes para mim não tinham gosto de nada, mas Malihe pegava as que estavam caídas em qualquer canto, pisava em cima para quebrar a casca e saboreava o  miolo branquinho.
O gato persa que veio compartilhar nosso almoço...
Fizemos mais uns minutos de caminhada, até os jardins da família dela que estavam completamente secos e com árvores peladas no verão. E finalmente ela me mostrou uma grande casa em construção que futuramente pertenceria somente a ela, para onde ia se mudar em breve. Ela já estava animada para que eu voltasse ao Irã e visse a casa pronta com seu jardim cheio de flores! Por volta das 14hs pegamos um táxi de volta para Qom, fomos na companhia de um lindo menininho afegão com sua mãe. Todas as crianças afegãs que eu vi em Tinuj tinham traços da etnia hazara, aqueles que parecem chinesinhos. 
Voltamos para a casa de Malihe onde a "família toda" estava ansiosa para me ver. Suas duas irmãs mais velhas que são casadas e o sobrinho, o lindinho Sina de 10 anos.  O garoto veio me recepcionar com um adorável: Salam khanum! que derreteu meu coração... depois ele fez uma demonstração do seu talento nas artes marciais com seu traje de tae-kwodo, mostrando todo orgulhoso que ele é campeão na sua cidade. Sina pediu para eu fazer um desenho para ele e até ficou paradinho fazendo pose para mim. Fiz um bem simples que representava ele, mas o garoto ficou tão feliz que disse que ia pendurar na parede de seu quarto. Minutos antes de eu me despedir da família estávamos todas na sala dançando quando Mehdi me ligou dizendo que já estava a minha espera. Com certeza Malihe e sua família também me deixaram lembranças muitos especiais e saudades boas!
Mehdi veio me buscar em seu carro, todo arrumadinho e perfumado. Me deu de presente um exemplar do livro escrito por ele cuja capa eu ilustrei há uns 2 anos atrás. Isso mesmo, há uma livro de inglês no Irã cujo título é Read More que a capa foi desenhada por mim! Antes da minha partida tiramos algumas fotos perto da  praça 72 Tan  para recordar o momento.
Despedida de Qom, foto perto da Praça 72 Tan
Meu próximo destino ia ser Teerã, mas acabou mudando para Karaj onde eu finalmente ia reencontrar minha amiga Afsaneh. Entrei em um onibus para Karaj que já estava quase de saída em última hora, porque eu não havia comprado os bilhetes. Me indicaram um assento ao lado de uma moça cujo marido tinha passado para o de trás a fim de garantir que eu seguisse a regra de me sentar ao lado de uma mulher. Em seguida Mehdi subiu no ônibus para se despedir de mim. Eu queria dar um grande abraço nele e agradecer de verdade por tudo, mas dentro do ônibus cheio de mulheres de chador e mulás de turbante isso jamais seria possível. Trocamos breves palavras de agradecimento e por volta das 17:30 o ônibus partiu.
À caminho de Karaj (Foto: Milad Mosapoor)
Durante o caminho Afsaneh me ligava perguntando se eu já estava chegando mas eu nunca sabia o certo. Ela dizia estar aguardando perto de uma ponte, mas a cada ponte que passava eu achava que já estava chegando, então ela pediu para eu passar o celular para o motorista que ia me indicar a parada certa. Karaj é uma cidade cercada de montanhas, muito parecida com a parte de Teerã que eu havia visto.  Cheguei em meu destino à noitinha e lá estava a minha amiga iraniana que visitou o Brasil no ano passado, feliz por finalmente nos reencontrarmos em seu país. Fomos de táxi até a casa dela que ficava em uma rua bem movimentada. A casa era muito bonita e espaçosa, e assim como a casa de sua irmã Ashraf em Teerã, tinha um pouco mais do conforto ocidentalizado na sala e nos banheiros. Os pais de Afsaneh me receberam como se eu fosse uma filha e suas irmãs também são muito carinhosas. O pequeno Mehrshad seu sobrinho é uma criança bagunceira, mas também esperto e encantador. Ele veio me trazer a sacolinha onde estava o meu cabo USB esquecido em Talesh e ao ver o papel de parede do meu celular que eram duas florzinhas com carinhas sorridentes ele gritou: Khorshid khanum!!! (que é um personagem do folclore persa).
Assim foi a minha primeira noite em Karaj, com todas as delícias de ser hóspede de uma família tão querida novamente. Uma pena que esse sonho já estava quase no final...
No próximo post vou contar como foi minha visita super cultural a Teerã e mais reencontros! Até a próxima e khoda hafez


Viagem ao Irã: Bate e volta de Qom à Kashan

Bagh-e Fin, Kashan
Salam amigos! Hoje vou narrar o dia em que fiz uma rápida visita a Kashan e à noite em Qom, o maior centro de ensino religioso do Irã.
Dia 08/09/13: Acordei depois das 9:00, meu amigo Mehdi mandou uma mensagem dizendo que estaria tarde para me levar a Kashan porque o sol era escaldante. Fiquei muito aborrecida mas continuei a insistir. Eu queria tanto ir a Kashan, e já passei tanto calor nas outras cidades que para mim, não havia desculpa para não ir.  Ele respondeu: "Ok, a escolha é sua!"  Malihe não poderia ir conosco, porque trabalha em uma escola para meninas que fica na mesma rua de sua casa. Fui com ela até a escola, e enquanto esperava por Mehdi, fiquei assistindo a aulinha de reforço de matemática com as menininhas em uma sala de primeira série. A não ser por Malihe e as demais funcionárias usarem o chador e por só haver menininhas de hijab, o ambiente era igual a qualquer escola primária do mundo. A professora Malihe me apresentou para as crianças que me deram um tímido salam, com carinhas bem curiosas. Na noite anterior ela havia me mostrado fotos onde as meninas ficavam sem o véu na sala, segundo ela "somente em sua aula". Finalmente Mehdi me ligou dizendo que já estava à minha espera do lado de fora, e Malihe pediu licença para a diretora e me acompanhou até o carro dele.
A estrada para Kashan era totalmente desértica e para piorar, o ar condicionado do carro não estava funcionando muito bem. Mas eu não reclamei, afinal foi ideia minha de enfrentar aquele calorão e tudo valeria a pena se eu pudesse incluir uma cidade a mais em meu roteiro. Quando chegamos em Kashan sentíamos o suor encharcando nossas roupas... Mehdi levou uma garrafa de água completamente congelada que durante o trajeto se tornou líquida. Kashan é uma típica cidade oásis do Irã central com a contrastante e paisagem poeirenta pontilhada de árvores deslumbrantes, me lembrava bastante Yazd.

Chegando em Kashan
A fonte que refresca o  Bagh-e Fin
Os ciprestes de 500 anos
Cerâmicas pré-históricas de Tepe Sialk
Cerâmicas do período islâmico (um retrato de Omar Khayyam)
Esculturas de cera no hamam de Amir Kabir
Azulejos e o esplendor  da arquitetura persa
Nossa primeira parada  foi no Bagh-e Fin, um dos jardins mais belos do país embelezado por ciprestes de 5 séculos e belas mansões que combinam estilos arquitetônicos de várias épocas. Este era um dos locais preferidos dos reis Safávidas, que desfrutavam as delícias dos jardins paraísos persas no verão. Uma fonte que percorre todo o jardim, funciona sem a necessidade bombas graças a grande pressão da água que desce por uma ladeira de 3km.  Dentro do jardim visitamos um museu com artefatos históricos dos quais os mais marcantes são os utensílios pré-históricos do sítio arqueológico de Tepe Sialk e objetos do início do período islâmico aos tempos modernos. Neste jardim também foi onde Amir Kabir, chanceler do rei Nasser al-Din Shah Qajar, foi assassinado em 1852. A cena é relembrada por meio de estátuas de cera no edifício onde ficava o hamam (sala de banho). 
Depois visitamos duas mansões históricas de Kashan, chamadas Abbasian e Tabatabaei construídas durante a era Qajar. A mansão Abbasian é bem suntuosa com três andares e há algumas escadas que simplesmente não chegam a lugar nenhum, devem ser passagens secretas construídas com a finalidade de enganar os ladrões. A casa Tabatabaei por sua vez tem dois andares e um amplo pátio. As  paredes são adornadas com magníficos relevos, pinturas, espelhos e vitrais coloridos. Essas duas casas são exemplos completos da arquitetura persa tradicional e para descrever melhor os seus detalhes, vale um outro post.

Mansão Abbasian (pátio)
Salão de verão
Esta ave escolheu um  belo lugar para  fazer seu ninho...
Mansão Tabatabaei (pátio)
Uma deliciosa sala de chá 
Segundo piso com vista para o pátio
Os relevos magníficos!
O único souvenir que comprei em Kashan foi um pequeno colar decorativo em argila. Mehdi adorava me fotografar, talvez por ser a primeira vez que viu uma brasileira no Irã. Ele queria me mostrar outros lugares históricos porém o calor me deixou muito cansada e preferi voltar para casa e descansar. No caminho ele me ofereceu um samanu congelado desde o Nowruz passado (6 meses)! Pensem em um pudim mais doce do que todos os doces que você já provou na vida! Só aguentei comer umas 4 colheradas...
No carro fora da cidade eu tiro o hijab por causa do calor, e Mehdi  fica impressionado com o meu cabelo curto. Mas ao entrar na cidade ele me avisa para colocar o véu imediatamente. Em Qom 99% das mulheres usam o chador. Eu juro que não reparei nas olhadelas que os homens davam para mim até Mehdi me falar. De fato os motoristas buzinavam e os ciclistas viravam o pescoço, como se eu estivesse usando o que eles consideram mais ousado! Isso porque eu estava usando meu  manteau azul-escuro mais folgado e o shal branco... Mas da próxima vez aprendo a lição e descolo um chador emprestado, mas aguentar o calor vai ser outra história, arf... Outra coisa que me incomodou um pouco mas respeitei foi o fato de ele se recusar a me apresentar para a família dele que era "muito tradicional". Porém ele já havia me ajudado tanto me apresentando seus amigos e alunas...

Voltando para Qom 
Perguntei a ele porque falam tão mal de Qom no Irã. Ele disse que porque foi ali que se iniciou a Revolução, e porque é a cidade do ayatollah Khomeini. Comecei a recordar algumas das coisas negativas que meus amigos  de Talesh disseram sobre Qom: "Cidade perigosa, cheia de mulás... Nós não gostamos de mulás..." Aí eu perguntei: "Vocês já estiveram lá?" Eles responderam: "Não, mas já ouvimos isso de outros... "Então esse foi um dos motivos pelo qual decidi ir ver Qom com meus próprios olhos...
Á tarde quando voltei a casa de Malihe almocei e dormi no sofá da sala a tarde inteira. O calor de Qom estava realmente fora das minhas expectativas e me deixava muito preguiçosa... 
Á noite saí junto com Malihe, sua mãe e sua irmã Saba.  Qom à noite é bem mais fresca. Nas ruas vemos muitos árabes e akhonds (como são chamados os jovens aspirantes a mulás no Irã) Porém vi menos mulás do que eu esperava. Fomos ao haram de Fatima Masumeh,  o segundo santuário mais importante do Irã (o primeiro eu já visitei em Mashhad). Já de longe sua deslumbrante cúpula dourada iluminada com luzes festivas é de encher os olhos. Para entrar é muito mais relax do que no Imam Reza, não passamos por nenhuma revista e é permitido entrar com a câmera e tirar fotos exceto dentro da mesquita. Só teve uma funcionária que me cutucou com uma espécie de espanador de plumas porque meu cabelo aparecia um pouco. Mas Malihe me ajudou a arrumar o maghnee e chador que ela me emprestou e tudo ficou certo. Por dentro o pátio é ricamente adornado com mosaicos, meus olhos se enchiam de beleza a cada ângulo que eu olhava. Assim como em Mashhad, as crianças também brincam enquanto seus pais rezam, é uma cena que me transmite muita paz de espírito.
 Malihe me contou que os mulás são cercados de histórias. Dizem que eles se casam com 4 mulheres e adoram fazer propostas de casamentos a meninas jovens. Geralmente eles são ricos e todas as meninas de Qom já tiveram um mulá como khastegari (pretendente) inclusive ela! Porém o pai dela odeia os mulás e disse um categórico não! Isso mesmo, no Irã se o pai diz que não aceita um pretendente para sua filha, nem um religioso pode dizer o contrário!
O santuário de  Fatima Masumeh à noite
Zoom  da cúpula dourada
De volta ao chador 
Deslumbrada com os mosaicos *-*
Qom é uma cidade iluminada!
Malihe nunca larga o celular, mesmo andando na rua ela está falando com alguns de seus amigos. É fantástico ver aquela garota sorridente e comunicativa de calça jeans e tênis por baixo do chador... 
Finalmente visitamos o bazar histórico de Qom, que como todo o bazar tem basicamente as mesmas coisas, mas aquele como tudo em Qom também é cheio de histórias... Um outro amigo me contou que Qom era uma das cidades mais pobres e com alto indice de criminalidade do Irã, seu antigo bazar só vendia alcool e depois da Revolução todas as garrafas de bebidas alcoólicas foram jogadas fora e um dos ayatollahs pagou toda a indenização e assim o bazar recomeçou de forma islamicamente correta. 
Durante aquela noite que caminhei com Malihe em Qom tentei permanecer com o chador. Mas mesmo assim as pessoas me olhavam com curiosidade, talvez pelo meu ar desengonçado saboreando um picolé de chocolate e arrumando o traje toda hora. Nem o chador esconde o efeito khareji... Assim como em outras cidades do Irã, caminhar em Qom tarde da noite é extremamente seguro. Minha conclusão: Qom não é a cidade perigosa que me diziam, mas uma cidade iluminada em todos os sentidos!  
No próximo post vou narrar minha visita a um vilarejo chamado Tinuj, um lugar onde eu devo ter sido a primeira brasileira a visitar. Até a próxima e khoda hafez!  


Viagem ao Irã: De Isfahan à Qom


Salam amigos! Hoje vou contar como foi minha despedida da inesquecível Isfahan e minha chegada na enigmática cidade de Qom: 
Dia 07/09/13: Acordei cedo, e comecei a tomar minhas habituais notas de viagem sentada na cama. O senhor Hushang, pai de Tina veio me chamar para tomar o café da manhã e me deu de presente alguns adoráveis souvenires de Isfahan. Estavam em casa somente os homens da família e eu. A mãe e Tina saíram cedo para trabalhar. Um sábado no Irã é como a nossa segunda-feira, então Nima e o pai pediram para eu me arrumar e sair junto com eles  para encontrar Tina e depois visitarmos a Kelisaye Vank, a histórica catedral armênia  no bairro de Jolfa.
Construída na era Safávida, a Kelisaye Vank ou Catedral Vank, é um complexo onde fica a Igreja de São José de Arimatéia, com sua cúpula em estilo islâmico que de longe poderia ser facilmente confundida com uma mesquita. Mas os letreiros no alfabeto armênio e o seu campanário com uma cruz, indicam que este é um edifício cristão. Seu exterior relativamente simples, contrasta com a exuberância da decoração interior com afrescos multicoloridos e brilhantes que incluem cenas bíblicas da Criação do Mundo à Ressurreição de Jesus, além de imagens dos santos apóstolos e anjos no estilo da miniatura persa, e nos detalhes entre os afrescos praticamente tudo é dourado. Em tamanho, a catedral poderia ser comparada a uma capela, mas sua grandiosidade reside na mistura de estilos arquitetônicos iranianos e europeus. Turistas de todas as crenças tiram fotos nessa catedral que é considerada a mais importante igreja cristã armênia do país. 

Kelisaye Vank, (Catedral Vank) 


Interior da igreja de São José de Arimatéia

Afrescos com cenas bíblicas e muito dourado
Ao lado da igreja há um museu histórico onde podemos encontrar obras de arte e objetos litúrgicos feitos por artistas iranianos, armênios e europeus, a interessante mistura que compõe o cristianismo no Irã. O mais marcante é a grande coleção de Evangelhos manuscritos armênios com iluminuras. Neste museu eu também pude entender, a história da imigração armênia no início do séc. XVII em terras iranianas, onde sob o reinado de Shah Abbas I uma grande comunidade fugindo da perseguição promovida pelo Império Otomano foi  forçada a se estabelecer nesse bairro que acabou se tornando um dos mais desenvolvidos de Isfahan. No pátio ao redor da catedral há vários monumentos em memórias das vítimas do genocídio armênio, uma tragédia que perdurou no início do séc. XX, outra  época que muitos armênios buscaram refúgio no Irã. 
Objetos litúrgicos no museu da Catedral Vank
Um Evangelho armênio com iluminuras
Santa Maria e o menino Jesus, arte iraniana
Bonequinhos representando trajes típicos armênios
Enquanto Tina me explicava em inglês sobre diversas relíquias dos tempos do soberano Shah Abbas, uma mulher parou ao nosso lado e ficou nos encarando com os olhos arregalados. Ela parecia meio chocada com a minha presença ali e perguntou de onde eu era. Quando Tina respondeu que eu era do Brasil ela gritou: "Brasil?! Mas eu pensei que ela era do Paquistão!" Realmente leva tempo para a gente se acostumar com a reação de alguns iranianos que nunca viram estrangeiros. Na saída Tina havia perdido o lugar onde seu pai estacionou o carro, ficamos andando em círculos por vários minutos em baixo de um sol escaldante pelo bairro de Jolfa até encontrá-lo. Enquanto ela andava rápido eu queria tentar apreciar o bairro que tem outras igrejas históricas e me pareceu muito limpo e organizado.
À tarde voltamos para casa e recebemos a visita da adorável tia Zahra e seus filhos que vieram se despedir de mim e também me deram um delicado objeto de artesanato de presente. Eu ficava extremamente feliz com tantos mimos, porém  tinha que ter o maior cuidado na hora de guardá-los para não quebrar nada e o espaço na minha mala diminuía cada vez mais (outra razão porque não comprei tantas coisas). Uma outra coisa que me fez dar boas risadas era a mania do Nima de dizer o tempo todo que odiava garotas, como pretexto de chamar a minha atenção. Por essa ele não esperava, dei um beijo no rosto dele na frente da família toda, o garoto quase teve um piripaque, e todos riram muito. Essa família superou minhas expectativas no quesito bom humor! Na despedida não cheguei a chorar, mas não foi fácil entrar no carro e olhar para eles me dizendo adeus pela última vez. 
Tina e o pai me acompanharam até o terminal onde eu devia pegar um ônibus que parava em Qom. Não havia ônibus que fizesse terminal entre Isfahan e Qom, então foi um sacrifício para acharmos o bilhete. Finalmente consegui um ônibus que estava à caminho de Gorgan com parada em Qom. Saí de Isfahan por volta das 17hs. Tina escreveu em um papel que eu teria que descer na praça 72 Tan e me colocou sob os cuidados de um casal de idosos que me avisaria onde descer. Quem me esperava em Qom, era meu amigo Mehdi que foi professor de inglês de Tina na universidade. Ele  me indicara sua família em Isfahan, mas em Qom eu deveria ficar com a família de outra de suas alunas, uma garota chamada Malihe.
Estrada de Isfahan à Qom (Imagem: Panoramio)
A viagem tinha previsão de durar cerca de 3 horas, mas o ônibus parou para o jantar e namaz (oração) na cidade de Delijan. No ônibus eu era a única mulher com rusari de cor magenta, todas as demais vestiam preto ou o tradicional chador. Eu ia vestir o maghnee que eu usei em Mashhad, mas desisti por causa do calor. Mas isso não foi nenhum problema, as pessoas do ônibus simpatizaram comigo, afinal não é todo dia que uma brasileira vai a Qom! Na parada, segui as mulheres até o toalete e fiquei esperando  do lado de fora da sala de oração feminina a senhora que me acompanhava terminar seu namaz. Mehdi me ligava à cada 30 minutos para saber onde eu estava e disse que eu deveria descer em outro lugar chamado Shah Jamal que era mais próximo da casa de Malihe. De volta ao ônibus uma mocinha com deficiência mental sentou ao meu lado, ela encostava a cabeça no meu ombro e eu me sentia sem jeito, mas deixava. Quando eu pedia para seu pai (ou irmão mais velho) falar com Mehdi no celular e perguntar para o motorista quantos quilômetros faltavam ela fazia muitas perguntas indecifráveis para mim em farsi. Só entendi ela perguntar: "Quem é ele? É seu marido?" Eu só fingia que entendia e respondia: are (sim) ou nah (não)... 
Finalmente desembarquei em Shah Jamal (ou uma parada no meio do nada) e encontrei Mehdi que me esperava junto com um amigo chamado Mahmoud. Mehdi pessoalmente é simpático, jovial, tem uma voz agradável e um inglês perfeito. Antes eu só havia visto ele por fotos no Facebook, onde ele parecia sempre sério, com a mesma cara de homem polido em todas as fotos,  mas conversamos há mais de 3 anos e ele foi uma das pessoas que mais me encorajaram a fazer essa viagem. Ele perguntou se eu havia visitado Kashan. Pensei:  Peraí? Passei por Kashan no caminho para Qom! Mehdi disse  que eu estava visivelmente cansada e prometeu que no dia seguinte me levaria para conhecer Kashan.

O santuário de Hazrat Fatima em Qom
Minha primeira impressão de Qom à noite era de uma cidade iluminada e limpa. Passamos perto do santuário de Hazrat Fatima (irmã do Imam Reza) que estava lindamente decorado com lâmpadas multicoloridas por ocasião do aniversário dela. Mehdi me deixou na casa de Malihe que ficava em uma daquelas vielas iranianas onde todas as casas tem portão da mesma cor. Ela atendeu a porta vestida em seu chador negro e  me recebeu com muito carinho. Malihe é uma garota extremamente simpática, comunicativa, de mente aberta e mora numa casa enorme e bem iraniana. Tem uma irmã mais nova linda chamada Saba e seu irmão é um rapaz tímido chamado Mohammad. A mãe é uma mulher rechonchudinha e simpática que me recebeu com um banquete de frutas e seu pai é um homem grisalho, sério, bem discreto, quase não se nota a presença dele na casa. 
Depois o irmão ajudou a subir  minhas malas para o quarto de Malihe que também era enorme, ou seja, o segundo andar da casa pertencia inteirinho a ela! Tomei banho, jantei uma macarronada com tempero picante. Depois entrei no Facebook e no Yahoo, ainda bem que tinha anti-filtro mas a internet era tão lenta, que acabei ficando acordada até quase 3:00 da madrugada falando com os amigos do Brasil. Finalmente, consegui  compartilhar minha foto de Talesh junto com Peyman. Meus amigos ficaram chocados com a ausência do hijab! 
Finalmente, vocês devem entender o que eu ouvi a respeito da cidade de Qom antes de ir para lá. Meus amigos de Talesh me diziam: Cuidado! Qom é uma "cidade perigosa" cheia de segredinhos, ou "cheia de mulás". E o Majid de Teerã dizia que não tinha nada de bonito para se ver lá, porque era uma cidade "muito muçulmana"... Para mim não importava o que os outros achavam, eu queria ver com meus olhos e tirar minhas próprias conclusões. 
No próximo post, vamos voltar um pouco para trás e visitar Kashan e o santuário de Hazrat Fatima em Qom. Até a próxima! Khoda hafez!


Viagem ao Irã: Isfahan, repleta de surpresas

Praça Naghshe Jahan, Isfahan
Salam amigos! No post de hoje vou narrar como foi meu dia na cidade que é conhecida como Nesfe Jahan, "a metade do mundo":
Dia 06/09/13: Minha primeira manhã em Isfahan na casa da família de Tina foi super agradável. Embora acordar no quarto de outra pessoa me deixasse um pouco sem graça, fui para a sala e me sentei  com a família em uma sofreh no tapete da sala para tomar o café da manhã. Embora cada família tenha o seu jeito, uma coisa nunca muda: o café da manhã iraniano é sempre farto!  
Depois do café tivemos a visita da tia Zahra e seu filho o garoto gordinho Matin. Tia Zahra é a criatura mais meiga que eu já vi, adora dançar e me encorajou a chacoalhar o esqueleto logo pela manhã. Isso mesmo, dançar o pop persa no meio da sala com toda família olhando. Não demorou muito para Nima, o irmão de Tina entrar na dança. Aliás Nima se mostrou um rapaz surreal, ele fazia uma performance digna de aplauso no baba karam.  Foi uma delícia esse momento de descontração!  
Os iranianos parecem reservados e polidos na rua, mas dentro de casa eles não precisam beber álcool para rir da vida, fazer piada, dançar e cantar. Tina não gosta muito de dançar, mas não larga o celular, ela me mostrou as belas fotos de seu noivado e eu pude ver seu noivo rapidamente falando com ela na porta. Vaidosa, ela vive maquiada até mesmo dentro de casa, e fez questão de me emprestar seu esmalte verde para me deixar mais ghashang. A mãe de Tina também é uma fofa, sempre tentando me ensinar palavras em persa e diz que adora o som do meu nome. E o pai que é um homem magrinho, baixinho e divertido serve chá para mim, ajuda a descascar as verduras para o almoço. Enfim, aquela história de que os homens iranianos são todos machistas e mandões é pura lenda!
Após o almoço, Tina, o irmão, o pai e tia Zahra me levaram para um passeio pela cidade. Como eles moravam na periferia, da casa deles até o centro da cidade era um longo caminho, onde passávamos por uma estrada montanhosa.
Ponte Khaju
A ponte mais bonita de Isfahan
Embaixo da ponte Khaju
Rio Zayandeh totalmene seco!
Nossa primeira parada foi a ponte Khaju, considerada a mais bonita de Isfahan, onde tiramos muitas fotos. Você pode passear por cima e pelos corredores laterais da ponte mas é embaixo dela que encontramos os artistas de Isfahan. Sob a acústica dos arcos havia pessoas cantando no dialeto luri. É uma cena emocionante, jovens e homens maduros declamando em tom apaixonado poemas clássicos. No centro da ponte há um pavilhão que atualmente funciona uma espécie de livraria e casa de cultura. Na outra extremidade da ponte um homem vendia bombinhas de gás hélio e cantava fazendo uma vozinha engraçada. Mas minha maior surpresa foi ver o Rio Zayandeh que atravessa a cidade e por onde essa ponte passa completamente seco. Tina disse que há 3 meses atrás havia água ali...Depois fomos à ponte Si-o-Seh que significa Ponte "Trinta e Três", que é o número de seus arcos (não perguntem se eu contei). Como era uma sexta-feira, havia muitas famílias à passeio, militares em descanso sentavam nos lados da ponte.
Ponte Si-o-Seh 
A ponte dos "trinta e três" arcos
Com Tina e Nima, meus irmãos de Isfahan
Onde as pessoas estão andando é o rio ...
Depois fomos para a Praça Naghshe Jahan que sob o sol da tarde é ainda mais fantástica. Por ali transitam carruagens decoradas com lindos cavalos brancos e a grande piscina com o barulho da água e crianças brincando e famílias fazendo piquenique nos gramados, transmitem uma sensação de paz e frescor. Porém devido ao dia de descanso as lojinhas de artesanato e o Bazar estavam quase todas fechadas. A Mesquita Imam também fechada mas ao menos pude fotografar sua linda fachada de estonteantes azulejos azuis decorados com motivos florais e caligrafia árabe. O mais impressionante é que as caligrafias são mosaicos, ou seja, as letras são montadas pedacinho por pedacinho!
A magnífica Mesquita Imam (fechada)
Visitamos  também o Palácio Ali Qapu (cujo nome de origem otomana significa "Porta Alta") que é um tesouro da arquitetura da era Safávida na parte oeste da praça. As paredes do palácio são decoradas com afrescos de Reza Abbasi que foi o pintor da corte e de seus discípulos representando motivos florais, animais e miniaturas persas. Após subir um grande lance de escadas íngremes encontramos a famosa "sala de música", decorada com nichos acústicos que lembram formatos de garrafas e recipientes delicados. Com toda certeza uma das coisas mais lindas que eu já vi! Acima deste piso há um teto de madeira decorado com um lindo trabalho de marchetaria sustentado por colunas também de madeira que são todos originais. Este pavimento de onde é possível ter uma vista panorâmica maravilhosa de toda a praça  está seriamente danificado. Porém a fragilidade da arquitetura deste palácio torna as obras de restauração um grande desafio.
 Praça Naghshe Jahan vista do Palácio Ali Qapu
Palácio Ali Qapu
Teto e coluna de madeira artisticamente trabalhados 
Afrescos e pinturas decorativas no interior do palácio
O espetacular salão de música com decoração acústica
Detalhe dos incríveis nichos decorativos em formatos de recipientes
Depois visitamos a mesquita Sheikh Lotfollah que fica no lado leste bem de frente para o palácio e que foi construída também na era Safávida. É interessante notar que esta pequena mesquita não tem minaretes (torres de onde é feito o chamado à prece), porque ela era frequentada apenas pela família real. Sua fachada é quase idêntica a da Mesquita Imam, porém numa escala menor. O que chama a atenção em seu interior é a luz do sol que entra pelo topo de sua cúpula que é uma das únicas na qual predomina a cor amarela rósea em todo o Irã com seus espetaculares padrões geométricos que lembram o formato da lima-da-pérsia. Aliás a beleza desta cúpula vista do interior é capaz de deixar qualquer mortal em estado de contemplação. Porém a coisa mais irritante são os turistas que insistem em bater palmas para fazer eco embaixo da cúpula.
Mesquita Sheikh Loftollah
Caligrafia árabe em mosaicos (versos do Alcorão)
Fachada da Mesquita Lotfollah
O estonteante interior da cúpula
Isfahan é uma dessas cidades onde eu gostaria de estar com a câmera ligada 24 horas. Como toda cidade grande tem seus pontos caóticos, mas tem um ar agradável com ruas arborizadas e limpas e fachadas de azulejos em quase todos os edifícios. Minha única frustração foi não ter visitado o Palácio Hasht e Behesht que também estava fechado. Se vierem para o Irã, considerem não visitar Isfahan em uma sexta-feira!
O tradicional passeio de carruagem na praça  
Crianças brincam e se refrescam na grande piscina
Voltamos para casa comendo milho assado e sorvete Magnum dentro carro. Aliás, comer dentro do carro é uma proeza que os iranianos dominam, mas eu não... À noitinha fomos ao "apê" da tia Zahra, que tinha uma grande sala toda revestida de carpetes e almofadas no chão, decorada no maior bom gosto iraniano ao lado da sala de visitas mais ao estilo ocidental. Conheci também seu filho mais velho Mehdi e seu marido Mohammad. Como manda o costume ela me recebeu com muitas frutas e os drinks iranianos ab-e albalu (refresco de cereja) e chai. Mas antes que eu estufasse de tanto comer e beber, tia Zahra me chamou para dançar na sala espaçosa. Eles ligaram o som no home theater e me mostraram um monte de videos divertidos de danças iranianas. Mas quem deu o espetáculo da noite foi o Nima. Imaginem um rapaz todo peludo de vestido preto e um véu cheio de moedinhas. Sim, ele pegou o vestido da tia e literalmente "soltou a franga"! Os rapazes de Isfahan são muito bem humorados enquanto as garotas são mais quietinhas. Eu não perdi tempo e me soltei no meio dos meninos e de repente toda família entrou na dança. Mehdi também dançava bem pra chuchu, ele me ensinava os passinhos do ritmo bandari e nem precisei de muito treino para dançar como uma iraniana. E o Nima disputava comigo quem dançava mais, eles queriam até que eu ensinasse alguma dança do Brasil, mas a criatura aqui não sabe nem sambar... Foi uma verdadeira comédia! No final essa brincadeira toda acabou me dando um mal jeito na coluna. Pensando que eu ainda tinha a flexibilidade de 10 anos atrás... fiquei esticada no chão sem saber se ria ou chorava. Tia Zahra tentou me consertar com um massageador elétrico que quase me matou de cócegas. 
Depois que me recuperei, Matin (o filho mais novo da tia Zahra) me mostrou seu  livro de escola que falava do Brasil. Havia uma imagem da cidade de São Paulo, um índio, uma foto mostrando nossa diversidade racial e um mapa gráfico mostrando a vegetação e os principais produtos de cada região. Eu mostrei que sabia ler o nome dos países da América do Sul no alfabeto persa e a família me aplaudiu.
Depois me ofereceram o exótico aperitivo de sementes de melancia torradas e sementes girassol (bem ao gosto iraniano). Enquanto os iranianos quebravam as sementinhas com seus dentes incisivos na maior habilidade eu ficava igual uma boba tentando tirar as casquinhas com a unha. Desisti de comer, complicado demais para uma tupiniquim... Mas com toda certeza aquela foi uma das noites mais divertidas que eu já tive não só no Irã, mas em toda minha vida! Tia Zahra me deixava de coração partido quando ao nos despedirmos ela disse: Qom naro! (Não vá à Qom!)
Realmente, só Deus e quem já foi hóspede sabe como é difícil se despedir de uma família iraniana. No próximo post vou falar sobre minha despedida de Isfahan e minha chegada na cidade de Qom. Continuem comigo nessa jornada!  Khoda hafez!