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Viagem ao Irã: explorando Yazd sozinha

Selfie na Mesquita Jameh em Yazd
Salam amigos, a cidade de Yazd representa a metade da minha jornada. Hoje vou contar sobre as  minhas aventuras nesta cidade.
Dia 04/10/13: Imagine por um momento o que é acordar sozinha em um hotel em uma cidade no meio do deserto. Se bem que todos os dias da minha viagem, meu primeiro pensamento ao acordar era: estou no Irã?! Naquele dia acordei 8:00 horas, com minha timidez elevada ao quadrado, temendo abrir a porta do quarto e dar de cara com um bando de mochileiros gringos.Tomei coragem, botei a cara pra fora e sentei na mesinha do jardim para tomar meu café da manhã. Ah, como era bom depois de 2 dias a base biscoitos e suco em Shiraz, sentir o gostinho do pão barbari com geléia de frutas, fatias de melancia e o cházinho direto do samovar! O único problema eram as abelhas tentando disputar o meu precioso desjejum matinal. Ao meu lado havia turistas de Omã, um homem e duas mulheres, que interagiam comigo dando risada enquanto tentávamos afastar os insetos. Troquei algumas poucas palavras com eles em farsi, eram simpáticos e ficaram maravilhados ao saber que eu viera sozinha do Brasil. Através do contato visual eu conseguia estabelecer mais ou menos quem aceitaria minha amizade. Os jovens holandeses parecem mais retraídos, interagem entre si, mas parecem pouco dispostos a conversar comigo, devem achar que sou iraniana. Aliás, pelas caras que vi eu parecia ser a única latino-americana do hotel.
O Hotel Oasis (ou Vahe em persa)
Porta do meu quartinho
Enquanto os gringos empunham seus guias Lonely Planet, eu peço ajuda do pessoal da recepção e dou uma estudada no meu mapinha emprestado por Afsaneh. Vesti o manteau verde e o véu branco afim de me mesclar melhor com a população local e passei muito protetor solar no rosto para enfrentar o sol escaldante da manhã em Yazd. Obviamente o meu primeiro destino foi aquele que estava mais próximo do hotel, a magnífica Mesquita Jameh. Seus dois minaretes na entrada são extremamente altos, os azulejos tem padrões geométricos e arabescos belíssimos. Dentro da mesquita há uma placa convidando as mulheres a usarem o hejab islâmico ao entrarem, mas o chador não era obrigatório. Comecei a fotografar e tentar estabelecer contato visual com algumas pessoas em busca de alguém que tirasse a minha foto, mas acabei desistindo. Depois tentei visitar o Museu de Arqueologia ao lado da mesquita, mas o recepcionista não falava inglês e nem se mostrou disposto a me dar qualquer informação. Fiquei ali parada com cara de tacho observando um  jovem mulá sentando em frente a um computador e moças de chador preto que saíam dali com livros. Apontei a plaquinha que indicava o preço dos ingressos e ouvi um nada delicado: Muzeh bast! (Museu fechado). " Ainda tentei perguntar com meu farsi rudimentar qual era o horário de funcionamento e só ouvi como resposta um impaciente: Ok... ok... Saí dali esbravejando em português mesmo: "Tá bom, custava ter uma plaquinha informando o horário de visitação?"
Entrada da Mesquita Jameh
Minaretes vistos do pátio interior
Interior da cúpula da Mesquita Jameh
Santuário de Seyed Roknedin
Então decidi me aventurar pelas vielas onde tudo era da cor ocre. Ao entrar por alguma delas descobri o antigo santuário de  Seyed Roknedin. Pelo portão observei que ali só havia mulheres e decidi entrar. Um bando de mocinhas todas de véu negro avançaram sorridentes em minha direção gritando: Khareji! Khareji! (óbviamente porque "só dava eu" usando batom rosa e sombra verde ali). Eu disse: Man ahle Berezil hastam... (Eu sou do Brasil). Elas quase foram ao delírio e ficaram repetindo algo como "ela entende farsi... ela falou a nossa língua!" Quando as meninas finalmente deixaram eu passar pela entrada, observei que havia algumas mulheres sentadas no tapete perto da porta da mesquita amamentando seus bebês e outras tomando chá e proseando. Perguntei para uma moça que estava sentada perto de um cabide com chadores pendurados, se eu poderia pegar um emprestado e entrar. Ela apontou o cabide sorridente e perguntou: "De onde você veio, é muçulmana?" Eu respondi: "Não sou muçulmana, sou cristã". Ela continuou sorrindo e apontou o céu dizendo: "Muçulmano e cristãos, ambos pertencem a Allah".
Peguei um chador branco floridinho e entrei. Como faziam as locais, toquei na treliça que protegia o túmulo e fiquei tentando captar a energia do local. O calor era fulminante,  as paredes eram antigas e mofadas, mas ao menos havia um grande ventilador ali dentro. Sentei por um minuto enquanto ouvia uma mulher declamando o Alcorão. Tentei me aproximar da estante de alcorões para tentar ler algum, mas em frente dela havia mulheres orando com fervor e eu não quis atrapalhar. 
Ao sair do santuário, fui explorar as lojinhas de artesanato. Conversei com um senhor que é de Isfahan e tem um amigo aqui no Brasil em Campo Grande. Gentilmente ele me mostrou diversos tipos de artesanatos, cerâmicas, miniaturas, toalhas de mesa, bijuterias e explicou que ali não havia só peças de Yazd, mas de várias cidades do Irã. Depois me mostrou pacientemente todos os tapetes que eu quisesse ver e me deu uma verdadeira aula sobre os tapetes persas com direito a um cházinho. Preocupada com as despesas e imprevistos, fiquei namorando um pequeno tapete gashghai, que ele faria pela bagatela de 150 dólares (no Brasil sairia pelo dobro do valor), curiosamente nas lojas de tapete estavam aceitando cartão de crédito... Prometi que ia pensar e entrar em contato com ele, talvez o encontrasse em Isfahan. Ele disse: "Não tem problema, volte quando quiser e se não quiser, não vou obrigá-la a comprar".
Loja de artesanatos (estátua de Omar Khayyam) 
Os tapetes que namorei...
Em seguida fui para a avenida à procura do complexo Amir Chakhmaq, porém meu senso de direção é tão péssimo que fiz o caminho todo, só que ao inverso (meu mapa estava em farsi). Meu ponto de referência era a torre do relógio, depois a mesquita onde fiquei com receio de entrar porque só vi homens no pátio. Detalhe: era meio-dia de um verão iraniano, as lojas começavam a fechar e eu ali à procura de algum lugar para tirar foto. A sorte é que as ruas arborizadas amenizam o calor, então parei, sentei em um banco e finalmente me localizei no mapa. Notei que em Yazd 90 % das mulheres usavam véu preto e como eu estava toda colorida (o véu branco para suportar melhor o calor) e olhando para um mapa, algumas pessoas chegavam a virar o pescoço quando passavam por mim. Mas eu ia pacientemente procurando o danadinho do lugar. Até que, finalmente! Avistei a praça Amir Chakhmaq! Quando entrei no edifício, só havia um corredor com lojas todas fechadas. Pensei: ele é lindo por fora, mas xinfrim por dentro. Saí pelo outro lado e dei de cara com a placa do Museu da Água. Finalmente meu esforço de caminhar sob o sol a pino de Yazd valeu a pena!
O relógio que era meu "norte"
A mesquita que só tinha homens (tirei foto escondida atrás da parede!)
Fonte com esculturas na Praça Amir Chakhmaq
Complexo Amir Chakhmaq
Fui direto à entrada do museu onde já pude ver a placa: "50000 para estrangeiros". Paguei os tomans para o funcionário, um rapaz barbudo que perguntou com um sotaque carregado: Where are you from? Eu respondi em persa só para tirar um barato com a cara dele. E ele exclamou: Brazil?! Wow! Um rapazinho sentado ao lado dele logo gritou: Copa!!! E eu já meio impaciente: Yes! Brazil,Iran Copa! My tickets please! E finalmente o rapaz barbudo me deu os bilhetes de entrada dizendo com seu sotaque estridente: Wel-co-me!
O Museu da Água fica dentro de uma casa histórica belíssima por fora, porém por dentro o lugar é meio tenebroso. Os corredores são escuros e empoeirados, com vitrines de engenhocas antigas como torneiras, rodas d'água e principalmente ferramentas utilizadas pelos trabalhadores do tradicional sistema de qanats, ou seja, aqueles que se empenharam na árdua tarefa de cavar os canais que distribuíam água na desértica Yazd. Achei tanto divertido como arriscado descer as escadarias e explorar as instalações originais  do que foram o sistema de qanats explicado ao longo do museu. Além de mim, a única pessoa visitando o museu era um mochileiro gringo que me disse um tímido Hi! mas devia ter pensando que eu era uma nativa.
Depois que terminei de explorar o museu, um senhor se apresentou como guia e veio todo cheio das intimidades me convidando para conhecer os arredores de Yazd na manhã seguinte. Eu peguei o cartão dele, agradeci e ia me despedir quando ele começou a dizer que eu era muito bonita e até abriu uma sala que estava fechada só para eu ver uma antiga roda d'água que as mulheres costumavam acionar com os pés e as mãos.  Depois ele me convidou para ver um qanat original que havia perto dali. Eu comecei a dar desculpas dizendo que estava com fome, outra hora eu voltava, mas ele continuou insistindo "porque era muito perto".
Casarão histórico que abriga o Museu da Água
Detalhes da belíssima arquitetura e jarros de barro  
Engenhoca e estátua de cera
Sou eu mesma, mexendo nessa engenhoca!
A contragosto aceitei ver o local que era um portão que dava para uma escadaria com umas luzinhas fracas. Fiquei de olho no portão que ele deixou aberto, preparada para dar no pé caso precisasse. Começamos a descer a escada e o guia "tiozinho" começou a bancar o herói segurando minha mão. Dali a  pouco ele já estava enlaçando os braços em mim, porque o lance era escorregadio mesmo! Comecei a suar frio, mas se ele me soltasse eu escorregava. Ao chegar na base da escada, o calor era tão insuportável que desencanei do véu. No lugar do qanat, que o guia alegou ainda estar ativo,  só vi a água barrenta e um cheiro de lodo insuportável. Pedi pelo amor de Deus para sair daquele lugar e subi as escadas tão brava que quase saí na rua sem o véu. Depois o próprio senhor guia me levou de volta ao hotel em seu carro que era praticamente uma carroça de uns 30 anos atrás mas ainda firmão.
Quando voltei ao hotel, estava tão cansada que resolvi me recolher no quarto, tomar um banho e cochilar. Mas lembrei que precisava estabelecer contato com alguém que pudesse emprestar um cabo USB que servisse em minha câmera ( lembram que eu esqueci o meu em Talesh?). Perguntei para um rapaz holandês, uma moça suíça e um casal húngaro, só gente loira! Mas para meu azar ninguém tinha um cabo compatível com minha pequena Nikon. Minha última tentativa foi um rapaz bonitão com jeito de gringo, porém 100% iraniano de Mashhad. Seu nome é Alireza e ele é fotografo, e estava em Yazd somente a trabalho. Simpático e atencioso, ele me convidou para ver suas fotos e se propôs a ir comigo para comprarmos um cabo e bater pernas pela cidade à noitinha. Ele convidou um amigo chamado Siamak, um rapaz sisudo, porém educado para ir conosco. Alireza era alto e bem humorado, e a cada 2 passos sacava sua câmera profissional para capturar imagens em ângulos inusitados, dizia hi! para as crianças na rua e elas respondiam achando que ele era de fato um turista. Fomos ao bazar porém como quase tudo estava fechado, adentramos uma portinha escondida que dava acesso a um hotel restaurante deslumbrante, o Malek o Tojjar, onde tivemos um agradável jantar com direito a uma deliciosa sopa tradicional de Yazd, obviamente tudo por conta dos rapazes!  Uma funcionária do restaurante tirou nossa foto com as bandeirinhas do Brasil e do Irã.
Restaurante Malek o Tojjar
Deslumbrante arquitetura e decoração persa
Amizade Brasil e Irã, com Siamak e o fotógrafo Alireza
Voltando para o hotel à noite ...
Ao voltar para o hotel agradeci ao Alireza e ia me despedir e voltar para o meu quarto quando ele me convidou para sentarmos em uma das mesinhas do jardim porque queria mostrar mais fotos das viagens dele nos cenários montanhosos de países da África e da Ásia. Ficamos conversando até tarde e de quebra ele ainda me deu uma aulinha básica de vocabulário persa. A namorada do Alireza ligava a cada 5 minutos e, pelo que entendi, parece que ela ficou um pouco enciumada pela nova amiga brasileira dele. Curiosamente ele também estava a caminho de Isfahan na manhã seguinte, porém não nos vimos para nos despedir. Lembro também de ter falado com um rapaz japonês que ficou admirado, pra não dizer desconcertado ao ver uma brasileira no Irã. Depois fui fazer minhas malas e dormir...
No próximo post, minha despedida de Yazd e chegada em Isfahan. Quem continua comigo nessa viagem? 


Viagem ao Irã: De Shiraz à Yazd

Hafezieh, memorial do poeta Hafez de Shiraz
Salam amigos, no post de hoje, estejam preparados para uma super corrida nos lugares históricos de Shiraz, o "Jardim da Pérsia".
Dia 03/10/13: Acordei às 7:00, arrumei minhas malas e  recebi a ligação de Ali avisando que eu deveria esperar por um motorista que segundo ele entendia inglês. Desci as escadas com a mala pesadíssima sem a ajuda de ninguém. Fui até a recepção e com muita dificuldade o recepcionista entendeu que eu estava deixando o hotel, precisava recolher meu passaporte e esperaria pelo motorista na recepção. No geral, minha estada em Shiraz foi um tanto caótica, depois do imprevisto do dia anterior, comecei a examinar com calma os pontos turísticos sugeridos por Afsaneh. No máximo eu ainda teria tempo para ver o túmulo de Hafez, o Naranjestan Qavam, Mesquita Nasir ol-Molk e o Bazar Vakil antes de embarcar no ônibus para Yazd.
O motorista que chegou por volta das 8:30 era um garoto bem moreno e magrinho chamado Hossein, que de inglês só falava Ok e Go! Ele me pareceu meio mal-humorado e não fez nem questão de me ajudar com as malas, até que eu pedisse... Colocou minhas bagagens no porta-malas entre um monte de bugigangas de computador. Aliás, o carro que estava longe de ser novo, era todo era equipado com uma série de apetrechos como um ursinho no painel, canequinha e até uma etiqueta de roupa pendurada no retrovisor. Ele pediu permissão para ouvir música, gostava de pop moderno tipo Mohsen Chavoshi e Siavash Ghomeyshi como bom jovem iraniano, mas ouvia em um volume baixo e não cantava, apenas dirigia com a cara fechada e me perguntava para onde eu queria ir. 
A temperatura ainda estava agradável aquela hora da manhã. Na entrada do túmulo de Hafez,  Hossein me explicou que o ingresso para kharejis é 2x mais caro. Então ele pagou meu ingresso e quando o moço da bilheteria perguntou ele disse na cara dura que eu era iraniana também. Honestamente, eu não me importaria de pagar o dobro do valor, não chegava a ser uma quantia absurda como os nossos museus. Sem falar que nas cidades anteriores também não me deixaram mexer no bolso sequer uma vez. Mas achei interessante o fato de um iraniano se preocupar com o quanto eu ia gastar, mesmo não sendo amiga nem conhecida dele...
Você que acompanha o blog há um tempo já deve ter visto vários posts onde eu cito o poeta Hafez e sua importância na literatura e pensamento do povo iraniano. Por isso, achei altamente indispensável visitá-lo.
Hafezieh e a bela estrutura  que abriga a lápide de Hafez
Interior da cúpula com  mosaicos estelares
A singela lápide de Hafez
A poesia de Hafez, tesouro da literatura persa
O Hafezieh, como é chamado o complexo que abriga  o túmulo deste célebre poeta, assim como seu memorial se localiza no norte de Shiraz no Jardim Musalla. A belíssima estrutura em formato de cúpula com 8 colunas onde repousa sua singela lápide de mármore se destaca em um jardim florido e ricamente arborizado. Debaixo da cúpula, ao olhar para cima, notamos os estonteantes mosaicos em formatos estelares, só chega a ser irritante a quantidade de pessoas aglomeradas embaixo da estrutura disparando seus flashes. Havia uma placa que sugeria ao visitante pedir uma benção do grandioso Hafez, obviamente não deixei de fazer isso! Do outro lado do jardim há 5 lápides de outros poetas, provavelmente discípulos e amigos de Hafez. Há também um museu, o qual não visitei devido a pressa e uma lojinha de souvenires de Shiraz. 
Como ainda estava cedo, Hossein me convidou para ver o túmulo de Saadi, outro poeta persa singular. Este mausoléu me pareceu bem mais suntuoso que o de Hafez, em um jardim de altos ciprestes, com uma fachada de mosaicos quadriculados, grandes colunas avermelhadas e uma imponente cúpula azul-turquesa. Em seu interior há azulejos com caligrafias mostrando a obra do poeta e uma piscina onde os visitantes fazem um pedido e jogam moedas (eu não joguei).  Embora a pressa, o burburinho da multidão e a obrigação de tirar foto não me deixassem entrar em sintonia com os poetas, como era o costume dos turistas, toquei seus túmulos e agradeci por ter conseguido vir de tão longe.
Memorial do poeta Saadi
Uma arquietetura suntuosa
Os turistas tocam o túmulo do poeta como forma de pedir sua benção
A belíssima cúpula no interior
Hossein, aos poucos foi se revelando mais simpático. Ele me apresentou a um amigo chamado Ahmad, que falava inglês. O moço disse que eu era muito valente, por estar viajando sozinha e que Hossein era um bom garoto, que eu podia ficar tranquila com ele. A principio cheguei a pensar que  Hossein estava me guiando contra a vontade, pois a cada lugar que íamos ele repetia: "Hafezieh, Saadi... e agora pra onde?"
Depois de enfrentar um transito caótico e um sol escaldante, que transformava o interior do carro em um forno, Hossein estacionou em um beco qualquer e disse com ar desapontado: "Você quer ver coisas bonitas em Shiraz e eu estou te mostrando um lugar feio..." Eu disse a ele que não achava nada feio, apenas diferente. De fato o beco era realmente interessante, embora com algumas pichações, havia construções antigas que me chamava a atenção pelo aspecto rústico. 
O tempo realmente estava a meu favor, Hossein também me mostrou o Museu dos Dignatários de Fars, onde vimos magníficas estátuas de cera hiper-realistas, das grandes personalidades históricas da província (proibido fotografar). Depois entrarmos no Naranjestan Qavam, um legítimo jardim persa histórico com uma fonte atravessando todo seu comprimento. Não é lá uma grandeza no tamanho, mas a arquitetura da mansão que se encontra neste jardim é de encher os olhos. O que me encantou especialmente foram as pinturas no teto, os vitrais multi-coloridos, os espelhinhos reluzentes que adornam as paredes e os azulejos com motivos figurativos do período Qajar.
Naranjestan Qavan, um legítimo jardim persa
Mansão Qavam, um esplendor de cores e ornamentos
O labiríntico Bazar Vakil
Hossein comprou para nós um refresco de romã e salgadinhos Pofak. Comemos andando na rua até chegar no Bazar Vakil, que como todo grande bazar iraniano é lotado e labirítinco, com mais ou menos os mesmos produtos de todos os lugares. Quando eu fui comprar minha lembrancinha, um lindo estojinho de seda termeh, Hossein não deixou eu tirar a nota da carteira e quis pagar para mim. Apesar do calor, comecei a apreciar Shiraz, o problema estava em mim, a insegurança de estar com desconhecidos teve que desaparecer. Tivemos ainda que pegar um taxi para ver as mesquitas. Achei uma loucura aquele negócio de ficar parado no meio da rua e gritando o lugar para onde quer ir até algum taxi parar. 
Depois visitamos a Mesquita Nasir ol-Molk e a Mesquita Vakil e o Arg-e Karim Khan Zand que embora estivesse a poucos metros do hotel eu tinha receio de entrar sozinha. Com razão ou não, todos esses lugares que citei cobram entradas mais caras para os turistas e Hossein usou sua "tática" infalível. Só na mesquita Vakil que um funcionário ao me ver lendo os mapas apontou para mim gritando: Aha, khareji! Mas Hossein disse alguma coisa que não sei como convenceu o moço de que eu era "tão iraniana quanto ele"...
Mesquita Nasir-ol Molk
Pátio da Mesquita Nasir ol-Molk
Os azulejos ornamentais com figuras de rosas
Pátio da Mesquita Vakil (em reforma)
Interior da Mesquita Vakil,  graciosas colunas em espiral
Interior da Mesquita Vakil, lindos motivos geomtéricos
Arg-e Karim Khan Zand
Jardim persa no interior do Arg 
Estátuas de cera representando a vida  de Karim Khan Zand
Faltando uma hora para minha partida, fiquei feliz de ter visitado mais lugares do que eu esperava. Paramos para almoçar em um restaurante, onde pedi o meu favorito kebab de frango com arroz e salada. Bebi o refrigerante de laranja Mirinda, marca extinta no Brasil há anos. No restaurante só havia homens que ficavam me encarando, porém eu fiquei bem séria e na minha. Hossein ficou animado ao falar sobre o futebol do Brasil, e quando ele falava o nome dos jogadores que conhecia, todos os olhares se voltaram de uma vez para nossa mesa. 
Na rodoviária, Hossein carregou minhas malas e ficou de olho no broche do Brasil que estava na alça da minha mochila. Ele me ajudou a encontrar o terminal e enquanto esperávamos pelo ônibus eu ofereci o pagamento combinado, mas ele pediu para esperar e ficou uns minutos fazendo uns cálculos mentalmente. Achei que ele fosse pedir dinheiro a mais, porém ele  disse que estava incluindo no serviço os ingressos que ele teve que pagar e pelo almoço. Deixei com ele o broche do Brasil e uma nota de 2 reais como lembrança para Ali. 
Embarquei às 14hs no ônibus que era super confortável, com cadeiras individuais de um lado, ar-condicionado, DVD, lanchinho e bastante espaço para os pés e bagagem de mão. No visor da frente  o motorista colocara um ursinho de pelúcia e uma bandeira da Turquia. Ehsan me ligou várias vezes para perguntar onde eu me encontrava, e eu não desgrudava o olho da estrada e do mapa. No caminho, paisagens bem mais áridas indicavam que eu estava à caminho do deserto, tudo era vazio de um lado e do outro da estrada, mas as montanhas avermelhadas  e misteriosas ao cair do anoitecer faziam meu coração pulsar de emoção.
Estrada de Shiraz à Yazd, só deserto!
Cheguei em Yazd por volta da 21:00, Ehsan já me esperava no terminal. Ele é alto, moreno, simpático e fala um inglês perfeito. Eu o conheci pouco tempo antes da viagem, mas ele me recebeu como se fossemos amigos há anos. Me levou para jantar em um restaurante tradicional onde comemos um saboroso kashk-e bademjam com Pepsi. Pela primeira vez na vida experimentei o geliun, puxei o ar e soltei uma fumacinha mentolada. Pronto pensei, virei fumante. Ehsan dizia que dava tontura nele, então decidi não continuar também. Depois do jantar Ehsan me levou até o hotel Silk Road, onde Afsaneh havia feito minha reserva. Era uma construção super tradicional, em um beco, com paredes de adobe. Porém, na entrada o recepcionista, disse que não havia vagas. Como eu estava me sentindo cansada e para lá de outro mundo não houve muita discussão, Ehsan preocupado comigo encontrou o outro hotel que ficava ao lado da esplendorosa Masjed e Jomeh.
O hotel que se chama Vahe ( ou Oasis em inglês) é bem simples, tradicional mas confortável. Meu quarto era espaçoso, com cama fofinha, banheiro grande, ar condicionado, internet wi-fi. porém sem TV. Me agradou bastante o estilo oriental com cortinas vermelhas e vidros coloridos nas janelas. O lado de fora é um jardim restaurante, com uma bela fonte. O recepcionista era um jovem comunicativo chamado Ahmad, que fala inglês, e diz que está "ali só para mim " (slogan do hotel, claro). Assim como em Shiraz eles também seguram o passaporte, porém eu teria que pagar só no final da estadia. Me despedi de Ehsan e me instalei no meu quartinho. Por hoje é só, no próximo post vou contar como foi meu primeiro dia em Yazd.

>> Fiquem com um pequeno registro do belíssimo  Naranjestan Qavam em Shiraz: 


Viagem ao Irã: Feriado em Shiraz, o que fazer?

Darvazeh Qoran ("Porta do Alcorão"), Shiraz
Salam amigos, conforme prometi, hoje vou narrar como foi o feriado imprevisto que me fez esticar minha estadia em Shiraz.
Dia 02/09/13: Às 10hs encontrei Hamed e Rahim na recepção do hotel. Hamed que estava de folga dirigia, tive a grata surpresa de saber que ele se esforçava para falar em inglês, enquanto Rahim bancava o DJ com um aparelho de som no banco de trás, mas dessa vez ele não trouxe só Ebi no repertório. Eu estava toda feliz que ia ver o túmulo de Hafez e o Bagh-e Eram, quando descubro o quê? Hoje é feriado no Irã! E pra piorar, tudo está fechado! Aposto que nem os rapazes sabiam que os parques fechavam, obviamente eles não tinham o costume de guiar tantos turistas. Eu mesma tinha visto antes da viagem que havia no calendário uma data chamada: Martírio de Jafar Sadeq, mas ninguém me avisou que era feriado!
Quando estacionamos em frente ao túmulo de Hafez, fiquei com cara de tacho e apontei no mapa o Saadi. Deduzi: se eu for embora de Shiraz sem ver um poeta, pelo menos vejo outro! Mas para aumentar minha frustração, Saadi também estava fechado! E agora, minha passagem para Yazd estava marcada para 18hs, e eu ainda não tinha visto quase nada de Shiraz...
Rahim e Hamed que eram muito cavalheiros, vendo a minha cara de inconformada fizeram o esforço de procurar algum lugar que estivesse aberto para me entreter. Foi então que tive a grata surpresa de conhecer o Darvaze Qoran (Porta do Alcorão), antiga porta da cidade localizada no centro sul de Shiraz. Esse nome é devido à salinha localizada no alto do portão, onde se encontra um antigo exemplar do Alcorão. É costume no Irã que os viajantes passem por baixo do livro sagrado  para realizar uma viagem segura. O local também abriga um belíssimo jardim, onde se situa a casa do poeta Khaju Kermani. Em uma lojinha subterrânea, um senhor calígrafo escreveu meu nome com uma poesia em um chaveirinho de madeira envernizado por 5000 tomans. 
Passei pela Porta do Alcorão, por isso minha viagem foi  tranquila...
Seguindo Rahim e Hamed, os "homens de preto"...
Casa do poeta Khaju Kermani
Que beleza de caligrafias persas!
Poema de Khaju Kermani
Muito prazer, Khaju Kermani!
Como o calor era monumental, os meninos me convidaram para tomar um refresco de talebi, depois caminhamos em uma rua perto do santuário de Shah Cheragh. Provei uma samosa indiana, e um tipo de refresco chamado khakshir, que é feito com umas sementinhas minúsculas chamadas teff.  O mais curioso é que você bebe as sementinhas inteiras e nem sente. Rahim, ainda me ofereceu uns doces cremosos, mas aquela ideia de comer andando não me agradou muito. Entramos em um shopping center, que ao meu ver só tinha de diferente dos nossos os modelos das roupas e as placas em persa. Eu pensei em olhar os manteaus, cujo preço era algo em torno de 10 a 20 dólares. Mas nenhum me agradou muito, achei ocidentalizados demais. Tomei o maior susto ao ver aquelas leggings listradas bi colores que me doem na vista também por lá!
Finalmente chegamos ao santuário de Shah Cheragh ("Senhor da Luz"), onde estão os túmulos de Ahmad e Mohammad, irmãos do Imam Reza. Como de praxe, na entrada há uma tenda onde uma gentil funcionária me empresta um chador e revista minha bolsa. Ela adverte que não posso entrar com minha câmera, então me dá um cartãozinho para deixá-la no guarda-volumes.  Tirar fotos com celular estava liberado, mas para minha tristeza, meu cartão de memória estava cheio (sorry, imagens do Google neste post de novo)! 
Este santuário também era maravilhoso, embora eu não tenha visto um sentimento de devoção tão grande como o do Imam Reza. Vi homens fumando e algumas mulheres deixando o cabelo aparecer sem nenhuma preocupação.  Enquanto eu com minha pouca prática, quase me estrangulava com meu próprio chador, o próprio Hamed gentilmente se prontificou a ajeitá-lo sobre mim de forma que eu ficasse mais confortável.O cavalheirismo dos rapazes iranianos me surpreendia toda hora!
Para entrar no santuário é necessário guardar os sapatos e como de costume há uma entrada separada para homens e mulheres. Eu entrei, enquanto os meninos me esperavam do lado de fora. Ali dentro sim, é muito similar ao Imam Reza, embora menos lotado. O  teto também é decorado por espelhinhos reluzentes e há muita gente emocionada, chorando e batendo no peito. Eu fiquei parada ali só observando, mas ninguém pareceu notar que eu era khareji.
Rua do Santuário Shah Cheragh (Foto: Flickr: reibai)
Pátio do Shah Cheragh (Foto: Flickr: reibai)
Interior do santuário (Foto: Geographica)
Ao sair do santuário devolvi o chador e a funcionária perguntou: "Você gostou?". Eu respondi: "Sim, maravilhoso!" Depois peguei minha câmera no guarda-volumes e Hamed pediu para eu conferir. Mesmo em um país tão seguro como o Irã, não dá pra vacilar! Uma das coisas que ainda me inquietavam é não ter visto os tais basijs, a polícia da moral  em lugar nenhum, talvez eles não fiquem em lugares onde há muitos turistas. Hamed era um policial, mas não consegui imaginar naquele rapaz tão simples e gentil nenhum traço de alguém que está a serviço de um  sistema repressor tão odiado pelo ocidente.
Como não havia muita coisa para fazer, andei pensando em trocar minha passagem para a tarde do dia seguinte embora eu fosse apertar ainda mais meu cronograma, não me conformava em sair do Irã sem ver os túmulos dos poetas.
Á tarde fui novamente convidada para almoçar no apartamento de Bahar. Ela me pediu desculpas, por que o almoço era o mesmo de ontem, mas para mim isso não importava nem de longe. Enquanto os amigos iranianos comiam o kebab de frango usando as  mãos sem cerimônias, eu segurava com a ponta dos dedos timidamente, mas aos poucos fui pegando o jeito deles. Só não consegui imitar aquela mania de lamber os dedos, ao em vez de usar o guardanapo! Como manda a hospitalidade iraniana eles jogavam mais pedaços de carne no meu prato, mas eu estava começando a sentir meu estomago doer. 
Depois do almoço percebi um terrível, equívoco, Rahim havia trocado minha passagem não para as 14hs, mas para ás 23hs do dia seguinte. Enquanto os amigos se divertiam fumando geliun (narguile) deitados no tapete, chegou uma outra amiga deles chamada Alma, a quem Hamed chamava carinhosamente de topoli (gordinha), mas como eu não estava de bom humor, acho que ela não deve ter ido muito com minha cara. Fui até a varanda e não sei como explicar, mas comecei a me sentir ainda mais entre estranhos, a dor no estômago aumentou e eu comecei a chorar de nervoso. Bahar me viu chorando, veio até mim me chamando de honey Janet, e eu mostrei pra ela o bilhete errado. Ela me ofereceu um chá para me acalmar e me deu uma pulseira cor de rosa mega extravagante que aceitei com certa relutância...
Por fim, Hamed me levou até o terminal, parecendo embaraçado com a situação. Ele me explicou que Rahim não havia encontrado ônibus para o horário que eu queria por isso ele pegou para as 23hs. Andamos de guichê em guichê, até que encontramos na mesma companhia Hamsafar um ônibus que saía no horário certo, porém eu teria que pagar um trocado a mais. Porém isso não importava, eu iria no melhor ônibus para Yazd... Hamed ao ver minha cara de alívio por ter resolvido o equivoco disse: "Nunca chore no Irã, ok?" Sei que no final do dia, pedi muitas desculpas e acabei recusando o convite de sair à noite com eles para me despedir. Preferi voltar para o hotel, descansar e na manhã seguinte dar uma corrida nos lugares históricos que desse tempo. De qualquer forma, tenho muito o que agradecer por tudo que esses meninos de Shiraz fizeram por mim.
Enquanto na casa dos meus amigos me dão tanta comida que chega a não caber, aqui no hotel vou sobrevivendo à base de biscoitos, suco, água e chicletes. Mas em compensação, sinto que um pouco de privacidade ajuda a colocar meus pensamentos no lugar e passo o tempo cuidando de mim mesma enquanto assisto canais da TV iraniana.  Meu amigo Ehsan ligou de Yazd, perguntando a que horas eu chegaria. A voz dele era tranquila. Seu inglês era perfeito e ele  misturava algumas palavras em português, o que me fazia pensar que eu teria a melhor companhia no meu próximo destino.
O próximo post será uma maratona de lugares históricos em Shiraz e minha chegada em Yazd. Até a próxima!