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Viagem ao Irã: Mashhad, a experiência da religião

De chador, pela 1ª vez, visitando o Imam Reza
Salam amigos! Como eu havia prometido vou dar continuidade ao relato das minhas experiências em Mashhad no dia 24/08/13.
No final da tarde fomos para casa descansar. Diferente de Teerã, o apartamento em Mashhad era um lar iraniano mais tradicional. A sala era ampla e belamente decorada, mas nada de banheiro ocidental e nem cama no quarto. Eu estava tão cansada que tirei um soninho gostoso até o anoitecer em um colchonete no chão do meu quarto de hóspedes improvisado na biblioteca da casa. Fui acordada pelo toque do celular, eram os amigos de Talesh ansiosos por notícias... Zeynab me chama para subir ao terraço do prédio onde estavam suas vizinhas, que conversam e dão risadas gostosas, tomando chá, comendo pistache e tâmaras sentadas em uma toalha no chão. Junto-me a elas e percebo que fazem perguntas sobre mim, querem saber minha religião, se sou casada, qual é minha profissão. Mas dirigem as perguntas a Zeynab e Somayeh, já que eu não consigo responder em farsi...
Finalmente à noite, fui convidada para visitar o haram (santuário) do Imam Reza. Antes de chegar lá o carro entrou por um labirinto de vielas, até que finalmente pude avistar de longe a estonteante cúpula dourada que tem seu brilho realçado pelas luzes à noite. Para minha surpresa fui informada que no horário das orações, não são permitidas visitas de turistas. Me orientaram a simplesmente me cobrir com o chador e entrar calada. Fora o fato de eu estar com o passaporte na bolsinha por baixo da roupa, o que aumentou minha preocupação. E assim como no aeroporto há uma entrada separada só para as mulheres, onde elas revistam você a procura de objetos perigosos. Ali também é proibido entrar com câmera fotográfica, só pode tirar foto com  o celular ou tablet. Ufa! Passei na revista com o chador todo desajeitado. À noite  a temperatura é mais fresca, e senti que o chador  até que não é um bicho de 7 cabeças, só tropecei nos primeiros passos. Depois me misturei com o povo e fiquei contemplando aquela atmosfera sagrada. O lugar é espetacularmente lindo, luzes iluminando os detalhes dourados que contrastam com o fascinante conjunto de mosaicos azuis com arabescos coloridos. Eu queria fotografar cada milimetro! Mesmo em meio à multidão de homens e mulheres que rezam e entoam cânticos sentados sobre os tapetes no pátio, enquanto as crianças brincam, a sensação é de paz e harmonia. Lembrei que o rapaz chamado Hassan havia me dito no avião: "Quando estou no santuário, esqueço tudo, só consigo pensar em paz. Imam Reza é muito especial para nós, ele sempre atende as nossas preces..." Que grande privilégio tive eu, uma não-muçulmana e ocidental de estar ali... Ao lado do santuário do Imam Reza pode-se ver outra belíssima mesquita chamada Goharshad.
Pátio do haram (santuário) do Imam Reza
A impressionante cúpula dourada
Os fieis lotam o santuário....
Detalhe da arquitetura, azulejos com arabescos
Mesquita Goharshad
Minha performance de chador, toda desajeitada...
Depois da visita ao santuário, fomos a um outro lugar caprichado para comer uma pizza. Aquela altura da noite (23:00hs) eu estava tão cansada que quase não tinha fome, mas por polidez não pude recusar ao convite. Aliás fome é uma coisa que não senti desde que cheguei no Irã. Mesmo com o cardápio em inglês, havia uma porção de nomes desconhecidos, então fui logo no que me saltou aos olhos primeiro: pepperoni!  Meus anfitriões deram muitas risadas e agradeceram, por finalmente dessa vez eu ter facilitado a vida deles!
Dia 25/08/13: Este é meu último dia em Mashhad, às 18hs  tenho um vôo marcado para Rasht. Aqui o povo acorda tarde, só mulheres na casa. Zeynab me convida para o café da manhã na sofreh. Quem faz  a alegria da casa é a pequana Fatemeh de 2 anos, filha de Somayeh que brinca com uma luminária quebrada, calça meus sapatos e corre pela casa toda... Dou de presente para a família um chaveiro com a bandeira do Brasil e um pacote de doces, incluíndo as balinhas de café que curiosamente eles chamam de shukulat. Depois percebi que eles chamam qualquer tipo de bala caramelada de shukulat...
Quando Hassan chegou, vesti o traje mais conservador, arrumei minhas malas correndo e entreguei para ele levá-las até o carro. A família  me convidou para visitar o maior parque de Mashhad, o Kuhsangi ("Montanha de Pedra") que tem esse nome obviamente por ter sido construído ao redor de uma grande montanha de pedra. Aos pés da montanha, há um casarão e um lago artificial sem nenhum atrativo especial, porém o parque é belamente arborizado e irrigado por fontes de água onde as crianças se esbaldam brincando de se molhar. Até mesmo as mocinhas se molham de roupa e tudo na maior alegria. Um menininho árabe cai sentado na fonte e começa a chorar e em seguida leva uma bronca do pai, mas depois continua sua brincadeira. Vale tudo para refrescar o calorão!
Hoje é domingo, não é um dia de folga no país, mas o parque está bem lotado de famílias de vários lugares do Irã, dá para notar que há bastante árabes (que reconheço mais pelas falas do que pelas roupas). Famílias estendem suas toalhas e fazem piquenique, como em todo parque. Ali sentadas em um banco comemos batatas fritas da marca Chi-tooz. O interessante é que eles comem essas batatas molhando em um potinho de mast (iogurte) bem azedinho. Eu aprecio essa combinação!
Dentro do parque também  há uma grande construção em andamento, que parece ser um futuro shopping- center, vários anfiteatros e tendas de comida. Mas a grande atração do parque é sem dúvida a própria montanha de pedra que Hamed, marido de Somayeh me convida a escalar. As outras mulheres não quiseram vir comigo, então subimos a pé os sei lá quantos metros por um escadaria exaustiva. Enquanto Hamed carregava a pequena Fatemeh nos ombros eu ofegava e me sentia torrando sob o maghnee preto. Na metade da subida já dava para contemplar um belíssimo panorama do parque. Enquanto Somayeh e Zeynab acenavam para nós lá de baixo, Hamed perguntou se eu aguentava ir até o topo. Claro que eu topei, não queria perder a vista lá do alto por nada!
Chegamos no topo onde dava para observar um panorama de tirar o fôlego de toda cidade de Mashhad. Ali também, circundadas por bandeiras do Irã há um conjunto de 5 lápides que são conhecidos como os "Shahids (mártires) sem nome". A propósito, no Irã você vai ouvir falar muito dos Shahids, que é o nome dado mais especificamente aos combatentes mortos na guerra Irã-Iraque nos anos 80. Eles também dão nome a milhares de ruas e vielas nas cidades.
Parque Kuhsangi ("Montanha de Pedra")
Subindo a montanha (aff...que calor!)
Dá pra ver a cidade de Mashhad inteira...
Depois dessas aventuras, fomos almoçar em um restaurante com o divertido nome de "Frango Fugitivo". Como sempre a comida é deliciosa, mas um pouco demais para mim. Porém dessa vez, após a escalada da "Montanha de Pedra" eu estava com um pouco mais de fome, e detonei o frango fugitivo com arroz e salada, regado a cerveja sem álcool sabor pêssego.
Antes da minha partida de Mashhad ainda visitamos mais uma vez o santuário do Imam Reza, a fim de cumprir uma tradição local, no qual o visitante deve fazer um pedido pelas pessoas que o receberam. Dessa vez passamos por uma espécie de túnel que fica logo abaixo do complexo do santuário. Pense em um túnel decorado com azulejos e fontes de água! Ao chegar lá, coloquei o chador e entrei novamente junto com Somayeh e Zeynab sem dizer nada, (dessa vez sem passaporte no bolso). Durante o dia, o santuário é superlotado e também superaquecido devido ao fato de o sol refletir no piso de mármore. Entramos no túmulo do Imam Reza propriamente dito. Nem precisa dizer que ali dentro é proibido qualquer tipo de fotografia, felizmente há milhares de imagens no Google onde podemos ter uma mínima noção de como é seu interior, mas nada se compara a estar ali em pessoa. Deve-se tirar os sapatos e a entrada das mulheres também é diferenciada. Enquanto no pátio há uma sensação de paz e tranquilidade ali dentro elas choram, e gritam suas preces em voz alta, na esperança de serem atendidas pelo 8º Imam dos xiitas. Enquanto Somayeh segura minha mão, não consigo permanecer parada, no movimento de mulheres que se empurram. No interior do haram o teto e as colunas são inteiramente revestidos por espelhos que cintilam estonteantemente, e  sua lápide está cercada por uma deslumbrante estrutura de metal dourado com treliças, onde os fieis jogam dinheiro e flores e se debruçam em preces e agradecimentos. É ali que eu devo fazer uma prece por minhas anfitriãs, porém devo manter esta em segredo, apenas entre eu e Allah. Com os olhos banhados em lágrimas, saímos do interior do santuário, no contrafluxo das mulheres que seguravam seus tasbihs (rosários) e Alcorões, gritando em voz alta: Salam Imam Reza... Na saída as fiéis beijam os umbrais da porta de bronze artisticamente trabalhado.
Mashhad, com o santuário do Imam Reza ao fundo
Túmulo do Imam Reza (Foto do site: Worldisround)
Eu sei que neste momento, você, caro(a) leitor(a) deve estar se perguntando, se eu sou muçulmana xiita ou se eu acredito na intercessão do Imam Reza. O que eu posso dizer é o seguinte, minha formação é cristã católica, mas a emoção e a energia da fé que eu senti ali me fez pensar somente que o Ser superior que nos ama indistintamente estava ali. Zeynab e Somayeh sabiam que eu não era muçulmana e não fizeram nenhuma diferença comigo, me convidaram para estar ali orando por elas e não fizeram nenhuma espécie de propaganda para eu me converter ao islã ou algo assim. Ao final Somayeh disse: "Nosso Deus, é único, e o Imam Reza, para nós, também é único..."
Em Mashhad, eu me senti acolhida de verdade, desde o primeiro momento. Às 17hs nos dirigimos para o aeroporto onde me despedi com muito carinho e respeito do casal Zeynab e Hassan.  Então, por hoje e só, no próximo post, vou contar como foi minha chegada no aeroporto de Rasht e o encontro com meus amigos Peyman e Maryeh . Aguardem!

>>Deixo com vocês  um pequeno vídeo da minha primeira visita ao santuário do Imam Reza: 


Viagem ao Irã: Mashhad, a experiência da cultura

Salam amigos! Hoje vou contar como foi meu 2º dia no Irã. Como este seria um post muito longo, vou dividi-lo em 2 partes: hoje vou falar da experiência cultural e no próximo post dos locais sagrados.
Aeroporto Mehrabad, Teerã (Foto: Panoramio)
Dia 24/08/13: Na noite anterior eu mal conseguira dormir e tive que acordar bem cedo (às 5:40). Seguindo às recomendações de Afsaneh sobre a família que me receberia em Mashhad ser extremamente religiosa, vesti roupas escuras e discretas e o maghnee. Saímos correndo para o aeroporto enquanto as crianças ainda dormiam. Quem dirigia, era a mãe dos meninos Alireza e Mohammad Amin que também me acompanharam até o aeroporto de Mehrabad. Esse aeroporto que antigamente atendia aos voos internacionais, atualmente é destinado aos voos entre cidades. Ali há um movimento intenso de iranianos de todo país, notei especialmente uma grande circulação de mulás de turbante e mulheres de chador que assim como eu também deveriam estar indo para Mashhad. Quando chegou a hora de ir para a sala de embarque, a familia me deixou aos cuidados de duas senhoras de chador que também estavam à caminho de Mashhad. Elas não falavam inglês, mas faziam gestos para que eu as acompanhasse.
Na hora do embarque, as mulheres devem entrar por uma sala diferente e passar pelo detetor de metais. Quando chegou a minha vez, o alarme disparou por causa de um chaveiro na bolsinha que eu levava por baixo do manteau. Uma funcionária de chador me encarou com uma expressão séria e revistou por baixo de minhas roupas enquanto eu dizia embaraçada: kelide man (minha chave)... Depois desse momento tenso, ainda faltava um tempinho para o embarque às 9:10. Na sala de embarque, as duas senhoras de chador que se chamavam Nasrin e Nazan, continuavam comigo. Logo chega o irmão mais novo delas, um belo rapaz, trazendo a mãe, uma senhora bem idosa em uma cadeira de rodas. Ao saber que sou do Brasil a família toda me olha com curiosidade, mas sorriem e demonstram simpatia. Nasrin diz que eles são de Mashhad e faz bastante perguntas, testando o meu precário farsi. A cada frase que eu conseguia dizer corretamente ela e os irmãos aplaudiam e exclamavam: Afarin!!!  
Antes de embarcarmos, um ônibus nos levou até o avião da Aseman Airlines. Não precisa nem dizer que sentada ali entre as mulheres iranianas eu virei alvo de olhares curiosos  Ouvia a palavra Berezil para lá e para cá... saquei logo que eu também era o assunto do momento. Quando o veículo entrou em movimento dei meu lugar para uma senhorinha idosa que foi me abençoando até o destino final!
No avião eu me sento ao lado de um rapaz bem jovem que fica me observando curiosamente enquanto eu estou lendo um livro espanhol sobre o Irã. Ele pergunta em inglês: "Com licença... De onde você é? Em que idioma é esse livro?" Eu respondo: "Sou do Brasil, esse livro é em espanhol, mas minha língua nativa é o português..." Pra variar, ele fica admirado com minha resposta, depois diz que se chama Hassan, é iraniano mas mora na Tunísia e está indo para Mashhad somente para visitar o haram (santuário) do Imam Reza. Ele também diz que ama a cidade de Yazd (onde ele nasceu) e me dá muitas dicas legais sobre o que comer em Mashhad: "Não esqueça de provar o shishlik kebab!", recomenda ele.
De Teerã a Mashhad dá apenas 1 hora e meia de voo. Quando o avião começa a pousar, consigo vislumbrar a paisagem árida e montanhosa, meus olhos mal conseguem acreditar! Eu nunca estive tão longe em toda minha vida, a poucos quilômetros a leste está o Afeganistão. No aeroporto, o simpático Hassan e as irmãs Nazan e Nasrin me acompanham até eu pegar minha mala  e encontrar meus anfitriões. Ainda fiz a burrada de perder o ticket da bagagem e enquanto o funcionário do aeroporto me interrogava impacientemente, os 3 iranianos intervieram para me ajudar. Fiquei encantada com tanta gentileza e atenção daquele povo para com uma turista desconhecida! Eu gostaria de ficar mais tempo com eles para retribuir a tanta amabilidade, mas tive que me despedir...
Quem me esperava em Mashhad era Zeynab e seu marido que também se chama Hassan, junto com sua amiga Somayeh. Reconheci logo porque eles seguravam um papel com o meu nome escrito. Zeynab que também usava o tradicional chador  me recebeu com uma linda  rosa vermelha que logo murchou no calorão de Mashhad. Hassan é tão religioso que não aperta a mão de mulheres, ao invés disso, me dirige um respeitoso salam levando as mãos ao coração. (Aliás, o nome Hassan no Irã é muito comum, por ser um dos filhos do venerado Imam Ali).
Estar diante dele já é uma grande emoção...
O mausoléu de Ferdowsi
Detalhe do mausoléu de Ferdowsi
Do aeroporto eles me levaram direto para conhecer o mausoléu do poeta Ferdowsi em Tus, cidade vizinha. Mashhad é a segunda maior cidade do Irã, capital da província de Razavi Khorasan, minha impressão é que é bem mais árida do que Teerã, com menos árvores margeando as estradas. O calor até que não superou minhas expectativas devido ao fato de estar usando roupas escuras... 
Tus é cercada por montanhas de aspecto arenoso de cor ocre. Ali paramos em um parque verdejante no qual se destacava o imponente mausoléu de Ferdowsi! A visão dele me fez estremecer de emoção, um edifício em formato de cubo, todo construído em mármore claro, decorado por poemas em caligrafia persa, no alto destaca-se um lindíssimo relevo do Faravahar. Escadarias nos quatro lados convidam o visitante a se aproximar dessa joia arquitetônica enquanto, outras dão acesso ao subterrâneo, onde podemos visitar o túmulo propriamente dito deste herói nacional.
O interior deste monumento é igualmente de cair o queixo: comparado com a lápide do túmulo que é um modesto bloco de mármore com inscrições em persa. Está rodeado por relevos estonteantes de cenas das batalhas do épico Shahnameh, obra máxima da literatura persa. Ao lado do mausoléu está o Museu de Tus, com um acervo espetacular de quadros, miniaturas persas, peças arqueológicas encontradas na região e artefatos históricos contemporâneos de Ferdowsi.

Interior do mausoléu de Ferdowsi
Detalhe do relevo com cenas do Shahnameh
Detalhe da lápide de Ferdowsi
Peças do acervo do Museu de Tus
Nem Zeynab, nem Somayeh falam inglês, então infelizmente a nossa conversação ficou bem limitada. Elas se esforçam ao máximo para me entender e eu a elas. Foi até engraçado, elas carregavam um livro de inglês o qual consultavam sempre que eu não entendia alguma frase em farsi! Porém, a gentileza delas compensou essas falhas na comunicação. Visitamos as lojinhas de souvenir e Zeynab me presenteou com um  verdadeiro tesouro: um Shahnameh em inglês, de capa dura e ricamente ilustrado!
Saindo do Museu de Tus, passeamos pelo parque que abriga o mausoléu. Ali encontramos as esculturas de Ferdowsi e do herói Rostam, árvores e fontes de água refrescam o clima e ouvimos música tradicional da província de Khorasan vinda dos alto falantes do parque e de músicos que se apresentam para os turistas. Também há umas bancas que vendem uma raspadinha de gelo com suco de laranja (mais gelo que suco).
Eu e o herói Rostam
Muito prazer, Ferdowsi!
Depois, juntou-se a nós o marido de Somayeh e a família me convidou para almoçar em um restaurante chiquérrimo chamado Padideh. Ali tive o prazer de degustar o famoso  shishlik kebab que o rapaz do avião havia recomendado. Ficou gravado em minha mente que o shishlik é uma das maravilhas da culinária de Mashhad, espetinhos de três tipos de carne acompanhados de tomate assado. A quantidade de comida ali mais uma vez me impressionou! Tudo era saboroso: o arroz, o tahchin (que eu provara pela primeira vez no Brasil na casa da cadbanou Nasrin), o pão, a salada, o mast... A única coisa que meu paladar não conseguiu apreciar foi o famoso dugh, aquele refresco gasoso de iogurte de sabor salgado que os iranianos amam de paixão! Tenho que admitir, naquela hora eu preferi a nossa velha conhecida Coca-Cola... Após o almoço, meus anfitriões me convidaram para um chá numa daquelas salas bem tradicionais de encher os olhos. Aliás, no Padideh tudo é muito lindo e agradável, fiquei pensando na fortuna que meus anfitriões estariam gastando só para me fazer feliz ali em Mashhad...
Almoço no restaurante Padideh...
O famoso Shishlik kebab
No próximo post, vou contar como foi minha visita ao santuário do Imam Reza e minhas últimas emoções em Mashhad. Deixo com vocês uma pequena amostra da música típica da província de Khorasan:


Viagem ao Irã: 1º dia em Teerã e o gosto da hospitalidade

Entrando na cidade de Teerã
Salam amigos! Conforme o prometido, vou continuar minha narrativa de quando cheguei em Teerã, no dia 23/08/13Foi em uma sexta-feira (dia de descanso dos muçulmanos) que desembarquei na capital do Irã e fui recebida com muito carinho pelo casal Nader e Ashraf. No carro deles eu não pude deixar de notar os primeiros vislumbres da paisagem fora do centro Teerã, com sua cadeia de montanhas acinzentadas ao fundo, e a estrada margeada por árvores que eu julguei serem ciprestes. Mais adiante se destacavam blocos de prédios residenciais muito comuns em Teerã e obviamente, as placas bilingues em persa e inglês (veja o vídeo no final do post).  
Quando cheguei ao apartamento dos meus anfitriões às 7:00 horas da manhã, a primeira coisa que eu queria era um banho. Mas depois de tantas horas de viagem, meu cérebro me sabotava e esqueci tudo que eu havia aprendido da língua persa e ninguém na família falava inglês! Foi um desafio pedir por um banho em persa, nem o vocabulário english-persian que eu havia impresso foi útil naquela hora! A solução foi ligar para Afsaneh e pedir para ela traduzir para mim o que eu precisava... 
O apartamento da minha família em Teerã era extremamente amplo, confortável e decorado com muito bom gosto, uma tendência que eu observei em todas as casas onde eu estive nas outras cidades. Para meu alívio, ali havia toalete nos estilos iraniano e ocidental!  
Após o banho e um breve descanso, pedi para o garoto Ali, o filho mais novo do casal deixar eu usar o computador. Conversei pelo skype com meus amigos de Talesh, os irmãos Maryeh e Peyman que aguardavam aflitos por notícias minhas! Maryeh havia chorado de tanta preocupação, enquanto eu tentava acalmá-la explicando que antes de sair de casa no Brasil, não havia conseguido conectar à internet para avisá-los. Ainda me lembro da correria na qual eu imprimi os horários das minhas reservas de vôos no Irã faltando apenas 1 hora para sair de casa... Por fim, pedi a eles que tivessem um pouco de  paciência, pois eu já tinha um voo reservado para Mashhad no sábado, mas no domingo eu finalmente desembarcaria no aeroporto de Rasht, onde eles iriam me buscar e me levar até a casa deles em Talesh (província de Gilan).
Com poucas horas em Teerã, comecei a sentir o famoso efeito jet lag, devido a mudança de fuso-horário. Dormi profundamente das 10 às 17 horas... Deixaram no quarto, só para mim um monte de frutas, chá e balinhas, aí sim me dei conta do luxo que era a minha condição de hóspede em uma casa iraniana! Ashraf me acordou e me serviu um delicioso almoço de arroz com carne, batatas e um molho de romã e mast (iogurte). Apenas a quantidade de comida superava a minha fome! Outra tendência que eu iria observar em todas as casas iranianas: a quantidade de comida servida para o hóspede é maior do que a que eles próprios comem usualmente!
À noitinha na casa da minha família em Teerã...
À noitinha, descemos para o hall do prédio onde havia o estacionamento, uma mesa de ping-pong, uma espécie de cama de madeira forrada com tapetes e almofadas onde tiramos fotos, e um laguinho artificial com luminárias, uma pequena ponte e plantas aquáticas. Ali conheci os meninos Alireza e Mohammad Amin que são sobrinhos de Nader e Ashraf, e moram no apartamento ao lado. Mohammad é o único que fala inglês, é super doce e inteligente, toca piano e desenha muito bem. Ele pergunta se eu tinha visto os peixes no laguinho. Eu respondo: "que peixes? Há peixes alí?" Com muito custo ele conseguiu me mostrar os peixinhos minúsculos na água escura, enquanto os outros meninos jogam ping-pong, as mulheres conversam e as crianças fazem bagunça, como em qualquer outro lugar do mundo...
Mesmo à noite ainda sinto bastante calor ali, ainda mais com o camisão bege de tecido sintético que eu vestira. Aliás essa é uma das dicas que eu dou para as amigas: não use roupas nem lenços de tecido sintético no Irã, pois esquentam o dobro! Decidi subir para o apartamento, a fim de me livrar das roupas calorentas. Logo em seguida, a família serviu o jantar da maneira tradicional: em uma sofreh, que consistia em uma toalha descartável forrada sobre o tapete da sala. Comemos sentados no chão, pão, kotlet (bolinhos de carne), tomates, presunto picles e um tipo de melão bem verdinho regados a Fanta e Lemon Ice não alcoólico. Enquanto a família acompanhava uma novela turca na TV via satélite, eu apreciava a experiência exótica!
Meu primeiro jantar em  estilo iraniano (sofreh)
Lembro me também que no decorrer do dia fui apresentada a tantas outras pessoas da família, todos igualmente simpáticos e amorosos, mas confesso que é difícil guardar o nome de todos. Dei de presente para os donos da casa cocadinhas, balas de café e um chaveiro, e para as crianças, pins com bandeira do Brasil que eles pareceram adorar. Antes de dormir entrei no skype mais uma vez para ver se encontrava algum amigo brasileiro disponível para dar minhas primeiras notícias. Vários amigos queriam falar comigo ao mesmo tempo, enquanto a família continuava me enchendo de mimos como biscoitos, chá e até um típico sorvete bast irani altas horas da noite!
Passei o meu  primeiro dia em Teerã só descansando e sendo mimada por aquela família adorável, que apesar da barreira idiomática me fez entender o verdadeiro significado da proverbial hospitalidade iraniana. Mas, na manhã seguinte eu teria que estar com minhas malas arrumadas e acordar bem cedo e voar para Mashhad onde eu passaria aos cuidados de outra família. Com meu relógio biológico alterado, deitei mas não consegui pegar no sono. Fiquei tentando sintonizar no celular algumas estações de rádio do Irã, a maioria tocava os versos do alcorão, flash-backs e leituras de poemas com fundo musical...
Bem amigos, por hoje é só, no próximo post contarei como foi minha chegada em Mashhad, uma cidade sagrada para os xiitas e também a mais distante que eu já estive em toda minha vida!

>> Fiquem com um pequeno registro dos meus primeiros vislumbres das terras da Pérsia!


Viagem ao Irã: De Guarulhos a Teerã


Dia 22/08/13 cheguei cedo no aeroporto Internacional de Guarulhos (umas 21:30). Primeira viagem internacional, ansiosa e preocupada em não me atrasar, o recomendável é que chegasse com 3 horas de antecedência, acabei chegando com 6 horas de antecedência! Bichinho do mato, fui auxiliada por um gentil senhor peruano a encontrar o guichê da Turkish Airlines (que só abriria dali há 3 horas)! Sozinha ali com uma mala e uma mochila pesadíssimas, sentei para tomar um café e fiquei papeando no celular com minha amiga Karla  até dar a hora de despachar as malas e seguir para o portão de embarque... O meu voo saiu às 3:30 da madrugada. Como eu nunca tinha voado antes, senti um frio na barriga durante a decolagem, mas dali a pouco o sono dominou tudo. No avião, a maioria dos passageiros teria como destino final, Istambul, na Turquia onde eu teria que esperar mais 3 horas por um outro vôo até Teerã, no Irã.Acredito que eu deveria ser a única brasileira indo para o Irã! 
Escolhi a Turkish Airlines pelo preço e pela qualidade do serviço que um outro amigo que já foi para o Irã me garantiu ser das melhores. Na classe econômica tem travesseiro, cobertor, chinelinho e um estojinho com creme dental, máscara de dormir, meias e hidratante labial. As refeições consistiram de café, almoço e lanchinhos extras. Porém os comissários são todos turcos e falam somente em inglês. Para quem está acostumado a viajar para o exterior, esses detalhes podem nem ser tão importantes, mas para mim foram, uma vez que do meu lado havia outras passageiros que não entendiam inglês e precisavam de ajuda por exemplo, para escolher a refeição. Enfim, de Guarulhos à Istambul são 13 horas de vôo. Tem gente que dorme a viagem toda, o que não é o meu caso, ainda bem que tinha como se distrair com as músicas e documentário disponíveis na telinha diante da minha poltrona ou vislumbrando desertos e mares pela janela. Antes de pousar em Istambul, o avião faz uma curva medonha e vai baixando ainda sobre o mar, dá um gelo na espinha!
Atravessando desertos e mares...
Cheguei em Istambul "capengando" depois de tantas horas sentada. Desejei uma boa viagem para Ângela, a amiga que conheci no voo e me dirigi para o local de transferência. Não sei se devido ao meu cansaço, achei os funcionários do aeroporto de Istambul nervosinhos e mal-educados. Enquanto os turistas passavam pelo detector de metais um rapaz e uma moça de uniforme gritavam com uma voz áspera para levantarem os braços. Dei graças a Deus pelo alarme não apitar comigo e saí toda feliz para a área de embarque, onde deveria aguardar 3 horas até meu próximo voo. Detalhe importante: na escala você deve acertar o seu relógio para a hora local! Por exemplo quando cheguei a Istambul meu relógio ainda estava com hora de São Paulo, então tive que acertar para a hora local e repetir o mesmo passo quando chegasse em Teerã.
Alguém havia me dito que o aeroporto de Istambul é o mundo! Constatei que é verdade mesmo! Nunca vi tantas pessoas com tantas roupas diferentes, parece um desfile das nações! Vi por exemplo, afegãos de barba turbante e calças bufantes, indianas com saris mega-coloridos e sauditas apenas com os olhos de fora em meio a japoneses, africanos e gringos de bermuda e camisa florida típicos de turista. Mesmo com o calorão que fazia ali, com vontade de entrar logo no clima do Irã, fui ao banheiro, joguei água no rosto para despertar e vesti o meu camisão bege com o maghnee (tipo de véu iraniano) preto. 
De olho no relógio e nas telinhas que indicavam o horário do voo e o portão certo, atravessei apressadamente o corredor gigantesco até a sala de embarque. Quando me sentei ali, observava que a maioria das iranianas não faziam a mínima questão do véu antes de entrar no Irã. Algumas usavam roupas bem à vontade, regatas, chinelinhos e até uma freira com seu crucifixo em evidência, todas com os cabelos descobertos. Praticamente "só dava eu toda montada no hejab" ali! Mas isso não pareceu chamar a atenção de  ninguém, eu estava tão feliz de ter conseguido chegar sozinha até Istambul e que dali há 40 minutos eu embarcaria para Teerã!  
Antes de embarcar no avião para Teerã já senti o clima do país para onde eu estava me dirigindo: rapazinhos cantarolavam animadamente, moças ostentavam cabelos e maquiagens impecáveis. Um senhor muito simpático perguntou de onde eu era, e ao ouvir que eu era do Brasil, sorriu carinhosamente dizendo: "você vai para o Irã? Mas que boa notícia!" O vôo de aproximadamente 2:30 foi meio tedioso.  Avião menor, nada de musiquinhas nem filmes, nem janela! Eu estava sentada ao lado de um jovem casal que dizia ser da cidade de Mazandaran, o rapaz ao constatar minha nacionalidade disse animado: "Wow, a seleção do seu país é a melhor!" E comentou com a esposa que sorriu para mim. Poucos minutos antes do avião pousar, as mulheres começaram a vestir seus manteaus e cobrir os cabelos com seus shals. Enquanto isso, eu sentia uma grande emoção tomar conta de mim. Enquanto tentava observar pela janela distante as primeiras luzes da cidade de Teerã meus olhos se encheram de lágrimas e eu dizia para mim mesma: "Obrigada Deus, finalmente eu consegui!" Outros passageiros olhavam para mim espantados com meu chororô, o rapaz que estava ao meu lado com a esposa perguntou: "Você está com medo? Não tenha medo! O Irã vai ser muito bom para você..." Eu respondia com a voz trêmula: "Não estou com medo...  estou muito feliz! São lágrimas de felicidade! Finalmente eu consegui chegar aqui!".
Finalmente no IKA, cansada, mas feliz... (foto tirada por Majid)
Dia 23/08/13, finalmente no Aeroporto Internacional Imam Khomeni (IKA), Teerã às 5:40 da manhã. O movimento ali é muito tranquilo, bem diferente de Istambul. Me dirigi para a imigração, onde eu era a primeira da fila dos estrangeiros, seguida por um grupo de mochileiros. O funcionário que aparentemente não falava inglês, deu uma breve olhada no meu visto no passaporte com um ar sério, leu meu nome com sotaque persa, carimbou e devolveu. O mesmo senhor simpático que havia sorrido para mim antes de entrar no avião, lá do outro lado (a fila dos iranianos) perguntou se havia dado tudo certo e deu um tchauzinho!
Após pegar minhas malas, que demoraram um tempão para aparecer na esteira, de repente, me deparei com um rosto familiar. Era Majid, o noivo da minha amiga Karla! Ele também me reconheceu! Nos encontramos ali por acaso, ele não esperava por mim mas por um de seus parentes que também chegaria  no mesmo local onde eu estava. Enquanto eu esperava pela família que deveria me receber em Teerã, Majid comprou para mim uma água e tirou uma foto da minha carinha de cansada envolta no hejab negro. Porém não demorou muito até o casal Nader e Ashraf, que são parentes de minha querida amiga Afsaneh chegarem para me buscar. Ashraf me abraçou com muito carinho e Nader arriscou em inglês: "welcome to Iran!"
Saindo do aeroporto no carro deles, eu observava a paisagem e registrava meus primeiros vislumbres de Teerã. Porém, o que aconteceu nesse  momento e  a seguir vou deixar para o próximo post. Aguardem!


Viagem ao Irã 2013: Os lugares onde estive

No vilarejo de Masuleh,  província de Gilan
Salam amigos! Hoje, vou falar resumidamente dos lugares onde estive. Como vocês podem observar no mapa abaixo, visitei 12 cidades em 21 dias! Assim vou descrever o meu relato nos próximos posts para quem quiser se inspirar no meu roteiro. Mas lembrando que: fiz este percurso com ajuda de meus amigos iranianos e fiquei hospedada na maior parte do tempo em casas de família. Provavelmente você não irá encontrar nenhum pacote turístico com cidades como Karaj, Talesh ou Qom, uma vez que essas foram minhas escolhas pessoais com o objetivo de encontrar os amigos. Meu roteiro, incluindo vôos e hospedagens em cidades onde eu não tinha casa, foi cuidadosamente planejado por uma de minhas amigas que tem anos de experiência com turismo no Irã. Porém, como nem tudo é perfeito, acabei sem querer tendo alguns contratempos, perdendo muito tempo em uns lugares enquanto em outros tive que me apressar por causa das reservas de vôos...  Algo importante que você deve levar em conta quando visitar o Irã são os feriados e sexta-feiras (dia de descanso) quando a maior parte do comércio, museus e mesquitas estão fechados para visitação do público. Sim, aconteceu comigo! Dei com a cara no portão do túmulo de Hafez em Shiraz (feriado) e do palácio Chehel Sotun em Isfahan (sexta-feira), o primeiro felizmente ainda consegui visitar no outro dia, o segundo ficará para a próxima viagem... Outra coisa muito importante, se você está hospedado em casa de famílias, deve levar em conta que eles podem ter outros afazeres durante os dias úteis. No meu caso, meus passeios incluíram também escritório, mercado, hospital, escola... 

Mapa da minha rota de 21 dias no Irã
Assim segue um resumo de meus 21 dias no Irã: 

23/08 Chegada em Teerã
24/08 Vôo para Mashhad - (noite em Mashhad) 
25/08 Mashhad - Vôo para Rasht (permanência em Talesh)
26/08 Talesh
27/08 Talesh - Gisom
28/08 Talesh - Masuleh
29/08 Talesh - Astara - ônibus para Tabriz
30/08 Tabriz - Visita à Kandovan
31/08 Tabriz - Vôo para Shiraz
01/09 Shiraz - Visita a Persépolis
02/09 Shiraz  (Feriado, quase tudo fechado!)
03/09 Shiraz - ônibus para Yazd
04/09 Yazd
05/09 Yazd - ônibus para Isfahan
06/09 Isfahan
07/09 Isfahan - ônibus para Qom* 
08/09 Qom - Kashan
09/09 Qom - visita à Tinuj - ônibus para Karaj
10/09 Karaj - de metrô até Teerã 
11/09 Karaj 
12/09 Teerã- Vôo para São Paulo

Conclusão: coloquei meu roteiro aqui apenas para dar uma referência de como o tempo foi curto para tantos lugares! Algumas cidades não estavam no meu roteiro pré-estabelecido, por exemplo Kashan, fica antes de Qom, mas alguém se ofereceu para me levar até lá. 
*Não foi fácil achar ônibus de Isfahan para Qom (tive que descer em algum meio de caminho Isfahan-Teerã, onde um amigo me esperava)!  

Por hoje é só, aguardem os próximos relatos da minha odisséia nas terras da Pérsia! Khoda hafez! 


Voltando do Irã: as lições aprendidas durante a viagem

Torre Azadi, Teerã
Salam amigos da Pérsia! Estou de volta trazendo uma mala cheia de novidades depois da minha odisseia de 21 dias pelas terras da Pérsia! Nem acredito que consegui chegar ao outro lado do mundo sozinha! Logo eu: uma moça tímida, frágil e insegura que nunca viajou para o exterior antes. Além de  conseguir superar os meus temores e desmistificar o Irã que a mídia ocidental nos apresenta, descobri que 21 dias foi muito pouco para desbravar este país que amo tanto! Percorri 10 cidades, mas infelizmente não consegui visitar todos os meus amigos nem todos os lugares que eu pretendia. Por isso quero voltar em breve ao Irã, alma da minha alma, onde encontrei um povo hospitaleiro e carinhoso, cidades lindas e acima de tudo amigos que são mais que amigos! Digo com toda certeza que o Irã é minha segunda casa e os iranianos minha segunda família!
Antes de postar sobre os lugares onde estive, vou contar um resumo das lições aprendidas, dos pontos positivos e negativos da minha viagem. Por favor, não tomem tudo o que eu disser como verdade absoluta, e sintam-se a vontade para ler com olhos críticos o que escrevo aqui, afinal cada pessoa é diferente e assim sendo, seu conceito sobre o Irã com certeza será também diferente do meu.
Para começar, NÃO RECOMENDO QUE NINGUÉM VIAJE SOZINHO (A) AO IRÃ, A NÃO SER QUE: você seja um mochileiro desbravador com muita experiência de roteiros exóticos na bagagem ou tenha uma super rede de amigos, tão competentes e eficientes como os que eu tenho. Juro, que eu nunca teria coragem de viajar sozinha para o Irã se não tivesse estabelecido uma verdadeira network de amigos de confiança que mesmo à distancia estavam a minha disposição para me orientar a todo momento.
Sozinha eu não saberia nem usar a moeda iraniana, nem dar entrada em um hotel, nem embarcar em um avião, nem chamar por um taxi. Pode ser que você esteja me achando um bichinho do mato por isso, mas era exatamente essa a minha situação! Nos primeiros dias não coloquei a mão no bolso uma única vez, os amigos faziam questão de pagar tudo para mim, o restaurante, às passagens de ônibus e as entradas em museus. Só fui aprender a contar os meus tomans em Shiraz, quando necessitei comprar algo para o café da manhã no hotel e pagar por um motorista que me levasse até Persépolis.
Em Yazd quando passeei sozinha pelas ruas do Irã pela primeira vez, tive que pagar mais caro por ser turista e não estar acompanhada de um iraniano. Aliás a maioria dos locais históricos tem preços diferentes para turistas e iranianos, se você  não tiver cara de gringo e souber falar bem em persa ou entrar calado ninguém desconfiará. 
O lado engraçado de ser brasileira no Irã é que "brasileiro não tem cara", então ninguém desconfiava que eu fosse brasileira até eu abrir o bico. Disseram que eu tinha cara de indiana, paquistanesa, ou até mesmo de bandari (do sul do Irã), mas quando eu dizia que era brasileira os olhos se arregalavam e começavam a soltar nomes de jogadores brasileiros (Ronaldo, Rivaldo, Kaká... Copa... we love Brazil!!!) Acho que a maioria dos iranianos provavelmente nunca viu um brasileiro perambulando por seu país antes...
Restaurante Malek o Tojjar, Yazd
Outra coisa importante, não basta falar só inglês para se virar no Irã. VOCÊ TEM QUE APRENDER PELO MENOS UMAS FRASES BÁSICAS EM PERSA. Essa foi outra grande dificuldade que eu enfrentei. Apesar de ter um bom vocabulário em persa, eu não sei falar! Consigo ler o alfabeto persa e entender onde fica a entrada e a saída dos lugares, localizar o banheiro feminino, ou distinguir uma loja de parafusos de uma sorveteria. Mas quando eu perguntava para alguém: do you speak English? alguns diziam que  "não muito", mas até conseguiam me entender, já outros diziam que" sim", mas não sabiam falar muito além de um "Okay".
Por outro lado, viajando sozinha eu tive a oportunidade de conhecer lugares que não estão em nenhum guia de turismo convencional. Nenhuma agência de viagens ofereceria no pacote o privilégio de se hospedar em uma casa típica iraniana ou de se sentir por um momento parte de uma família. Porém, se você é do tipo que preza por sua privacidade, uma família iraniana não é o seu lugar, pois de  5 em 5 minutos alguém vem te oferecer frutas, chá, perguntar o que você precisa ou verificar se você está vivo... O hóspede é um deus, e às vezes a hospitalidade beira a bajulação, mas não se incomode por isso,  pois assim como eu, você poderá até sentir falta de tudo isso ao voltar para o Brasil...
Se você tem problemas de adaptação com camas, banheiros e formas diferentes de comer terá um esforço a mais também! Confesso que para mim não foi tão incrivelmente fácil como eu pensava, mas o carinho e atenção dos meus amigos me ajudaram a superar qualquer desconforto...
Por fim, o que tenho a dizer é o seguinte: AFASTE DE SUA MENTE QUALQUER IDEIA NEGATIVA SOBRE OS MUÇULMANOS E NÃO TENHA MEDO DE VISITAR O IRÃ!  Desculpem não ter conseguido atualizar o blog, pois não sou uma blogueira tão high-tech e no Irã como sabem a internet é limitada! Só consegui acessar meus e-mails e Facebook duas vezes e naquela vagareza. Meus amigos até tentaram me mandar softwares para  driblar a censura, mas eu não tive tempo para baixar. Mas agora que estou de volta, preparem-se para embarcar comigo nos relatos de viagem nos próximos posts!