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Viagem ao Irã 2013: A Despedida

Centro de Karaj (Imagem: Panoramio
Salam amigos, para  encerrar este ano, finalmente  vou postar o último capítulo da minha aventura de 21 dias pelas terras da Pérsia!
Dia 11/09/13: Manhã e último dia na cidade de Karaj. Assim que acordamos eu e Afsaneh começamos a arrumar as malas. Ela voltaria comigo para o Brasil, porém iriamos em voos separados, eu pela Turkish Airlines e ela pela Qatar Airways. Mas pousaríamos em Guarulhos praticamente no mesmo horário. Eu voltaria para casa e ela iniciaria uma nova viagem.
Á tarde saímos de casa, por volta das 15hs quando o comércio volta a abrir, acompanhei Afsaneh no médico e depois fizemos umas comprinhas finais. Até onde vi, Karaj não é uma cidade com grandes atrativos turísticos, mas tem um grande centro comercial com muitas lojas que não é tão diferente dos nossos. Foi minha oportunidade de andar de ônibus urbano mais uma vez. Como de praxe, as mulheres vão na parte de trás. Não importa se há mais mulheres e a parte dos homens esteja vazia, elas vão em pé na parte de trás! Diferente de nós, os iranianos pagam a passagem depois de descer do ônibus, e o mais surpreendente é que ninguém sai correndo sem pagar. As pessoas fazem uma espécie de tumultuo organizado estendendo as cédulas para o cobrador.
Fazer compras é outra atividade para a qual não tenho muita paciência, com meu farsi precário, Afsaneh pechinchava para mim enquanto eu escolhia as cores dos lenços e outros acessórios que mais me agradavam. Um jovem vendedor de uma das lojas simpatizou comigo por eu ser brasileira e disse que adora o nosso futebol.  Outra coisa que fiz questão, foi ajudar alguns vendedores que com o difícil momento da economia iraniana ganham seu sustento com artigos baratíssimos, como carteiras feitas à mão. 
Após essa correria, fomos a uma sorveteria onde  tomamos o último refresco de talebi, que vou lembrar para sempre como a minha paixão das frutas iranianas. No final da tarde, famílias se reúnem ali após um dia de muito calor. Fiquei com dó de um garoto que após pagar, virou a bandeja sem querer e derramou todo o refresco nas roupas e acabou ficando sem nada, saiu de lá frustrado...
O talebi, minha paixão das frutas iranianas
O suco de talebi
Voltamos para casa à noitinha. E a família toda nos esperava para a última despedida. Zeinab e Hassan, meus anfitriões em Mashhad também vieram. Enquanto Hassan contava os "passamentos" de quando eu estive em sua casa, por nossas confusões com o idioma, todos riam com a voz divertida dele. Mas por respeito, na presença dele, todas as mulheres da casa usavam o hejab, inclusive eu. Minha amiga Fereshteh também veio nos visitar junto com sua irmã, trouxe presentes que eu deveria levar para nosso amigo Jézer no Brasil e doces de Yazd para mim. Ela é muito bonita  pessoalmente, com sua maquiagem impecável, traços finos e roupas legantes. Depois de tirarmos muitas fotos e comermos muitas guloseimas terminamos de aprontar as malas na maior correria e nos despedimos de todos. Até o último minuto me ofereceram chá e eu nunca vi tantas pessoas chorando juntas em toda a minha vida, principalmente por Afsaneh que partiria para passar um longo tempo fora do Irã longe de sua família. 
Dia 12/09/13: Chegamos no aeroporto Imam Khomeini, em Teerã às 0:00 onde eu troquei os rials restantes por dólares e encontramos Majid (o mesmo que me encontrou na chegada) desesperado para despachar mercadorias que eu deveria entregar para minha amiga Karla no Brasil. Ele pagou o excesso de bagagem, mas quase atrasou o meu embarque com esse procedimento. Enquanto isso a família de Afsaneh, os pais, seu irmão Mustafa e Ashraf com Nader e também a irmã de Hassan, se despediam emocionados. Majid e  Afsaneh ficaram comigo até o momento de eu passar pelo portão de embarque ( o voo dela sairia uma hora mais tarde). Na hora de carimbarem o passaporte pareceu uma eternidade. Finalmente embarquei no avião, sentei na janela ao lado de um casal. Tirei o meu véu com relutância, foi ali que senti que estava indo embora do Irã...
Aeroporto Imam Khomeini, Teerã
No aeroporto de Istambul a escala de 4 horas passou voando: banheiro, comprinhas e achar o portão. O avião saiu às 7:00 e depois do Brasil faria escala em Buenos Aires. Na sala de embarque, deu para apreciar um pouco da cidade pelas janelas. Tentei tirar um leve cochilo mas um brasileiro alto, barbudo e extrovertido conversava alto com os argentinos em um castelhano estridente e cantarolava: Brasil... Brasil.... No avião fui sentada ao lado de uma moça brasileira que esteve em Malta e na Turquia, embora tenhamos conversado bastante e a comida tenha sido ótima,  o voo foi longo e cansativo.
Cheguei em Guarulhos às 17:00hs. A fila da imigração parecia quilométrica mas chegou rápido. Passei pela alfândega e tiveram que abrir minha mala só por causa da bagunça suspeita. Enquanto o rapaz que tinha que receber os pacotes me ligou avisando que já chegou. Depois de uma procura cansativa encontrei o rapaz e entreguei os pacotes depois fui procurar Afsaneh. Pegamos o ônibus Airport Bus Service até a Barra Funda, deixei Afsaneh no taxi que a levaria até o hostel perto do Metro Belém que ela já conhecia da viagem anterior. Extremamente cansada peguei o trem para Itapevi, minha cidade. Cheguei em casa às 23h00 com a mala quebrada, extremamente cansada e sonolenta. Mas tudo valeu a pena, são momentos que não me esquecerei jamais. 
Para quem esteve por 21 dias percorrendo 10 cidades e morando em tantas casas diferentes com tantas pessoas especiais, o Irã deixou um gostinho de quero mais. Tive a sensação de aterrissar no Brasil com um pedaço do Irã grudado em mim. Conclusão: O IRÃ É MINHA SEGUNDA CASA, LÁ ENCONTREI CASA, FAMÍLIA, AMOR E PAZ! 
Para recordar um pouco mais do momento do meu retorno ao Brasil veja também o post: Voltando do Irã: As lições aprendidas durante a viagem. 

Finalmente, obrigada a todos os amigos do Brasil e do Irã  que me deram todo tipo de apoio nesta aventura e a todos que tiveram a paciência e o carinho de acompanhar os relatos da minha viagem!  


Viagem ao Irã: De Karaj à Teerã

Torre Azadi, Teerã
Salam amigos da Pérsia! Em primeiro lugar quero pedir desculpas pela demora em atualizar o blog neste período exaustivo de final de ano. Mas finalmente no post de hoje  vou narrar o episódio da minha saga rumo à capital do Irã!
Dia 10/09/13: Minha primeira manhã na casa de minha família em Karaj. Afsaneh me acordou às 7:00, porque o dia ia ser longo. Afinal a hora de voltar para casa estava chegando e eu ainda não havia visitado Teerã. Após o desjejum matinal saímos de casa sob a manhã ensolarada. Pegamos um taxi e uma lotação até a estação de trem de Karaj. Seria minha primeira viagem de trem no Irã! Como era um dia de semana, a estação estava lotada e sem a ajuda de Afsaneh eu não conseguiria nem sair do lugar. Os bilhetes de duas viagens custam em torno de 550 tomans (algo como 50 centavos) uma bagatela que me impressionou em comparação com o valor do nosso transporte público. Os trens me surpreenderam, eram modernos, os vagões tinham dois andares e os das extremidades eram reservados só para mulheres. Eu e Afsaneh obviamente entramos em um desses no andar de cima. As cadeiras são dividas em duas fileiras de três. Ao nosso lado estavam uma mãe com sua filhinha ruiva e uma moça carregada de livros em francês. As pessoas olhavam com simpatia quando eu e Afsaneh conversávamos em "portunhol", mas não faziam tantas perguntas. Senti que ali o efeito khareji era menor. Pela janela de um trem, a paisagem iraniana não me pareceu tão diferente da região metropolitana de São Paulo  a não ser pela cadeia de montanhas áridas e acinzentadas no horizonte.
Estação de trem em Karaj (Imagem: NORINCO International)
Nos vagões, embora seja proibido, as mulheres vendem de tudo. Roupas íntimas, doces, salgadinhos, maquilagem, bugigangas made in china e bijuterias que lembram aquelas dos camelôs da Rua 25 de Março. Elas empurram sem dó. É tudo tão barato que as meninas se debruçam como loucas para ver as mercadorias que as vendedoras como num passe de mágica puxam de dentro de suas bolsas ou debaixo de seus chadores. Havia uma senhora  vendendo um pão, que Afsaneh queria muito que eu provasse. Como eu só tinha notas grandes na minha bolsa, aconteceu algo incrível. Todas as moças que estavam sentadas do nosso lado começaram a juntar os trocados para que eu provasse aquele pão! Porém no instante que a senhora ia me entregar o pão, o trem chegou na estação, a porta abriu e ela desesperada quase vai embora e nos deixa sem o pão. Sorte que Afsaneh correu atrás dela e conseguiu alcançá-la antes que saísse do vagão! O pão era mesmo macio e delicioso com uma cobertura adocicada de ovos e serviu para matar a nossa fome ao longo do trajeto de uma hora entre Karaj e Teerã.
Chegando em Teerã fizemos a baldeação para o  metrô. Não é tão diferente do nosso. As linhas tem a mesmas cores e as pessoas tem as mesmas caras cansadas também. Dentro do vagão algumas moças deixam o véu cair livremente mostrando seus cabelos sempre bem cuidados, volumosos e estilosos com franjas grandes e mechas em várias tonalidades diferentes. Ali também deparamos com a mesma cena das moças vendendo de tudo. Enquanto as meninas experimentavam diferentes tonalidades de lápis de olho, Afsaneh aproveitou para fotografar disfarçadamente um pequeno flagrante dessa cena para mim.

Eu no metro de Teerã...
As moças experimentam os produtos das vendedoras ambulantes..
Finalmente desembarcamos na estação Azadi. Do lado de fora o calor era implacável, o clima seco e a poluição extrema não nos deixa ver as montanhas ao fundo. Pude ver a silhueta da Torre Milad ao longe encoberta pela bruma. Antes do nosso passeio, Afsaneh foi resolver resolver uns assuntos burocráticos em um escritório onde era necessário entrar de chador e eu fiquei esperando  por ela em um ponto de ônibus vazio. Como os assentos de metal aquela altura se igualavam a chapas de fritar fiquei sentada em um murinho na sombra, olhando para a rua e fazendo anotações em meu caderninho.
Quando Afsaneh voltou fomos visitar o nosso primeiro destino, a maravilhosa Torre Azadi . Após atravessar a rua onde os carros passam a centímetros da gente sem atropelar, entramos na grande praça onde se localiza o principal marco da cidade de Teerã. Este monumento histórico foi erigido em 1971 em comemoração aos 2.500 anos do Império Persa, e antigamente era chamada de Torre Shahyad ("Memorial dos Reis"). Como ele se situa na praça que foi o palco da Revolução, em 1979 ela passou a se chamar Azadi ("Liberdade"). O jovem arquiteto bahai, Hossein Amanat que a projetou, foi escolhido em um concurso promovido pela rainha. A beleza singular da Torre Azadi com seus 45 metros de altura, resulta da combinação de elementos arquitetônicos do período Sassânida e da arquitetura islâmica. Seu exterior é inteiramente revestido de mármore branco de Isfahan, à noite ela é iluminada por um jogo de luzes que infelizmente eu não tive a oportunidade de ver. Quando passamos por baixo do arco entre as duas pernas da torre, vemos um belíssimo padrão geométrico que se transforma a cada mudança de ângulo. Dentro da torre há um museu que abriga exposições de arte contemporânea, pedras preciosas, instalações interativas moderníssimas, um teatro e um mirante de onde podemos contemplar um maravilhoso panorama de Teerã. Para acessar o alto da torre há um elevador e escadas onde podemos ver a estrutura interior da torre.

A Torre Milad ao fundo, encoberta pela poluição
Eis a Torre Azadi, o grande marco de Teerã!
Lateral da Torre Azadi
Vista  por baixo do arco
Interior da torre, no mirante
Vista panorâmica de Teerã
As ruas de Teerã são apinhadas de motocicletas, táxis e gente por toda a parte. A maioria dos motociclistas não usa capacete e como em outras cidades do Irã, costumam levar na garupa até 2 pessoas na mesma moto! Quando íamos atravessar uma rua eu encarava para eles com medo de ser atropelada, e alguns pensando que estavam sendo paquerados davam piscadinhas marotas para mim.
Em seguida pegamos mais um metro e chegamos na rua onde se localiza o Museu Nacional do Irã ao lado do famoso portão do Bagh-e Melli (Jardim Nacional). Na verdade, são dois o museus,  Museu Arqueológico e o Museu de Artes  (que se encontrava fechado para reformas). Neste caso, visitamos apenas o arqueológico, onde já foi de imensa valia conhecer os artefatos históricos desde cerâmicas da pré-história a esculturas do período Sassânida. A própria entrada do museu representa um arco abobadado tipicamente persa anterior à influencia islâmica. Todas as peças são originais minuciosamente restaurados. Na sala do período Aquemênida podemos ver algumas peças originais de Persépolis, como as figuras de animais guardiães o mural com figuras de soldados e até mesmo um pedaço de uma coluna na sua cor original de granito, fiquei perplexa ao ter que re-imaginar o sítio arqueológico que eu visitara semanas. 
Bagh-e Melli, Teerã
Museu Nacional de Teerã
Arco abobadado, na entrada do Museu Arqueológico
Escultura de touro original restaurada do período Sassânida
Cerâmicas pré-históricas do Irã
Um mural de Persépolis em sua cor original (granito negro)
Uma coluna  original de Persépolis (cortada) 
Depois dessas duas visitas interessantíssimas, paramos para o almoço em um restaurante tradicional. chamado Ayaran. Eu e Afsaneh pedimos o meu kebab favorito de frango, aquele que é servido com arroz e tomate assado. O restaurante tinha uma linda decoração que lembrava tendas nômades. A música ambiente ficava por conta de um telão onde assístiamos a um concerto de Mohammad Reza Shajarian.
Depois do delicioso almoço, fomos visitar o Museu do Cristal e da Cerâmica, que se localiza em uma línda mansão da era Qajar que no passado abrigava a Embaixada do Egito. O acervo é composto por peças como pratos, garrafas, instrumentos médicos. Um dos que mais me chamaram a atenção foram os vasos de lágrimas. Na saída encontramos Ahmad, um rapaz amável, amigo de Afsaneh que foi o motorista de um querido amigo nosso que esteve no Irã no ano passado. Mas com a crise econômica que o Irã enfrenta recentemente, Ahmad teve que vender o carro que usava para trabalhar.

Museu do Cristal e Cerâmica
Interior do Museu do Cristal e Cerâmica

Vasos e garrafas de vidro
Vasos de lágrimas
 Depois de nos despedirmos de Ahmad,  pegamos um outro taxi até o complexo palaciano de Golestan (que em persa significa "Jardim das Rosas") que foi a residência oficial da dinastia Qajar. Um dos pontos negativos é que atualmente ele parece engolido pelos feiosos edifícios contemporâneos construídos ao redor. Visitamos o terraço conhecido como Takht-e Marmar ("trono de mármore"), onde foram coroados reis de dinastias sucessivas. O próprio trono que ainda existe ali é uma obra de arte, esculpido em mármore de Yazd, sustentando por quatro fileiras de espetaculares estatuetas. Em seguida entramos em um outro terraço intitulado Khalvat Karim Khani que contem um trono menor e uma fonte de mármore, era o local onde o xá Nasser ol Din costumava relaxar e fumar seu geliun.

Palácio de Golestan
Fachadas decoradas com fabulosos azulejos
Takht-e Marmar ("Trono de Mármore")
Khalvat Karim Khani
Shams ol-Emareh
Por fim adentramos o Talar Salam, um salão real, no qual para entrar temos calçar uma espécie de pantufa de pano sobre os sapatos, para não estragar os preciosos mosaicos que revestem o piso e como de praxe proibido fotografar (já que não temos fotos, veja um tour virtual no final do post). Subimos as escadas e no salão superior cujo teto é revestido por espelhos e lustres que parecem joias vemos um acervo com os artigos finíssimos presenteados pelos embaixadores europeus ao Shah, pinturas do mestre Kamal ol Molk e o próprio trono dourado encrustado de jóias do imperador da Pérsia. Outros edifícios famosos que compõem o Palácio de Golestan requerem ingressos separados para visitar. Mas não posso deixar de lado um comentário sobre o Shams ol Emareh, um edifício de beleza estonteante totalmente decorado por azulejos coloridos no exterior. A altura deste palácio  reflete a influência do estilo arquitetônico europeu que começava a ser cobiçado pelo xá da Pérsia. Após a visita do palácio, antes de partir para a habitual loucura do Bazar  ficamos sentadas no jardim ouvindo a relaxante música tradicional persa e observando a cena corriqueira das pessoas que fazem piquenique embaixo das árvores.
Chegamos no Bazar por volta das 16:00. Devo ter dito que no Irã às lojas fecham no período da tarde após o almoço e voltam a abrir mais tarde. Para fazer compras no tumultuado ambiente dos bazares iranianos um turista tem que se preparar psicologicamente. Ao redor do Grande Bazar de Teerã encontramos pessoas que vendem  de tudo que se possa imaginar para sobreviver. Camisas, lenços, meias e carteiras  por menos de 1 dolar. Também não pude deixar de notar algumas mulheres com os trajes típicos do sul pedindo esmolas. O calor é tanto que algumas pessoas desmaiam no meio das calçadas, precisamos tomar um refresco de talebi para repor as energias.  O Bazar em si, pra mim já não era nenhuma novidade, depois de visitar outros similares em outras cidades. Temperos, doces, roupas, utensílios domésticos e artesanatos se embaralharam diante dos meus olhos. Como de costume comprei poucas coisas. Essa coisa de pechinchar me dá muita preguiça, mais uma vez se não fosse Afsaneh ao meu lado eu nem ousaria entrar no Bazar sozinha.
Para voltar para casa pegamos um taxi até o metro. Na hora do rush, Teerã é idêntica a São Paulo. As pessoas já fincam o pé na porta para conseguirem assentos. Mas diferente daqui algumas pessoas vão tranquilamente sentadas no chão ocupando todo o corredor. Esperamos por um outro trem que dessa vez ia sem parada até Karaj. Só me vi sendo jogada para dentro do vagão espremida pela multidão de mulheres de véu. Mas por sorte eu e Afsaneh conseguimos nos sentar e engamos a fome com uma espécie de pipoca colorida.
À noitinha, já em casa nunca vi tantas pessoas reunidas. Todos os parentes de Afsaneh vieram nos visitar. O jantar foi servido numa  sofreh  que ocupava a sala inteira. Os homens tocavam violão e tonbak e se divertiam cantando. Estavam presentes Ashraf e Nader e os filhos. Os meninos Alireza e Mohammad Amin também vieram com seus pais e não me deixavam só nenhum minuto. Mostravam seus tablets com fotos, videos e desenhos, enquanto eu tentava contatar outras pessoas pelo skype no notebook do quarto. 
Enquanto comíamos uma deliciosa sopa de leite com a habitual porção generosa de frutas na sofreh, um dos meus amigos de Teerã, chamado Amin me ligou pedindo desculpas por não poder me encontrar (estava com problemas familiares). Uma pena, eu não conseguir passar mais tempo no Irã. Infelizmente tive que ir embora sem conhecer todos os meus amigos. Apesar de não falar o mesmo idioma, me sinto quase um membro dessa família de Karaj... Esta viagem  está quase chegando ao fim, no próximo post vou narrar meu último dia no Irã, segura o chororô. Be omide didar!

>>Que tal um pequeno passeio virtual pelo magnífico Talar e Salam?


Viagem ao Irã: Tinuj, um vilarejo nas imediações de Qom

O Vilarejo de Tinuj
Salam amigos! No post de hoje vou narrar minha visita ao remoto vilarejo de Tinuj e minha despedida de Qom:
Dia 09/09/13: Acordei bem cedo, e me preparei para conhecer Tinuj, o vilarejo do pai de Malihe. Antes de sair não tomamos café, mas Malihe levou em uma super mochila com o nosso café da manhã e até uma panela com o nosso almoço. Para chegar a Tinuj que fica a cerca de 30 minutos de Qom, mais próximo da cidade de Tafresh, pegamos dois táxis. O vilarejo fica entre montanhas em uma clareira verdejante. As ruas são quase completamente de terra, as árvores margeiam as ruas e nos protegem do sol, encontramos também antigas casas de barro em ruínas em meio a casas modernas de muros altos. As ruas são completamente vazias, o local tem um pouco mais de 200 habitantes e literalmente senti que o relógio era algo desnecessário ali. A primeira coisa que fizemos foi tomar café na casa dos pais de Malihe, que ficava em uma viela que tinha o nome de um shahid que era membro de sua família. Ao lado da viela  há um cemitério onde estão enterrados os avós de Malihe e seu parente shahid. Ela lava cuidadosamente o túmulo deles com água e dá uma batidinha como uma espécie de diálogo ou saudação com o falecido, o que é um costume dos xiitas. O portão externo estava aberto, porém ela esqueceu a chave e nós ficamos sentadas no jardim da casa comendo pão com queijo, pepino e tomates.  Nesse vilarejo há várias crianças afegãs que brincam com gravetos de madeira fazendo arminhas, uma cena que me lembrou o filme E Buda desabou de vergonha... Eles se aproximam de nós, disparando seus "tiros", mas Malihe pacientemente disse algo que fez eles se afastarem. A maioria dessas crianças nasceram no Irã e seus pais imigraram fugindo da guerra e em busca de uma vida melhor no país vizinho. A maioria dos adultos afegãos trabalha como jardineiros em propriedades mais abastadas.
Crianças afegãs brincam nas ruas de Tinuj
Felizmente nem todas brincam de guerra...
Um pastor e seu rebanho
Os animais assustados com o barulho de um carro
Tinuj é um desses lugares que quando passam carros dá vontade de vaiar, primeiro porque eles levantam uma poeira infernal e segundo porque perturbam a sensação de estarmos em um vilarejo remoto. Quando um carro passou, vimos um rebanho de cabras e carneiros conduzidos por um pastor idoso pularem assustados para todos os lados.
Chegamos ao caravançarai que outrora serviu como uma acolhedora hospedaria aos viajantes e hoje se encontra totalmente dominado por entulhos de lixo e excrementos de animais. Era preciso ter cuidado para não pisar (argh!). Mas fora esse cenário desagradável, ainda era muito interessante. Subimos ao topo da estrutura onde vemos o panorama de Tinuj com seus telhados todos da mesma cor ocre e suas casas que não ultrapassam os dois andares. As pedras usadas para construir o caravançarai são grandes blocos quadrados de barro. Malihe me contou que uma parenta sua ama tanto o seu vilarejo que foi morar nos EUA e levou um desses blocos pesadíssimos na mala. Como eu não seria capaz de chegar a tamanha proeza, me contentei em recolher apenas  um pequeno fragmento desse tijolos. Pensei: uma pedrinha de 500 anos na minha casa!
Malihe no caravançarai de Tinuj
Panorama de Tinuj no alto do caravançarai
Uma foto com a lindinha Zahra
Ao sairmos do caravançarai havia uma menininha chamando o coleguinha para brincar de bola. Ela ficou nos observando com curiosidade e perguntou de onde eu era. Depois Malihe explicou a menina que eu era uma turista e pediu para que ela tirasse foto comigo. Seu nome é Zahra, ela mora em Teerã, mas passa alguns dias do verão no vilarejo com sua família que cuida da mesquita local. Ela mesma abriu a porta da pequena mesquita que fica em um pequeno galpãozinho, tão modesto e singelo quanto tudo mais naquele lugar. Depois  a pequena Zahra nos arrumou uma garrafa de água e se despediu de nós com seu sorriso angelical. Continuamos nossa caminhada por esse mundo longínquo sob um sol que se tornava mais e mais inclemente. Malihe me emprestou seu boné porque eu sentia meus olhos arderem. E ela a essa altura havia removido seu chador. Passamos pela ponte Tinuj com seu arcos graciosos, dos áureos tempos da arquitetura persa mas cujo rio que passa por baixo dela encontrava-se completamente seco. Me  senti especial visitando Tinuj, tenho a mais absoluta certeza de que sou a primeira brasileira a desbravar aquele cenário tão longínquo que nem as buscas do Google encontram facilmente. Eu cheguei até mesmo a abraçar uma árvore de tronco retorcido que parecia estar ali só para me dar as boas vindas!
A ponte de Tinuj e o rio? Seco!
Neste remoto vilarejo vivem pouco mais de 200 habitantes
Algumas casas de 200 anos 
Vielas e jardins do vilarejo
Na hora do almoço, fomos a casa da tia de Malihe, a quem ela chamava de zan amu, uma mulher idosa e serena que mora com seu filho adolescente. Nessa hora eu me dei conta de fato que estava em um território longínquo. A casa era uma das mais tradicionais que eu já pus os pés, daquelas desnudas de móveis. Apenas tapetes no chão. Só o fato de haver ali uma televisão e eletrodomésticos na cozinha me davam pistas que eu realmente estava no séc. XXI. Depois de esquentar a comida, fomos comer no jardim da casa de Malihe, ouvindo música pop no celular dela. Enquanto comíamos um gato pulou o muro e ficou nos observando. Atiramos alguns dos nossos macarrõezinhos para ele, que fugiu assustado, mas logo voltou para devorá-los e logo veio um segundo bichano se juntar a ele. Eu e Malihe ficamos simplesmente conversando por uma hora. Descobri que aquela garota de Qom tinha muito mais em comum comigo do que eu imaginava. Ela mora em uma das cidades mais religiosas do Irã, mas seu espírito é livre, seu sorriso contagiante e ela adora andar sempre cantarolando. Subimos no terraço da casa onde havia uma árvore de gerdu, um típo de noz que ela insistia que eu deveria provar. A essa altura vocês já devem saber que há coisas que os iranianos adoram, mas não agradam ao meu paladar. Essas nozes para mim não tinham gosto de nada, mas Malihe pegava as que estavam caídas em qualquer canto, pisava em cima para quebrar a casca e saboreava o  miolo branquinho.
O gato persa que veio compartilhar nosso almoço...
Fizemos mais uns minutos de caminhada, até os jardins da família dela que estavam completamente secos e com árvores peladas no verão. E finalmente ela me mostrou uma grande casa em construção que futuramente pertenceria somente a ela, para onde ia se mudar em breve. Ela já estava animada para que eu voltasse ao Irã e visse a casa pronta com seu jardim cheio de flores! Por volta das 14hs pegamos um táxi de volta para Qom, fomos na companhia de um lindo menininho afegão com sua mãe. Todas as crianças afegãs que eu vi em Tinuj tinham traços da etnia hazara, aqueles que parecem chinesinhos. 
Voltamos para a casa de Malihe onde a "família toda" estava ansiosa para me ver. Suas duas irmãs mais velhas que são casadas e o sobrinho, o lindinho Sina de 10 anos.  O garoto veio me recepcionar com um adorável: Salam khanum! que derreteu meu coração... depois ele fez uma demonstração do seu talento nas artes marciais com seu traje de tae-kwodo, mostrando todo orgulhoso que ele é campeão na sua cidade. Sina pediu para eu fazer um desenho para ele e até ficou paradinho fazendo pose para mim. Fiz um bem simples que representava ele, mas o garoto ficou tão feliz que disse que ia pendurar na parede de seu quarto. Minutos antes de eu me despedir da família estávamos todas na sala dançando quando Mehdi me ligou dizendo que já estava a minha espera. Com certeza Malihe e sua família também me deixaram lembranças muitos especiais e saudades boas!
Mehdi veio me buscar em seu carro, todo arrumadinho e perfumado. Me deu de presente um exemplar do livro escrito por ele cuja capa eu ilustrei há uns 2 anos atrás. Isso mesmo, há uma livro de inglês no Irã cujo título é Read More que a capa foi desenhada por mim! Antes da minha partida tiramos algumas fotos perto da  praça 72 Tan  para recordar o momento.
Despedida de Qom, foto perto da Praça 72 Tan
Meu próximo destino ia ser Teerã, mas acabou mudando para Karaj onde eu finalmente ia reencontrar minha amiga Afsaneh. Entrei em um onibus para Karaj que já estava quase de saída em última hora, porque eu não havia comprado os bilhetes. Me indicaram um assento ao lado de uma moça cujo marido tinha passado para o de trás a fim de garantir que eu seguisse a regra de me sentar ao lado de uma mulher. Em seguida Mehdi subiu no ônibus para se despedir de mim. Eu queria dar um grande abraço nele e agradecer de verdade por tudo, mas dentro do ônibus cheio de mulheres de chador e mulás de turbante isso jamais seria possível. Trocamos breves palavras de agradecimento e por volta das 17:30 o ônibus partiu.
À caminho de Karaj (Foto: Milad Mosapoor)
Durante o caminho Afsaneh me ligava perguntando se eu já estava chegando mas eu nunca sabia o certo. Ela dizia estar aguardando perto de uma ponte, mas a cada ponte que passava eu achava que já estava chegando, então ela pediu para eu passar o celular para o motorista que ia me indicar a parada certa. Karaj é uma cidade cercada de montanhas, muito parecida com a parte de Teerã que eu havia visto.  Cheguei em meu destino à noitinha e lá estava a minha amiga iraniana que visitou o Brasil no ano passado, feliz por finalmente nos reencontrarmos em seu país. Fomos de táxi até a casa dela que ficava em uma rua bem movimentada. A casa era muito bonita e espaçosa, e assim como a casa de sua irmã Ashraf em Teerã, tinha um pouco mais do conforto ocidentalizado na sala e nos banheiros. Os pais de Afsaneh me receberam como se eu fosse uma filha e suas irmãs também são muito carinhosas. O pequeno Mehrshad seu sobrinho é uma criança bagunceira, mas também esperto e encantador. Ele veio me trazer a sacolinha onde estava o meu cabo USB esquecido em Talesh e ao ver o papel de parede do meu celular que eram duas florzinhas com carinhas sorridentes ele gritou: Khorshid khanum!!! (que é um personagem do folclore persa).
Assim foi a minha primeira noite em Karaj, com todas as delícias de ser hóspede de uma família tão querida novamente. Uma pena que esse sonho já estava quase no final...
No próximo post vou contar como foi minha visita super cultural a Teerã e mais reencontros! Até a próxima e khoda hafez


Viagem ao Irã: Bate e volta de Qom à Kashan

Bagh-e Fin, Kashan
Salam amigos! Hoje vou narrar o dia em que fiz uma rápida visita a Kashan e à noite em Qom, o maior centro de ensino religioso do Irã.
Dia 08/09/13: Acordei depois das 9:00, meu amigo Mehdi mandou uma mensagem dizendo que estaria tarde para me levar a Kashan porque o sol era escaldante. Fiquei muito aborrecida mas continuei a insistir. Eu queria tanto ir a Kashan, e já passei tanto calor nas outras cidades que para mim, não havia desculpa para não ir.  Ele respondeu: "Ok, a escolha é sua!"  Malihe não poderia ir conosco, porque trabalha em uma escola para meninas que fica na mesma rua de sua casa. Fui com ela até a escola, e enquanto esperava por Mehdi, fiquei assistindo a aulinha de reforço de matemática com as menininhas em uma sala de primeira série. A não ser por Malihe e as demais funcionárias usarem o chador e por só haver menininhas de hijab, o ambiente era igual a qualquer escola primária do mundo. A professora Malihe me apresentou para as crianças que me deram um tímido salam, com carinhas bem curiosas. Na noite anterior ela havia me mostrado fotos onde as meninas ficavam sem o véu na sala, segundo ela "somente em sua aula". Finalmente Mehdi me ligou dizendo que já estava à minha espera do lado de fora, e Malihe pediu licença para a diretora e me acompanhou até o carro dele.
A estrada para Kashan era totalmente desértica e para piorar, o ar condicionado do carro não estava funcionando muito bem. Mas eu não reclamei, afinal foi ideia minha de enfrentar aquele calorão e tudo valeria a pena se eu pudesse incluir uma cidade a mais em meu roteiro. Quando chegamos em Kashan sentíamos o suor encharcando nossas roupas... Mehdi levou uma garrafa de água completamente congelada que durante o trajeto se tornou líquida. Kashan é uma típica cidade oásis do Irã central com a contrastante e paisagem poeirenta pontilhada de árvores deslumbrantes, me lembrava bastante Yazd.

Chegando em Kashan
A fonte que refresca o  Bagh-e Fin
Os ciprestes de 500 anos
Cerâmicas pré-históricas de Tepe Sialk
Cerâmicas do período islâmico (um retrato de Omar Khayyam)
Esculturas de cera no hamam de Amir Kabir
Azulejos e o esplendor  da arquitetura persa
Nossa primeira parada  foi no Bagh-e Fin, um dos jardins mais belos do país embelezado por ciprestes de 5 séculos e belas mansões que combinam estilos arquitetônicos de várias épocas. Este era um dos locais preferidos dos reis Safávidas, que desfrutavam as delícias dos jardins paraísos persas no verão. Uma fonte que percorre todo o jardim, funciona sem a necessidade bombas graças a grande pressão da água que desce por uma ladeira de 3km.  Dentro do jardim visitamos um museu com artefatos históricos dos quais os mais marcantes são os utensílios pré-históricos do sítio arqueológico de Tepe Sialk e objetos do início do período islâmico aos tempos modernos. Neste jardim também foi onde Amir Kabir, chanceler do rei Nasser al-Din Shah Qajar, foi assassinado em 1852. A cena é relembrada por meio de estátuas de cera no edifício onde ficava o hamam (sala de banho). 
Depois visitamos duas mansões históricas de Kashan, chamadas Abbasian e Tabatabaei construídas durante a era Qajar. A mansão Abbasian é bem suntuosa com três andares e há algumas escadas que simplesmente não chegam a lugar nenhum, devem ser passagens secretas construídas com a finalidade de enganar os ladrões. A casa Tabatabaei por sua vez tem dois andares e um amplo pátio. As  paredes são adornadas com magníficos relevos, pinturas, espelhos e vitrais coloridos. Essas duas casas são exemplos completos da arquitetura persa tradicional e para descrever melhor os seus detalhes, vale um outro post.

Mansão Abbasian (pátio)
Salão de verão
Esta ave escolheu um  belo lugar para  fazer seu ninho...
Mansão Tabatabaei (pátio)
Uma deliciosa sala de chá 
Segundo piso com vista para o pátio
Os relevos magníficos!
O único souvenir que comprei em Kashan foi um pequeno colar decorativo em argila. Mehdi adorava me fotografar, talvez por ser a primeira vez que viu uma brasileira no Irã. Ele queria me mostrar outros lugares históricos porém o calor me deixou muito cansada e preferi voltar para casa e descansar. No caminho ele me ofereceu um samanu congelado desde o Nowruz passado (6 meses)! Pensem em um pudim mais doce do que todos os doces que você já provou na vida! Só aguentei comer umas 4 colheradas...
No carro fora da cidade eu tiro o hijab por causa do calor, e Mehdi  fica impressionado com o meu cabelo curto. Mas ao entrar na cidade ele me avisa para colocar o véu imediatamente. Em Qom 99% das mulheres usam o chador. Eu juro que não reparei nas olhadelas que os homens davam para mim até Mehdi me falar. De fato os motoristas buzinavam e os ciclistas viravam o pescoço, como se eu estivesse usando o que eles consideram mais ousado! Isso porque eu estava usando meu  manteau azul-escuro mais folgado e o shal branco... Mas da próxima vez aprendo a lição e descolo um chador emprestado, mas aguentar o calor vai ser outra história, arf... Outra coisa que me incomodou um pouco mas respeitei foi o fato de ele se recusar a me apresentar para a família dele que era "muito tradicional". Porém ele já havia me ajudado tanto me apresentando seus amigos e alunas...

Voltando para Qom 
Perguntei a ele porque falam tão mal de Qom no Irã. Ele disse que porque foi ali que se iniciou a Revolução, e porque é a cidade do ayatollah Khomeini. Comecei a recordar algumas das coisas negativas que meus amigos  de Talesh disseram sobre Qom: "Cidade perigosa, cheia de mulás... Nós não gostamos de mulás..." Aí eu perguntei: "Vocês já estiveram lá?" Eles responderam: "Não, mas já ouvimos isso de outros... "Então esse foi um dos motivos pelo qual decidi ir ver Qom com meus próprios olhos...
Á tarde quando voltei a casa de Malihe almocei e dormi no sofá da sala a tarde inteira. O calor de Qom estava realmente fora das minhas expectativas e me deixava muito preguiçosa... 
Á noite saí junto com Malihe, sua mãe e sua irmã Saba.  Qom à noite é bem mais fresca. Nas ruas vemos muitos árabes e akhonds (como são chamados os jovens aspirantes a mulás no Irã) Porém vi menos mulás do que eu esperava. Fomos ao haram de Fatima Masumeh,  o segundo santuário mais importante do Irã (o primeiro eu já visitei em Mashhad). Já de longe sua deslumbrante cúpula dourada iluminada com luzes festivas é de encher os olhos. Para entrar é muito mais relax do que no Imam Reza, não passamos por nenhuma revista e é permitido entrar com a câmera e tirar fotos exceto dentro da mesquita. Só teve uma funcionária que me cutucou com uma espécie de espanador de plumas porque meu cabelo aparecia um pouco. Mas Malihe me ajudou a arrumar o maghnee e chador que ela me emprestou e tudo ficou certo. Por dentro o pátio é ricamente adornado com mosaicos, meus olhos se enchiam de beleza a cada ângulo que eu olhava. Assim como em Mashhad, as crianças também brincam enquanto seus pais rezam, é uma cena que me transmite muita paz de espírito.
 Malihe me contou que os mulás são cercados de histórias. Dizem que eles se casam com 4 mulheres e adoram fazer propostas de casamentos a meninas jovens. Geralmente eles são ricos e todas as meninas de Qom já tiveram um mulá como khastegari (pretendente) inclusive ela! Porém o pai dela odeia os mulás e disse um categórico não! Isso mesmo, no Irã se o pai diz que não aceita um pretendente para sua filha, nem um religioso pode dizer o contrário!
O santuário de  Fatima Masumeh à noite
Zoom  da cúpula dourada
De volta ao chador 
Deslumbrada com os mosaicos *-*
Qom é uma cidade iluminada!
Malihe nunca larga o celular, mesmo andando na rua ela está falando com alguns de seus amigos. É fantástico ver aquela garota sorridente e comunicativa de calça jeans e tênis por baixo do chador... 
Finalmente visitamos o bazar histórico de Qom, que como todo o bazar tem basicamente as mesmas coisas, mas aquele como tudo em Qom também é cheio de histórias... Um outro amigo me contou que Qom era uma das cidades mais pobres e com alto indice de criminalidade do Irã, seu antigo bazar só vendia alcool e depois da Revolução todas as garrafas de bebidas alcoólicas foram jogadas fora e um dos ayatollahs pagou toda a indenização e assim o bazar recomeçou de forma islamicamente correta. 
Durante aquela noite que caminhei com Malihe em Qom tentei permanecer com o chador. Mas mesmo assim as pessoas me olhavam com curiosidade, talvez pelo meu ar desengonçado saboreando um picolé de chocolate e arrumando o traje toda hora. Nem o chador esconde o efeito khareji... Assim como em outras cidades do Irã, caminhar em Qom tarde da noite é extremamente seguro. Minha conclusão: Qom não é a cidade perigosa que me diziam, mas uma cidade iluminada em todos os sentidos!  
No próximo post vou narrar minha visita a um vilarejo chamado Tinuj, um lugar onde eu devo ter sido a primeira brasileira a visitar. Até a próxima e khoda hafez!