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Uma mulher em busca da serenidade: a história de Fatima

Climbing Rock, 2011,  fotografia de Soodi Sharifi
No mundo de hoje, cada vez mais pessoas estão buscando serenidade e paz espiritual através das práticas   da yoga e meditação transcendental  que se baseiam em princípios da religião hindu e zen budista. No entanto, em alguns países como o Irã, a prática é considerada  subversiva, porque na visão dos clérigos vai contra os ideais islâmicos  e consequentemente escolas de meditação são fechadas e seus organizadores são presos. Apesar das restrições, algumas pessoas tem aderido a prática clandestinamente em busca de uma forma alternativa de superarem suas mazelas psíquicas. Achei oportuno compartilhar aqui a história de Fatima, uma mulher cujo exemplo de vida nos mostra uma faceta da realidade do povo iraniano que em meio às dificuldades do cotidiano não desiste de lutar por um futuro melhor para si mesma e sua família. 

De pernas cruzadas, olhos fechados, e energia fluindo livremente 16 participantes participam de uma aula de meditação realizada em Teerã no humilde bairro de Hassan Imamzadeh. O programa, que se estende por oito estágios de nove aulas cada, promete iluminação tanto física quanto mental. As aulas são realizadas clandestinamente nas casas dos participantes que se revezam para fugir da atenção das autoridades. 
Fatima é uma das participantes da aula de meditação. Ela leva uma vida difícil, e a meditação proporciona equilíbrio. Ela nasceu há 53 anos perto de Ardabil. Sua voz doce mistura os sotaques turco e Tehrani. Ela se casou aos 13 anos de idade.

"Meu primeiro marido era 15 anos mais velho que eu. Eu não tinha como decidir nada porque meus pais predeterminaram tudo conforme mandava a tradição. Morávamos na casa dos pais dele com suas duas irmãs e um irmão. Em vez de sua noiva, eu era a cozinheira da família  e obedecia a todos.
"Os três primeiros três anos foram de luta. Descobri que ele contrabandeava drogas, e embora eu tivesse medo de falar,  por motivos religiosos não me calei. Por isso, ele me batia e me tratava como uma criança, e esperava que eu continuasse a  obedecer e a e aceitar essa fonte de renda imoral para a família. Ele ainda desenvolveu um vício no mesmo ano que eu estava grávida da nossa primeira filha. "
Após o nascimento de sua filha, o conflito entre o Fatima, seu marido e sua família se intensificou. Então ela resolveu deixar ele e a filha. "Voltei para a casa dos meus pais envergonhada", diz ela. A família de Fatima cultivava um pedaço de terra em um vilarejo pobre perto Ardabil. Ela descreve suas condições de vida terríveis, com uma dieta restrita a pão, queijo e batatas.
Depois de trabalhar algumas semanas, seu pai arranjou um segundo casamento com um homem de 55 anos de idade, que durou três meses. "Eu acho que ele se sentia mal comigo, porque ele era mais velho do que o meu pai, e seus filhos eram mais velhos do que eu. Então peguei  as duas pulseiras de ouro e um anel que me foram dadas, vendi, e me mudei para Teerã ".
Na capital, ela ficou com seu irmão antes de se mudar para a casa de um outro irmão em Isfahan. Quando as coisas lá já não davam mais certo, ela retornou a Teerã para morar com um tio. Sua prima se matriculou em uma escola de cabeleireiro, e Fátima vendeu uma das pulseiras de ouro para se juntar a ela. "Eu trabalhei em um salão de cabeleireiro por seis meses. Queria ganhar dinheiro para visitar a minha filha", diz ela.
"A Guerra Irã-Iraque mudou todos os meus planos. Teerã foi bombardeada, e todos nós voltamos para nossas aldeias. Meu primo voltou ferido da guerra. Ele  precisava de alguém para cuidar dele como uma enfermeira, e minha família insistiu para que eu me casasse com ele. "
Os recém-casados ​​se mudaram para um apartamento em Teerã, onde Fátima cuidava de seu marido. "Eu saí do salão de cabeleireiro, e não vivíamos nada bem", diz ela. Aos poucos a saúde dele melhorou e Fatima, depois de dar à luz  a um filho com a idade de 29, voltou ao trabalho. Aos 32 anos, ela teve, sua segunda filha.
O marido de Fátima, eventualmente, voltou a trabalhar, mas a sua vida não havia melhorado tanto. Ela trabalhava para seu próprio sustento. "Eu procurei a proteção de Deus. Queria que Deus soubesse das minhas lutas, e nunca me deixasse", diz ela. Seu marido se tornou um viciado em drogas e gastava todo o dinheiro com seu vício. Enquanto ela passou a depender de antidepressivos. Ela trabalhou em um segundo emprego num restaurante, ganhando 9.000 tomans por mês, até que segundo ela, os proprietários forjaram razões para demiti-la.
Estes acontecimentos pesavam sobre seus filhos. Sua filha se tornou extremamente religiosa, vestindo um chador preto e freqüentando as aulas de Alcorão; aos 16 anos, sem sucesso ela tentou o suicídio três vezes. Seu filho abandonou a faculdade. Todos culpavam o pai. "Por um lado, eu o odiava, mas por outro lado, eu sentia pena dele", diz Fátima.
Ela finalmente convenceu o marido a entrar em um programa de desintoxicação. Depois de ficar sóbrio, ele começou a freqüentar aulas de meditação e gostou tanto que começou a levar seus filhos juntos com ele. "As aulas de meditação nos ajudaram a encontrar a nós mesmos. Parei de tomar antidepressivos, a tranquilidade entrou em nossas vidas e nós sentimos  que as coisas estavam cada vez melhor", diz Fátima.
Ela diz que a depressão da filha foi superada, o filho voltou para a faculdade, e seu marido se tornou uma figura positiva. "Eles acordaram  do sono de um inverno frio", como Fátima descreve. No entanto, após sete meses de sobriedade, seu marido teve uma recaída.

Fátima abre os olhos, abaixa os braços, se ajoelha, e fixa o olhar para o instrutor. Ela sorri para dois de seus colegas de classe: sua filha de 21 anos  e  seu filho de 24. Antes do final da aula, o instrutor faz perguntas. Fátima pergunta: "Como podemos distinguir uma injustiça?"

Baseado em história publicada no  Tehran Bureau


4 comentários

  1. Salam, Jana Jan!

    Super interessante o texto e relato das pessoas, que sofrem por professarem suas crenças, dogmas, fés...
    Por falar em fé, já postei as fotos da Caminhada religiosa em Copacabana, que foi um exemplo para o mundo: podemos sim caminhar juntos com nossa fé.
    Dê um pulinho lá quando você puder,
    Um abraço bem apertado!
    Bauce:)

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    1. Salam Denise jan! Fico muito feliz que tenha gostado da história, eu sempre me emociono com as lutas desse povo tão querido que enfrenta tantas dificuldades mas mantém a dignidade e a poesia na alma...
      Admiro também essas iniciativas em promover a tolerância e o respeito a diversidade de crenças! Já to indo lá ver no Salamaleques...
      Super bause!

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  2. Olá Denise e jana!
    Que história forte... consigo vislumbrar o cotidiano feminino no Irã através dela!
    fico grata por compartilhar, e quando tiver mais, adorarei.
    Um beijo do leste paulista,
    Cri *__*

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    1. Olá querida Cri, essa história me comoveu e me inspirou também... adoro também conhecer essas artérias do cotidiano das pessoas simples do Irã.
      Um beijo carinhoso deste cantinho da Pérsia!

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