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"Pulso Iraniano" em SP: passeando pela arte contemporânea do Irã

Quem não torce o nariz para exposições de arte contemporânea que atire a 1ª pedra! Então, arte contemporânea do Irã, nem se fala! Você já deve até ter se perguntado, será que existem mesmo artistas malucos contemporâneos naquele país e se existe, que tipo de coisas eles produzem?
Neste sábado estive visitando a exposição Pulso Iraniano no SESC Vila Mariana. Como eu também, por formação sou uma artista visual, isso me faz a pessoa mais suspeita do mundo para falar em exposições de artes, mas gostaria de convidá-los a refletir um pouco sobre o meu ponto de vista e quem sabe você também não vai querer ir lá conhecer o que o curador francês Marc Pottier trouxe desses 24 artistas persas para nós em termos de fotografia e video-arte direto do Irã ou de outros países onde vivem.
Em primeiro lugar, para facilitar a leitura, a exposição é dividida em 5 eixos temáticos, os quais não têm uma fronteira definida nem uma ordem certa para se seguir: a poesia, o espírito da celebração, a mulher, a guerra e as tradições.
Para não estragar a surpresa, vou destacar apenas algumas das obras que mais me chamaram a atenção:

Shadi Ghadirian, da série CTRL+ALT+DEL (2006)
Gohar Dashti, da série Today's Life and War (2008)
As mulheres artistas  surpreendem  por seu senso de humor irônico e delicadeza de estilo.  Os trabalhos de Shadi Ghadirian, Rana Javadi e Ghazel que aliam  fotografia e video- performance descrevem bem essa nova geração de artistas que está atualizada com a tecnologia ao mesmo tempo em que expressam o sentimento de ser mulher e artista contemporânea sob o chador. A abordagem da guerra se revela de maneira poética nas fotografias de Gohar Dashti, que representam um casal vivendo normalmente o seu cotidiano em meio a um cenário de batalha.
E por falar em fotografia, um ilustre homenageado, o fotógrafo Bahman Jalali (1945-2010), ganhou uma sessão inteira dedicada a seus 40 anos de trabalho registrando a história do Irã, com destaque às cenas do desenvolvimento urbano da cidade de Teerã  na série Espaços Urbanos e suas fotomontagens híbridas com pinturas e caligrafias. A Série Imagem da Imaginação lembra a nostalgia das cartas onde as pessoas imaginavam as cenas a partir do que liam.

Bahman Jalali, da série Imagem da Imaginação
Bahman Jalai, da Série Espaços Urbanos
No miolo da exposição, alguns sons exóticos invadem nossos ouvidos. Uma percussão arabesca contagiante acompanha a projeção de imagens da obra Zurkhaneh de Zadoc Nava, que mostra as tradicionais academia de artes marciais dos persas (veja o vídeo abaixo). E em uma sala escura, assistimos em uma dupla projeção as divertidas cantigas eróticas de casais de velhinhos do Laos lembrando seus amores da juventude, na obra Jogos do Desejo, 2009 de Shirin Neshat. Essa obra mantém o caráter de dualidade masculino/feminino, ao mesmo tempo que se distancia da visão crítica contra a opressão feminina onipresentes em trabalhos anteriores da artista.
As celebrações religiosas dos xiitas como a Ashura que simboliza o martírio de Hussein, também ganham imagens diferentes daqueles rituais sangrentos que estamos acostumados a ver na TV através das fotografias de Sadegh Tirafkan.
Poesia é uma palavra que descreve a essência da alma iraniana. As citações poéticas estão até mesmo na fala cotidiana dos iranianos. Uma tradição que perpetua os antepassados e atravessa gerações: nas paredes da exposição temos desde um clássico Hafez até a poesia contemporânea de Forough Farrokhazad. A poesia épica do Shahnameh e a arte da miniatura persa ganham versões pitorescas com as colagens de Siamak Filizadeh
Jalal Sepehr da série Water and Persian Rugs (2004) 
O tapete persa,  é desapropriado de sua utilidade funcional e decorativa e é transportado para locais inusitados nas fotografias de Jalal Sepehr. 
 Uma grata surpresa é encontrar o filme Shirin de Abbas Kiarostami, onde os belos semblantes de várias gerações de atrizes se entrecruzam em uma sala de cinema, que tem sido a forma de arte mais reconhecida dos iranianos nos últimos tempos. E desta mesma escola vem também o seu filho Bahman Kiarostami com o excelente documentário Estátuas de Teerã (2008).
O espírito de celebrações, manifesta a alegria dos jovens iranianos que por mais fortes que sejam as repressões, sempre conseguem dar um jeitinho de se divertir em festas escondidas nos porões da sociedade como nos retratos semi-ocultos de Amirali Ghasemi
Junto à sala de leitura que fica no 1º andar, estão a projeção de Morteza Ahmadvand, e dez monitores onde é possível assistir a clipes musicais, animações e video-performances  que demonstram esse pulsar da nova geração de artistas contemporâneos do Irã.
Amirali Ghasemi da série Tehran Remixes
Shirin Aliabadi da série Hybrid Girls
E finalmente não poderíamos esquecer da série de fotografias de Shirin Aliabadi, que são um retrato do hibridismo contemporâneo traduzido no fenômeno das cirurgias estéticas e estilos de roupas e comportamentos adotados pelas jovens iranianas que querem a qualquer custo se encaixar nos ditames da moda ocidental.
Os únicos inconvenientes da exposição são para quem não sabe ler em inglês, as legendas dos vídeos não foram traduzidas! Mas para quem se interessa de fato pela cultura do Irã ou para quem quer mergulhar em uma visão criativa diferenciada da abordagem política, vale a pena mesmo vistar a exposição Pulso Iraniano.


5 comentários

  1. Ótima semana, jana!
    Gostei muito da imagem de "mulher moderna" da moça loira (tintura), lábios e picolé muito vermelhos, celular e tecido de poás, cobrindo uma pequena faixa dos cabelos.
    Tudo isto ilustra bem o que diz Samy Adghirni (na sua lista de blogs), onde ele traça um paralelo entre Irã e Afeganistão (vizinhos tão diferentes).
    Um abraço,
    Cri.

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    1. Olá Cri! Esse trabalho da Shirin Aliabadi realmente é incrível, uma pena que tenha ficado meio escondido lá na exposição. Cheguei a pensar que não veria essas fotos rsrs... Ilustra bem uma grande parte do que se vê no Irã atual em termos de moda, as meninas estão radicalizando assim mesmo... E esse picolé é de romã! Deve ser uma delícia rsrs
      Quanto ao vizinho Afeganistão, realmente são muito contrastes: um amigo iraniano disse que lá no Irã eles vivem muito mal como refugiados, mas ainda assim melhor que lá em sua terra natal. Um ótimo filme que fala dessa realidade é Baran do Majid Majidi
      Um super abraço!

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  2. Salam, alma iraniana!
    Gostei de Jalal Sepehr. Também creio que São Paulo tem uma vida cultural pulsante (até mais que o Rio)Que bom você ter ido à Vila Mariana. Lá há sempre algo novo no ar!

    Uma notícia triste: meu cachorrinho, que faria hoje 1 ano e 8 meses, foi-se embora para um lugar tão longe, tão perto...

    Bauce.

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    1. Salam azizam Denise, a exposição está sensacional! Levei minha amiga iraniana para visitar e ela ficou encantada ao ver o público brasileiro admirando a arte contemporânea do país dela!

      Quanto ao seu cachorrinho, que notícia tão triste mesmo, imagino que ele devia te dar muitas alegrias enquanto estiveram juntos! Mas logo essa tristeza vai se transformar em uma doce saudade e ele estará sempre perto em seu coração! Ok?

      Um bause do tamanho do Golfo Pérsico!

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  3. Salam, Jana Jan! Obrigada de coração pelo carinho. Fizemos um túmulo no quintal, onde brotará uma flor...

    Um abençoado final de semana!

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