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"O Apedrejamento de Soraya M.", uma história real para refletir

Capa do best-seller de Freidoune Sahebjam
Salam! Hoje vou falar de um filme que poderia ser descrito como um "soco no estômago", na falta de expressões melhores para traduzir, uma experiência de golpe em todas as partes do corpo que é "O Apedrejamento de Soraya M.". Deixando claro que apesar da história ser ambientada no Irã, este NÃO é um filme iraniano, como os demais filmes que tenho costume de abordar aqui no blog. Mas um comentário desta produção do diretor irano-americano Cyrus Nowsrateh do ano de 2009, que deixou muita gente mundo afora chocada  não poderia ficar de fora. 
Antes do início do filme somos convidados a ler uma citação do poeta Hafez que explica do que este filme se trata na verdade: da hipocrisia, disfarçada ou justificada pelas ações daqueles que se passam por homens religiosos.
Estamos no ano de 1986, no poeirento e desolado vilarejo de Kuhbpayeh, no coração do Irã onde o jornalista franco-iraniano Freidoune Sahebjam (Jim Caviezel) que na vida real é o autor do livro que deu origem ao filme, pára acidentalmente no vilarejo em busca de alguém que conserte seu carro. Então, inesperadamente ele encontra Zahra (Shohreh Aghdashloo), uma mulher que é taxada de louca pelos homens do vilarejo, por insistir que aquele lugar e seus habitantes escondem um segredo nefasto. Por meio de um bilhete, Zahra combina um encontro secreto com o jornalista em sua casa onde começa a narrar os acontecimentos  pedindo que Freidoune registre tudo em seu gravador  para mostrar ao resto do mundo...

Jim Caviezel no papel do jornalista
 franco-iraniano  Freidoune Sahebjam
A dedicada e fiel Soraya (Mozhan Marno), sobrinha de Zahra era casada com Ali (Navid Negahban), um homem  violento e machista, que através de um pacto com  um mulá (Ali Pourtash) de passado duvidoso  tenta convencer a esposa a  conceder-lhe o divórcio para que ele possa se ​​casar com  Malaka, uma garota de 14 anos de idade! O motivo: o pai da menina condenado a morte por um crime, havia prometido a Ali que a daria sua filha em casamento se este conseguisse livrá-lo da sentença. 
Como Soraya recusa em dar-lhe o divórcio, o mulá propõe a ela um casamento temporário (um tipo de união considerado por muitos como uma afronta), prometendo ajuda financeira para ela e suas duas filhas. Na verdade  Soraya tem quatro filhos, dois meninos que são instigados pelo pai a se voltar contra ela, e duas meninas que são praticamente negligenciadas. Durante o filme, Ali dá mostras do seu caráter torpe e machista o tempo todo espancando Soraya, pelos motivos mais ínfimos, como uma louça quebrada e comparando-a  com a pretendente mais jovem. E ainda por cima exibe-se com seu carro esportivo acompanhado de outras mulheres, enquanto recusa a dar o dinheiro para a esposa comprar comida para os filhos.
Um de seus vizinhos, o mecânico Hashem (Parviz Sayyad), acaba de perder sua esposa, então o mulá, o juiz do vilarejo e Ali tentam  convencer Soraya a trabalhar na casa do viúvo, ajudando a cuidar de seu filho que perdeu a mãe. No entanto, por trás do novo trabalho da esposa, Ali vê a oportunidade ideal para acusá-la de ser adúltera e assim conseguir se livrar dela da maneira mais cruel possível: a morte por apedrejamento. E o seu mau caráter vai além,  afirmando que se Soraya morrer, ele não terá de pagar nenhuma pensão a ela.  A primeira pessoa a se aperceber do terrível complô é justamente  Zahra, que começa a ouvir os mexericos sobre a  suposta infidelidade de sua sobrinha se espalhando pela vila.

Zahra está disposta a defender sua sobrinha Soraya até o fim
O bandido Ali só precisa de mais uma falsa-testemunha para incriminar Soraya. Como não tem ninguém a quem recorrer ele se vale das mais cínicas ameaças e coerções para convencer o viúvo Hashem a contar a mentira que ao trabalhar em sua casa Soraya, também estaria se deitando com ele, e pior ainda, molestando seu filho!
Com esta acusação, Ali tem tudo para armar o seu teatro de acusações infames, arrastando a indefesa Soraya pelas ruas com socos e pontapés. Mas a corajosa tia Zahra consegue tirá-la das mãos do marido carrasco e levá-la para sua casa. Enquanto inicia-se o julgamento forjado com as falsas testemunhas, Zahra tenta encontrar uma forma de fugir com Soraya. Mas no vilarejo, cercada por todos os lados é impossível fugir...
Zahra insiste até o último momento em provar a inocência de Soraya, e está disposta até mesmo a morrer em seu lugar, mas  condenação é inevitável e a cena do apedrejamento é montada. Todos os vizinhos estão presentes e até mesmo o pai de Soraya foi manipulado e convencido a repudiá-a e obrigado a atirar a primeira pedra. A intervenção divina, parece provar a inocência de Soraya quando ele erra três vezes seguidas o alvo das pedras. Então, o carrasco Ali toma para si a tarefa de acertar as primeiras pedras, obrigando seus dois filhos a atirarem em seguida. Cada pedrada parece revelar o verdadeiro sentimento das pessoas presentes no cruel espetáculo, enquanto a inocente Soraya enterrada até a cintura, vestida de branco como um anjo, tem suas vestes tingidas de vemelho pelo sangue e agoniza até a morte. 
Tudo aconteceu no dia anterior...

O marido cruel, por meio de ameaças convence 
falsas testemunhas para incriminar Soraya
Zahra termina de narrar a história para o jornalista. E parece que o cruel Ali é finalmente, o único vencedor dessa maldita história. Mas a justiça (ou seria a intervenção divina?) tarda mas não falha. Agora está nas mãos do jornalista  Freidoune sair do vilarejo com as provas de uma injustiça que tentou ser abafada por homens sem coração. Eles tentam impedir o carro do jornalista de sair do vilarejo e destroem todas as fitas que o jornalista carregava consigo. Mas na verdade, a fita onde estavam as gravações estava nas mãos de Zahra. E antes que os homens do vilarejo saibam, ela entrega para o jornalista estrangeiro a história real que deu origem ao livro brilhantemente adaptado neste grandioso filme!
Cada personagem deste filme  desperta um mundo de sentimentos intensos: Zahra é uma heroína, a encarnação da coragem, a única voz a se levantar sem medo contra a injustiça que todos se recusam a ver; Soraya é uma criatura angelical, que tudo suporta por amor a seus filhos, mas não abre mão de sua dignidade; Ali é um legítimo sangue-de-barata, que se faz de vítima das circunstâncias quando lhe convém, mas não conseguindo convencer a ninguém, apela para a violência, sua única força.
O livro La Femme Lapidée (1990) foi censurado no Irã, mas a história real de Soraya Manutchehri percorreu o mundo como uma denúncia não só as vítimas do apedrejamento, mas  de todos os sistemas que baseados na corrupção condenam pessoas inocentes. Deve-se salientar que o apedrejamento é uma questão controversa mesmo dentro da religião islâmica e sua prática é na verdade o remanescente de uma herança cultural. Para mim este filme trouxe a reflexão de que o machismo, a violência contra a mulher e o silêncio das autoridades não são retratos apenas do Irã e demais países islâmicos. Este filme dá voz as mulheres do mundo inteiro, que sofrem caladas abusos, maltratos e perseguições por parte de seus maridos e/ou familiares, mas por medo e vergonha deixam de denunciar. E quem somos nós diante dessa realidade? Somos os espectadores passivos? Estamos junto com os apedrejadores? Ou denunciamos as injustiças?

>>Assista o filme completo aqui: 
ATENÇÃO: CONTÉM CENAS DE VIOLÊNCIA QUE PODEM CHOCAR PESSOAS SENSÍVEIS!!!


Cor| 114 min| Legendado em Português


17 comentários

  1. Assisti esse filme. Comovente, nos faz pensar quantas Sorayas, seja no oriente, seja no ocidente, passaram e ainda passam por isso...

    *Estou atrás do filme "A Cidade do Sol". Li o livro, e fiquei sabendo que tem um filme..você sabe onde consigo? Beijos

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    1. Salam querida Star, muito bem lembrado! Todas nós com certeza já ouvimos falar de alguma "Soraya" em algum lugar, pode estar acontecendo ali na nossa vizinhança,e não nos damos conta...
      Quanto ao filme "A Cidade do Sol" soube que o roteiro ainda está sendo escrito, e que o lançamento é esperado para 2015 pela Columbia Pictures. Uma pena que esteja tão longe né, mas vale a pena aguardar por uma história tão incrível. Já que você falou desse livro, lembrei que ao assistir a história de Soraya, nunca senti tanto ódio de um personagem, desde que li "A Cidade do Sol", lembra do Rashid, o marido cruel?

      Super beijo e ótima semana!

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  2. nao precisa ir muito longe...isso pipoca de forma desconcertante em nosso planeta infelizmente, respeito as meninas sempre

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  3. Depois de ler "Princesa", da Jean Sasson, eu simplesmente não consigo parar de pesquisar mais e mais sobre o Oriente Médio.É fascinante e ao mesmo tempo triste saber que a maioria das pessoas, pelo menos as que eu convivo, não conhecem a fundo tudo que aconteceu e ainda acontece nesse lado do mundo. Amei o seu blog!

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  4. Salam!!! Assisti esse filme e ele é realmente comovente, cenas muito fortes!! Beijos, Simone.

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  5. A violência contra nós mulheres só tem roupagens diferentes nos mais remotos lugares do mundo, mas é ainda uma realidade nua e crua. Em minha cidade é "comum" matar uma mulher que optou por não estar ligada a um homem seja lá porquê motivo for. Somos todas Sorayas M.

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  6. Filme comovente! Infellizmente a violência contra a mulher ainda é muito forte no mundo. No Brasil não é muito diferente, o fato de aqui não haver apedrejamento público não significa que não ocorram violências similares, ou até piores! A luta é árdua, mas necessária, DENUNCIEM SEMPRE!!! Como disse a Aila Vieria, Somos todas Soraias M.

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  7. tive curiosidade em assistir a esse filme, pois me lembrava dessa história... mas confesso não ter suportado assistir á cena do apedrejamento - vi alguns fleches apenas - e penso que o filme devia ser feito assim mesmo: uma cena longa com detalhes mostrando toda a brutalidade da punição, que mesmo que a pessoa condenada fosse culpada, de fato por qualquer crime hediondo, já seria desumano... o que dirá uma mulher inocente, vítima da maldade de um grupo insano de homens. o filme é tocante, bem feito e passa toda a tragédia do acontecimento. mas o pior de tudo é que sabemos não ser uma ficção, que isso ocorreu muito através da história de muitos povos e ainda hoje a violência contra mulheres, crianças e deficientes, acontece de várias formas e em várias culturas diferentes; o pior é saber que muitas vezes o mal se apodera de corações humanos.

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  8. Minha mulher e eu asistimos ao filme. Fiquei chocado e minha mulher ficou extremamente abalada, teve dificuldades para dormir e trabalhar.
    Como podem ser tão cruéis?

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  9. Sou apaixonada por esse filme. Sempre tive interesse por esse assunto e pela cultura, e o filme despertou ainda mais...a cena final é perfeita.

    Parabéns pelo blogger! Bjs :*

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  10. ja pesquisei em todos os cantos não consigo encontrar o dia mês e ano que soraya nasceu vc poderia me ajudar?

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  11. Nos deveriamos aprender o dom do perdao e do amor ao proximoassim talvez errassemos menos sendo assim mais feliz. MALAQUIAS

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  12. Gostaria de saber o aconteceu com os filhos da soraya, do filme o apedrejamento.

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  13. Ver um pai induzir seu filho a apedrejar sua mãe é cruel fiquei chocada

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  14. Olá gostaria mto de ver o filme, mas está fora do ar. tem como coloca-lo novamente? por favor..

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  15. Olá , muito bom dia !
    Estou pesquisando sobre o cipreste e descobri o seu blog. Estou fascinado com o mesmo ; irei explorar cada assunto que vc publicou e farei outros comentários oportunamente .
    Parabéns !

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  16. Ora, que bando de hipócritas !!!!

    O filme se passa no Irã, depois da revolução iraniana,e no fim do filme há dizeres que leatam TEXTUALMENTE que
    "... focou no apedrejamento NO IRÃ, e ausência de direitos para as mulheres lá" !!
    e que
    " muitas mulheres continuam sendo apedrejadas em muitos países pelo mundo"

    E que países seriam esses ? O Estados Unidos, o Brasil, a França, a Alemanha, ... ??
    Que eu saiba isso SÓ acontece em países MUÇULMANOS !! Em que estas coisas são permitidas por lei !!

    Generalizar, como se os CRIMES que acontecem contra mulheres nos países civilizados - e condenados pela lei - fosse a mesma coisa que um sistema de leis perversas, como é a Sharia islâmica, é de uma hipocrisia e covardia inomináveis !!




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