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Entrevista com a lenda: Mohammad Reza Shajarian

O grande maestro Mohammad Reza-Shajarian
O lendário cantor e compositor iraniano Mohammad Reza Shajarian, é conhecido em todo o mundo como o maior mestre da música persa tradicional da atualidade. Apesar de ter se tornado mais conhecido para os ouvintes ocidentais ao  ser indicado duas vezes ao Grammy na categoria "World Music"  e também  por ser considerado uma das "50 maiores vozes do mundo", Shajarian é um ícone da cena musical no Irã há décadas. Quando em 2009, Shajarian retirou a sua música da rádio estatal para protestar contra os resultados das eleições presidenciais iranianas, tornou-se, de acordo com o professor de estudos religiosos Mohsen Kadivar , "a voz da liberdade e da justiça e para os iranianos."
Shajarian nasceu em 1940, em Mashhad, uma cidade no nordeste do Irã, considerado um grande santuário para os xiitas. Neste ambiente conservador, Shajarian aprendeu a cantar desde criança através das recitações do Alcorão. O artista conta que não foi encorajado por sua família a estudar  a música tradicional persa que viria a torná-lo famoso. "Meu pai costumava dizer que a música era haram, isto é proibido "- declara Reza Shajarian. 
Depois que ele cresceu, passou a reviver séculos de antigas canções persas e projetou novos instrumentos, com suas próprias mãos. Suas letras são muitas vezes retiradas de antigos poemas persas. Embora nos últimos anos, suas canções estejam assumido novos significados. Esta entrevista em duas partes, feita pelo médico psiquiatra Dr. Amir H. Rezvani e pelo professor de estudos religiosos Omid Safi para o The Thread: Duke Peromances' Blog revelam para nós a personalidade simples, a  genialidade e as virtudes deste lendário artista.

Omid Safi: Eu quero começar perguntando sobre a sua biografia e onde surgiu o seu interesse pela carreira musical.

Mohammad Reza Shajarian: Eu descobri por mim mesmo. Meus pais não tiveram nada a ver com isso. Eu não tive nenhum professor. Eu estudei poesia e música por conta própria e insisti nisso.

OS: Houve alguns poetas que te influenciaram especialmente?

M-RS: Hafez e Sa’di. Estes dois foram especialmente importantes para mim.

OS: Você começou pela poesia e depois partiu para a música?

M-RS: Eu comecei  pela música e pelo canto, e depois eu estudei poesia mais sistematicamente ao lado da música.

OS: Eu tenho certeza de que muitos amigos iranianos primeiro se familiarizaram com você por meio do rádio.

M-RS: Na verdade isso foi muito simples. Naquele tempo você ia para o rádio, fazia uma leitura e se eles gostassem de você, você ganhava um programa. E isso foi o que aconteceu comigo.

OS: Há uma oração em especial que muito de nós associamos com você. Isto é, Rabbana. Era a oração que aquela emissora de  TV/Rádio  tocava na ocasião da quebra do jejum (iftar) durante o mês do Ramadan. Você sabe dizer o por que disto?

M-RS: Esta foi uma história divertida. Muitas pessoas que eu conheci no rádio e na TV (do Irã) pediam minha ajuda para treinar aqueles que poderiam recitar orações e poemas para a quebra do jejum  durante o mês de Ramadan.  Eu ensinei a eles como recitar estes versos e isto demorou de três a quatro meses, mas no final eles decidiram que eu mesmo deveria recitar no lugar dos meus alunos. Então eu fiz isto, e acabou se tornando muito significativo.

OS: Eu sei que para muito de nós, quando chega o Ramadan, não dá para deixar de pensar em sua voz.

M-RS: Você é muito gentil. Sempre foi assim por mais de 30 anos.

OS: Agora eu quero perguntar sobre a música e poesia persa. Eu sei que você inventou um bom número de instrumentos musicais. Você irá usar alguns desses instrumentos durante seus concertos?


Shajarian e um dos instrumentos inventados
por ele mesmo.
M-RS: Eu inventei oito ou nove instrumentos, que foram adaptados de instrumentos tradicionais. Estes são para preencher a lacuna entre os instrumentos tradicionais e nós iremos usá-los em nosso concerto. Eles produzem um efeito maior de harmonia. Quando as pessoas os ouvem em grupo, elas notam o efeito diferente desta harmonia.

OS: Eles são parecidos com os instrumentos da família do setar?

M-RS: Eles são instrumentos de corda, como os da família do setar e kamanche. Os músicos podem usá-los embora eles tenham um som diferente. Eu tentei me certificar de que os músicos que sabem tocar instrumentos de corda seriam capazes de usar estes novos instrumentos para preencher as lacunas entre os instrumentos que já existem.

OS: Você tem interesse na “world music?” Hoje em dia, muitas pessoas ouvem não somente a música de seus próprios países, mas também indiana, chinesa, clássicos europeus etc. Qual você acha que é o papel da música persa na world music?

M-RS: Esta  não é  uma pergunta tão simples. Por exemplo, um instrumento como o setar, kamanche ou  piano é como um carro, e você pode ir para qualquer lugar com ele. Instrumentos também são assim, uma vez que você tem um, você pode tocar qualquer melodia facilmente. A música tem a sua linguagem própria. Com estas notas - do-re-mi-fa-so-la-si- qualquer um pode tocar todos os formatos de música. Isto depende do gosto de cada um. Minha esperança é que a música persa seja mais ouvida e conhecida ao redor do mundo. Espero que as pessoas a conheçam melhor e passem a gostar dela.

OS: Que tipo de música você gosta de ouvir?

M-RS: Qualquer música. Eu gosto de boa música. Qualquer uma que me leve a imaginar um belo ambiente e um bom espaço, eu gosto de ouvir.

Amir Rezvani: Como você sabe, sua voz foi reconhecida entre as 50 maiores vozes do mundo. Qual foi a sua opinião sobre este reconhecimento?

Mohammad Reza Shajarian: Há muitas coisas que fazem um cantor. Você pode olhar para a personalidade artística ou social. Há muitos cantores que gostam de cantar e apenas fazer o que querem. Ser reconhecido como uma das 50 maiores vozes do mundo é lisonjeante. Mas não é baseado apenas na voz e na técnica. Mas por causa da criatividade, e é porque minha própria voz se tornou a voz do povo. Neste nível, talvez você possa dizer que minha voz é a única premiada.

AR: Por que você (corretamente) acha que sua própria voz merece ser reconhecida como uma voz premiada?

M-RS: Eu imagino que talvez outros irão pensar o mesmo sobre suas próprias vozes. Se você olhar para minha voz não por uma perspectiva de privilégio étnico ou nacional, mas apenas olhar pela perspectiva da criatividade, o conhecimento vocal e musical., considerando tudo isso, minha voz é diferente. Eu sou um vocalista criativo e um músico teórico. Nenhum dos meus concertos é igual  ao outro. É bem possível que outros tenham uma voz melhor. Claro que eu consigo cantar 19 notas, da mais grave a mais aguda. Um piano tem 50 notas. Eu canto 19 delas em um palco com facilidade! Há alguns cantores que alcançam notas mais graves ou mais agudas, mas nós estamos falando do conjunto e eu posso cantar todas elas.

AR: Eu não sou um especialista em música. mas eu tenho escutado a sua música com carinho por mais de três décadas. Alguém que ouve a sua música, pode entender facilmente a sua mensagem. Suas canções, especialmente nos últimos 30 anos, refletem os sofrimentos, esperanças e aspirações do seu povo. Alguém pode ouvir suas canções e ter uma noção da história da sociedade iraniana. Por exemplo, logo após o devastador terremoto de Bam no Irã, você fez um concerto beneficente para as vítimas. O que o inspira a ser um artista assim?

M-RS: Isto é por causa do meu ponto de vista, meus gostos e minha consciência social. Alguns fazem arte por amor próprio. Eu faço arte para a humanidade. Por amor as pessoas com quem vivo. Quando eu vejo as dores e sofrimentos no rosto da humanidade, eu também as enfrento. Eu também passei por estes sofrimentos. A arte, fundamentalmente é a linguagem da resistência. Não é apenas uma questão de prazer e designação. Em algumas partes do mundo onde há desigualdade, injustiça, sofrimento e opressão, a arte cresce. Isto por causa das pessoas que querem expressar sua resistência através da arte seja ela pintura, cinema, música ou canto. Então eu tenho usado a música como uma arte para o aperfeiçoamento da humanidade, não como uma questão de passatempo. Minha arte tem sido uma arte da resistência e as pessoas entendem que a minha voz é a voz delas. Eu removo o silêncio de seus corações e dou voz a eles. Alguém tem que resistir a opressão e tirania em qualquer lugar do mundo. 

Omid Safi: Um das provas que sua voz se tornou o espelho da alma do povo iraniano foi a canção  Morgh-e Sahar “A Ave do Amanhecer” (assista o vídeo abaixo). Você pode falar para nós sobre este poema e de sua música pare ele, e como este se tornou símbolo de resistência?

M-RS: Esta é a uma daquelas canções que se tornaram a voz do povo, como as canções de Aref [Qazvini] na época da Revolução Constituicional do Irã [1906]. Depois dele, muitos outros compuseram canções de resistência similares, canções de rebelião contra governantes e agressores e uma delas é “A Ave do Amanhecer.” (Nota: O poema é do grande poeta Bahar e a música é composta por Morteza Khan Neydavoud, um grande músico judeu-iraniano - Amir Rezvani).
As pessoas sempre me pedem para cantar esta canção. Isto dá voz a resistência delas. No fim dos meus concertos, o povo sempre aplaude e pede para eu cantar esta canção.

OS:  O que você deseja e espera para a música, cultura e poesia iraniana?

M-RS: Todo mundo espera por isto: o que seja bom para seu povo e seu país. Uma vez  que eu estou no domínio da música e da poesia, eu anseio para que hajam muitos músicos que entrem neste campo e cantem belamente para as pessoas, e que tragam alegria para elas. Esta é a razão pela qual eu venho treinando muitos alunos, e para dar voz a resistência deles. Que eles sejam capazes de dar voz a suas alegrias, vitórias e derrotas. E o mais importante, eu espero que o meu povo tenha uma vida bela e que meu país tenha liberdade e segurança.

OS: Qual é a sua mensagem para os americanos que vêm assistir ao seu concerto? O que você quer que eles saibam sobre o Irã e os iranianos?

M-RS: Assim como  a nossa nobre história que nos deixou como exemplo Ciro, o Grande: que eles saibam que nós somos este tipo de pessoas. Não nos julguem por nossos governantes, saibam que há diferenças.

E finalmente, depois desta entrevista histórica, vale a pena ouvir uma apresentação fantástica da canção Morghe Sahar na voz de Mohammad Reza Shajarian. Neste concerto na cidade de Bam no Irã, ele é acompanhado por seu filho Homayoun Shajarian (tabla) e os outros mestres da música persa Kayhan Kalhor (kamanche) e  Hossein Alizadeh (tar). Acompanhe como realmente o público vai as lágrimas e ao final as vozes de todos aclamam em uníssono o nome do maestro Mohammad Reza !


Baseado em NPR e The Thread: Duke Performances's Blog


7 comentários

  1. Salam Janaina !!!

    Pois é muito interessante a entrevista ... a musica é uma liguagem universal que nos unes apesar das barreiras culturais.
    Gostei do que ele disse não julgar o povo pelos seus governantes ... a imagem que a mídia passa do Irã é que todo mundo é maluco que nem o Ahmadnejad .... o que é uma grande injustiça com um povo que tem uma das culturas mais ricas e antigas do mundo.

    Bjus

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  2. Salam Andréia querida
    Eu também não sou uma fã da política interna do Irã que reprime o direito de expressão do povo na base da força bruta. Mas também não concordo que o presidente Ahmadinejad seja um maluco total como pregado pela mídia ocidental. A verdade é que ele tem um grande apoio do povão, já que ele também é um homem do povo, e já ouvi alguns iranianos dizer que ele "realmente está trabalhando pelo país".Acredito que ele realmente mantém a postura "linha-dura" mais por orgulho e vontade de peitar o ocidente, pois se analisarmos melhor ele é um cara aberto ao diálogo.Levando em conta que quem manda realmente no país são os caras "barbudos de turbante" e são eles que realmente "delimitam o que o povo pode ou não pode" etc. O mais bonito é que o protesto do Shajarian realmente parece refletir a vontade deste povo milenar, mas de espírito jovem, criativo e acolhedor que nada tem a ver com esse jogo rídiculo de quem pode ou não pode ter armas atômicas.

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  3. Salam Amiga Janaina!!

    Exatamento isso o que eu penso ... países que são anti-imperialistas como Irã e Síria sempre terão sua imagem arranhada no Ocidente ... primeiro porque pouca gente entende de politica e a realidades desses países e segundo porque não é vantagem mostrar ao mundo que esses países tem coisas boas pois assim como terão desculpas para criar guerras.
    E o jeito deles, mesmo que falando amigavelmente parece que estão brigando .... e a mídia mostra como eles não gostam de dialogar.
    Os xás mandam muito mais que Ahmadnejad com certeza

    Bjus

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  4. Sim, concordo. A mídia distorce os discursos dos representantes desses países na maioria das vezes. Não é que eles sejam 100% perfeitos e justos, (porque só Deus é) mas, infelizmente são mal compreendidos e sem dúvida o maior injustiçado é o povo que sofre com as consequências destas horrendas guerras.

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  5. Com certeza é o povo quem mais sofre até poeque os presidentes ficam seguros em seus palacios armados até os dentes e o povo que se exploda.
    Perfeitos não são mas me dá uma pontinha de felicidade vendo alguem ir contra os yankees ... pena que o povo é que ta morrendo inocentamente !

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  6. Salam Janaina,

    quando estive no Irã comprei CD de dois artistas. Um mais antigo, clássico e outro contemporâneo. Quando li a matéria tomei até um susto, pois o contemporâneo era exatamente Mohammad Reza Shajarian, que ouvi durante a semana, no carro. Para mim lembra os muezim chamando nas mesquitas. Essa é uma verdadeira arte e passa na TV do Irã. Existem até concursos e provas para o melhor canto, que embala uma tristeza, prima distante dos fados.

    Khoda Hafez, José Henrique

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  7. Salam José Henrique, gostei de saber que além de ir conhecer o país você também procurou as referências musicais do povo iraniano. Como o texto diz, Shajarian não é somente artista de talento e técnica ímpar, mas um grande ser humano que conhece a essência da arte e a transmite em todo o seu ser. Muito interessante saber que exitem estes concursos musicais, vou procurar informações sobre eles para uma futura postagem aqui no blog.

    Khoda hafez

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