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Abbas Kiarostami "Onde fica a casa do meu amigo?''

Onde fica a casa do meu amigo?


Salam amigos! Para estrear este blog gostaria de narrar  a sensação que tive ao assistir o filme "Onde fica a casa do meu amigo?" essa obra prima do cinema iraniano.
Logo no início, somos convidados a participar do cotidiano de uma escola para meninos no interior do Irã dos anos 80. Imediatamente me senti no lugar do pequeno Mohamed Reza, cujo professor havia rasgado sua lição de casa feita numa folha de papel a parte por ter esquecido seu caderno na casa do primo pela 3ª vez!!! (a próxima ele seria expulso da escola!)
Quanta indignação!! Porém sentado ao seu lado está o altruísta Ahmad (Babak Ahmadpour), que observa tudo com o olhar mais repleto de compaixão que eu já vi em toda minha vida. O pequeno Ahmad, ainda dá provas de sua nobreza ao ajudar o amiguinho que se machuca na bagunça ao final da aula. E durante todo o filme, tomado por uma energia incessante, ajuda sua mãe a cuidar do irmãozinho bebê e ainda parte em uma verdadeira "odisséia" para devolver o caderno idêntico de Mohamed Reza tomado por engano.


Ahmad e Mohammad Reza
O cinema iraniano tem me cativado por sua simplicidade e sensibilidade fora do comum, em outras oportunidades postarei aqui minhas impressões sobre filmes como "A Maçã" de Samira Makhmabalf, que possuem a incrível fórmula do cotidiano de pessoas comuns. Também não pretendo me demorar comentando sobre a maestria ímpar de Abbas Kiarostami e Mohsen Makhmabalf.
No entanto, voltando a jornada do nosso querido protagonista Ahmed, que benza Deus!!! onde o garoto de 8 anos conseguia tanto gás para ir correndo de sua vila (Koker) até a vila do amigo (Poshteh), e sem saber o endereço sair perguntando para pessoas que não se mostravam nem um pouco dispostas a ajudá-lo???

Ahmad, um garoto aparentemente frágil e de voz mansinha...
Percorre um longo caminho para ajudar o amigo ...
O que mais chama a atenção é a aparente "fragilidade" do garoto de 8 anos e voz mansinha, nem mesmo sua enérgica mãe o escuta direito e tampouco o ganancioso vendedor de portas que pensa ele ser o pai do seu colega. Numa carreira desabalada, Ahmad segue a mula do homem que corre bastante também e chegando a casa do homem ele encontra um desconhecido xará de Mohamed Reza!!!
O dia passa... já está ficando noite no Poshteh e Ahmed ainda não encontrou o seu coleguinha, nem fez sua lição de casa, nem comprou o pão que sua mãe tinha mandado!!! (Eu ficava só imaginando a surra que o aguardaria quando ele chegasse em casa ... snif!!! )
Para salvar o dia, ele acaba encontrando um velho conhecido de seu pai que mostra o caminho da casa do amiguinho... porém estranhamente o Ahmad nem sequer bate a porta da casa e dá meia volta atordoado. Pensei, todo esse trabalho, no mínimo eu colocaria o caderno por baixo da porta e pronto!!! Mas esse gesto, parece confirmar que a generosidade do nosso heroizinho não acaba aí. Ao chegar em casa o Ahmad ainda se recusa a jantar e ainda faz a lição do coleguinha!!!
E cumprir o seu dever...
Na última cena, de volta a sala de aula, enquanto o autoritário professor corrige as lições dos outros meninos encontramos Mohamed Reza angustiado e Ahmad... ausente! O garoto já ia entregar novamente sua lição em uma folha qualquer quando Ahmad chega atrasado e recebe as broncas do professor! Mas quando o professor finalmente corrige a lição de Mohamed Reza feita por Ahmad, eu cheguei a levantar da cadeira e gritar, dá-lhe Ahmad (como se fosse um gol do Brasil ... rsrsrs)!!
Ao terminar de assistir esse filme, fiquei longos minutos meditando... da mesma maneira que 10 anos mais tarde Kiarostami, ia mostrar em "Gosto de Cereja" e "Dez", o filme iraniano não nos coloca apenas como meros espectadores de cenas mirabolantes, mas aborda através do seu realismo questões universais, como educação e relações entre familiares e vizinhos e as expõe corajosamente aos olhos do mundo.




11 comentários

  1. Este aqui é comovente (como muitos filmes iranianos). Inacreditável a atuação que eles conseguem tirar das crianças! Choros realmente nervosos! Fico até imaginando se não esconderam as câmeras e filmaram situações reais dentro da sala de aula!

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    1. Salam Fereydoun! Que belo nome! Fico muito feliz em ver seu comentário nesta postagem que foi o início do blog. O cinema iraniano realmente tem a característica de não nos deixar distinguir o que é atuação e o que é realidade. Ouvi falar que o cineasta Majid Majidi em alguns momentos esconde as câmeras a fim de obter maior espontaneidade, provavelmente Kiarostami é adepto da mesma tecnica.

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    2. Obrigado. Mas é apenas pseudônimo mesmo... Nossa, Janaína! É até cruel! Coitadinho do Nematzadeh naquela primeira cena, quando o professor pressiona ele até o limite por causa do caderno! Deviam ser todas realmente alunos daquele professor e este devia ser intimidante na vida real mesmo... Ou esses meninos tinham outros motivos para estar aterrorizados: o filme é de 1987, a guerra estava em seus estágios mais decisivos e medonhos. Na verdade, acho que todo o povo devia estar constantemente com os nervos em frangalhos. Essas crianças com carinhas de sofrimento! É de dilacerar o coração! Vontade de pegar no colo!

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    3. Salam Fereydoun, é um belíssimo pseudônimo, um herói do Shahnameh... Quando vi esse filme pela primeira vez não me dei conta de pesquisar o contexto histórico, mas agora que você falou vou assiti-lo com outros olhos. Esse filme me encantou de tal forma que os três filmes seguintes que assisti também foram de Kiarostami (eu nem tinha começado o blog ainda). Você sabia que no filme "E a vida continua" o menino que protagoniza esse filme aparece já adolescente? Essas crianças realmente parecem anjos!

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    4. Verdade?! O Ahmad tornou a trabalhar no cinema?! Ainda bem que não aconteceu o que acontece com muitos atores e atrizes (não por falta de taleno) que acabam sendo esquecidos. E haja presença de espírito para se acostumar com o anonimato depois que se fica famoso na infância! Preciso achar esse "E a Vida Continua"... Você tem o título em persa para me informar? Muito obrigado, Janaína!

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    5. Bem, ele não chegou a se tornar um ator profissional. Esqueci de mencionar que o outro menino (Mohmmad Reza) também aparece nesse filme cujo tema é a busca por Ahmad após o terremoto no norte do Irã em 1990. Em "Por que há tantos terremotos no Irã?" ambos os garotos aparecem na foto que usei para ilustrar o post.
      Vou tentar colocar o filme aqui em breve, mas se quiser procurá-lo é Zendegi va Digar Hich (que também pode ser traduzido como "Vida e nada mais").

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    6. Muitíssimo agradecido, Janaína! Vou correndo procurar! Então é Zendegi va Digar Hich? Vou correndo procurar! Sei que será difícil achar, mas tentarei. Como é frustrante a busca por filmes iranianos em boa qualidade e com legendas acessíveis. Da Asal Badii, por exemplo, não achei nada legendado. Tive que tentar entender as histórias só pelas imagens mesmo. Da Asal só achei Haft Parde, Dast Haye Aludeh, Dathayeh Aludeh e Boodan Ya Naboodan no canal abaixo e num outro site que também disponibiliza filmes online, mas que não me lembro mais o nome. Todos em péssima qualidade, sem contar a qualidade já baixa de som e imagem que todos esses filmes originalmente têm, devido aos equipamentos obsoletos que os cineastas iranianos são obrigados a usar. Cada um desses filmes parece ser dez ou quinze anos mais velhos do que realmente são!

      Preciso formar uma videoteca iraniana decente. Compraria, com o maior prazer, DVDs originais. Mas onde posso achar?

      Alguns filmes de Asal Badii neste canal do You Tube:
      http://www.youtube.com/feed/UCow4cE4RFC813rwFAA-AlkA

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  2. Achei! No You Tube mesmo! Consegui achar com boa qualidade e legendas em inglês! Vou baixar agora mesmo!
    http://www.youtube.com/watch?v=RMXF8uoPM3M

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  3. Este canal do YouTube tem várias pérolas! Todos em qualidade satisfatória e legendados! Como não achei isso antes?!

    http://www.youtube.com/user/IMVBox?feature=watch

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  4. Minha nossa! Janaína, veja o canal acima! Tem até filmes em HD (720px)! Além de longa-metragens tem também curtas e documentários que me parecem muito interessantes! Isso aqui é um achado!

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  5. Que sucesso Fereydoun! Esse é realmente um achado, vou assistir tudo (acho que 1 a cada semana)! Aí tem filmes que há tempos eu procurava! E vou divulgar os documentários também...
    Muitíssimo obrigada pela dica!!!

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